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História

Nem pagando....


Quando o tenente Dilermando de Assis tomou a mulher e a vida de Euclides da Cunha, a imprensa da época, e os biógrafos do escritor por muito tempo, pintaram-no como um assassino nefando. Dilermando matou Euclides, em 15 de agosto de 1909, quando o escritor invadiu a casa onde a mulher dele, que o abandonara, vivia com o jovem tenente. Euclides meteu o pé na porta e disparou seis tiros, alvejando pelas costas até um irmão do desafeto. Dilermando, que era campeão de tiro e esgrima na Escola Militar, mesmo baleado, matou-o com um tiro no coração. Seis anos depois, a tragédia se repetiu, quando um filho de Euclides tentou vingar o pai e também foi morto pelo amante da mãe. Já consagrado autor de Os Sertões e de Contrastes e Confrontos, o grande escritor, um dos maiores do Brasil, contou com a simpatia do público, a fraude da polícia e a distorção da imprensa.

O inquérito policial referia-se ao morto como "saudoso escritor". Os jornais pediam a cabeça do "assassino", de 21 anos, que desde os 17 namorava Ana, a mulher de Euclides. Uma certa Folha do Dia chamava-o de "audacioso e cínico", "ente desprezível e asqueroso". Intelectuais como Coelho Neto, Afrânio Peixoto e o Barão do Rio Branco escreviam artigos que envenenavam a opinião pública. "Foi como se um semideus tivesse sido abatido a tiros", escreveria anos depois Raimundo Magalhães Júnior. Mas Dilermando foi absolvido duas vezes, por legítima defesa. O tempo custou a dar-lhe razão. Na biografia A Vida Dramática de Euclides da Cunha, Elói Pontes reproduziu toda a campanha da polícia e da elite cultural contra o tenente. Para promover o livro, a Editora José Olympio expôs, na Rua do Ouvidor, a carteira trespassada de balas e uma foto de Euclides na mesa do necrotério.

Até que em 1941, 32 anos depois, o repórter Francisco de Assis Barbosa, também autor de uma reputada biografia do escritor Lima Barreto, restabeleceu a verdade na imprensa. Numa reportagem para a revista Diretrizes, criada por Samuel Wainer, Barbosa deu enfim a palavra a Dilermando e abonou a tese da legítima defesa. Já coronel do Exército, Dilermando queixou-se de que nem pagando conseguiria imprimir sua versão na cobertura no incidente:
- Minha defesa jamais foi aceita pela imprensa. "Contra o tenente Dilermando, tudo. A favor, nada. Nem que nos paguem contos de réis", declarou um jornalista a um amigo, Álvaro Moutinho da Costa, hoje juiz de Direito, que lhe apresentara um artigo defendendo-me - disse Dilermando a Diretrizes.


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Boletim Nº 30 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 10 - Janeiro de 2000