Instituto Gutenberg

Escola Base

O povo paga

Imprensa empurra reparação para o governo
Todos sabemos que três vítimas da polícia e da imprensa no famoso Caso Escola Base vão receber uma indenização do Estado (governo) por terem sido injusta e criminosamente acusados de molestar alunos. Em dezembro, os grandes jornais se empenharam em entronizar manchetes eloqüentes como "Donos da Escola Base ganham indenização" (Estadão) ou "Governo de São Paulo é condenado a pagar R$ 300 mil a dono da Escola Base" (Folha) - esta última, aliás, errada, como se verá adiante. Jornais e noticiários de TV, como os da Globo, fizeram extensas reportagens de rememoração do caso e adotaram o tom de muito justo. Afinal, quem vai pagar o estrago é o contribuinte. O que os jornais não dizem - em rigor, escondem do público - é que alguns meios de comunicação estão sendo igualmente processados para pagarem indenização milionárias a algumas das suas vítimas no lamentável episódio.

 As indenizações concedidas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo cobrem apenas uma parte da bateria de processos. Em 1996, o juiz Luís Paulo Aliende mandou o governo paulista pagar cem salários mínimos - R$ 1,36 mil hoje - ao casal proprietário da escola, Icushiro Shimada e sua mulher Maria Aparecida, e ao motorista Maurício Alvarenga. O advogado do trio, Kalil Rocha Abdala, achou pouco, pediu 25 mil salários (R$ 3,4 milhões) mas agora o Tribunal fixou o valor base de R$ 100 mil para cada um, a título de reparação moral, e uma quantia a ser calculada para ressarcir os danos materiais. Maria Aparecida receberá também uma pensão vitalícia por ter sido obrigada a abandonar o ramo da educação. É de notar que, segundo as reportagens dos jornais, o Tribunal de Justiça responsabilizou apenas o delegado Edélcio Lemos pelo infortúnio das vítimas. O delegado, de fato, agiu como uma testemunha de acusação, dando como certos fatos que só poderia abonar se os tivesse presenciado, e fez isso nos primeiros dias da suposta investigação. 

Eis um dos maiores desvios da polícia brasileira: esclarece crimes em minutos, desde que os acusados sejam pobres, não tenham influência na sociedade e, naturalmente, que haja uma câmera de TV por perto. Pela denunciação caluniosa, o delegado Lemos foi condenado a pagar R$ 10 mil do próprio bolso. Quanto à imprensa, um grande conluio conduz à conclusão, cada vez mais sólida, de que errou, mas induzida pela polícia. Além de ser uma mentira, é um atestado de renúncia ao jornalismo. Jornais selecionam o que publicam. E a maioria dos meios de comunicação avalizou a denúncia original de duas mães de alunos como verdade transitada em julgado. Lúcia Eiko Tanoi e Cléa Parente queixaram-se na delegacia do bairro do Cambuci, em São Paulo, em março de 1994, que seus filhos de quatro e cinco anos estavam sendo molestados sexualmente na escola e talvez levados numa Kombi para orgias num motel, onde seriam fotografados e filmados.

 Noticiários de TVs como a Globo e mesmo a Cultura de São Paulo tiraram do episódio tudo que de sórdido poderiam extrair. A Cultura - a TV educativa, dita de altos padrões éticos - entrevistou crianças de quatro anos, induzindo respostas, conforme a reconstituição de Alex Ribeiro no livro Caso Escola Base - Os Abusos da Imprensa:

 "- Esta mulher, ela deitava em cima de você?
- Deitava.
- O que ela fazia, o que ela queria?
Diante da relutância do garoto, o jornalista sugeriu a resposta: - Te beijar a boca?
O garoto respondeu com um aceno de cabeça..."

 Jornais enlamearam o jornalismo e a civilização publicando manchetes do tipo "Perua escolar carregava crianças para orgia" (Folha da Tarde) ou "Kombi era motel na escolinha do sexo" (Notícias Populares). Títulos assertivos, cravados, sem atribuição a fonte. Por essas e outras, enquanto o advogado Abdala preferiu cobrar a fatura do governo, a advogada Marisa Elisa Munhol (leia a entrevista) responsabiliza meios de comunicação e cobra, para duas vítimas da imprensa, uma indenização de R$ 6,6 milhões. 
 

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Boletim Nº 30 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 10 - Janeiro de 2000