Instituto Gutenberg

Censura

Chama o ladrão

Dono de jornal desonra a liberdade de imprensa

Que tal dono de jornal chamar a censura? No Brasil isso acontece. Se é surpresa, não é menos decepcionante que os guardiães da liberdade de imprensa façam de conta que tamanha iniqüidade é irrelevante. O empresário Paulo Guimarães, dono do Meio Norte, o maior diário do Piauí, obteve na Justiça uma liminar para impedir que os concorrentes noticiassem a acusação que ele participa do crime organizado investigado pela CPI do Narcotráfico.

O dono do Meio Norte não titubeou: pediu à Justiça que implantasse a censura prévia no Estado. Seu alvo, o concorrente O Dia, botou a boca no trombone, clamando pela liberdade pisoteada pelo juiz Francisco de Assis Braz e Silva. Se publicasse o nome de Guimarães, ainda que citando autoridades, O Dia pagaria uma multa de R$ 20 mil. Mais tarde, o Tribunal de Justiça do Piauí suspendeu a censura prévia.

Tão grave quanto o episódio foi a leniência da grande imprensa do sul, sempre disposta a crucificar os inimigos da liberdade de imprensa, mas complacente com um colega indigno do jornalismo. Na reportagem "Juiz censura notícias sobre prefeitos" (27/11), a Folha destacou no antetítulo: "CRIME ORGANIZADO Justiça proíbe imprensa de Teresina de citar nomes de políticos em reportagens sobre crime". Nomes de políticos...O nono parágrafo do texto informava que a censura imposta pelo juiz beneficiava "principalmente empresas e políticos." Empresas e políticos...Era verdade, mas não tudo. Uma das liminares pró-censura concedidas pela Justiça foi pedida pela Associação Piauiense de Prefeituras Municipais, que discordava da linha abusiva de reportagens sobre um suposto esquema de corrupção patrocinado por prefeitos e policiais-militares do Estado. O décimo parágrafo da Folha dizia sobre as liminares: "A última foi obtida no dia 18 deste mês pelo empresário Paulo Guimarães, dono do telebingo Poupa Ganha e do Sistema Meio Norte de Comunicações." E só.

Ah! se fosse um político o agente da censura. Para comparar: os principais meios de comunicação não economizaram críticas ao veto do governador de Mato Grosso do Sul, Zeca do PT, a uma reportagem da TV educativa local sobre o emprego de parentes dele no governo. A natureza oligárquica da imprensa brasileira se expressa nesses episódios porque ela teme que o público, incentivado pelo exemplo de um dono de jornal, ache natural impedir a publicação de reportagens incômodas. Quem ousar, no entanto, será linchado nas páginas.

Há uma definição clássica de notícia que se aplica ao caso como a mão à luva. Disse o jornalista americano Charles Dana (1819-1879): "Quando um cachorro morde uma pessoa, isto não é notícia. Mas quando uma pessoa morde um cachorro, isto é notícia." Dono de jornal pedir censura - até para o dele!- é como um cidadão cair de quatro, latir au-au e abocanhar os transeuntes. Por esse critério, a trava que o diretor-presidente do Meio Norte impôs a toda a imprensa do Piauí era a novidade (e a vergonha...) por excelência, daí a informação merecer as manchetes, em vez de ser escondida no décimo parágrafo de uma reportagem.

O Estadão, numa entrevista de que publicou dez perguntas feitas "com exclusividade" ao empresário-censor ("Dono do Poupa Ganha ataca governo do PI", 25/11) não mencionou a censura. À vontade, Guimarães pôde invocar a liberdade de imprensa, a independência jornalística, a vendeta dos políticos, a autonomia editorial e outros truques de marketing como motivo para ter sido acusado de lavagem de dinheiro do narcotráfico. "Isso é fruto de uma linha editorial dessas nossas empresas, que são dirigidas por jornalistas e não por mim. Nosso jornal foi o primeiro a denunciar os desmandos no Estado, com uma linha independente, o que trouxe muitos inimigos para o grupo. Pessoas passaram a montar dossiês fantasiosos, criticando e questionando todos os negócios do grupo, como essa de um aeroporto que é legal, cujos pousos e decolagens são autorizados e monitorados pelo Departamento de Aviação Civil, não tem nada de clandestina."

É possível e verossímil, até prova em contrário. O empresário Paulo Guimarães pode ser mais uma vítima da imprensa. Jornais, como acaba de dizer no outro lado do tiroteio o dono de um deles, mentem, perseguem adversários, fazem campanhas absurdas contra desafetos. Mas chamar a censura... Registre-se que o Meio Norte, criado em 1995 como parte de um grupo de 17 empresas, é o maior jornal da cidade, com 88,9% dos leitores de Teresina (12 mil exemplares na semana e 14 mil aos domingos).

Para agravar o incidente, o Meio Norte integra a Associação Nacional de Jornais (ANJ), entidade corporativa que protesta toda vez que um político olha feio para um jornalista. Que fez a ANJ em defesa da liberdade de imprensa cassada a pedido de seu associado? A entidade divulgou a clássica nota de repúdio ao "inaceitável ato de censura inadmissível numa democracia". Nenhum palavra sobre a iniciativa do dono de jornal que desceu a cortina da treva quando se considerou vítima de mentiras da imprensa. Enquanto era bombardeado com as notícias adversas dos concorrentes, o Meio Norte não se furtou a ouvir o "outro lado": publicava na primeira página o quadro "Desfazendo as mentiras", no qual rebatia as acusações contra... "o Grupo Meio Norte". E seguiam-se explicações sobre aeroportos, bingos, distribuidoras de remédios, shoppings e outros objetos da investigação da CPI do Narcotráfico.

Para manter-se como defensora da liberdade de imprensa, a ANJ deveria expulsar o Meio Norte do quadro de associados. Pode valer-se do exemplo da Associação Mundial de Jornais, que excluiu a representação da Tunísia do 50º Congresso Mundial da Indústria Jornalística, realizado em 1997, na Holanda. A Associação concluiu que a imprensa da Tunísia acovardara-se perante os desmandos do governo do presidente Zine-al-Abidine ben-Ali, que, além de outras barbaridades mais graves, como matar adversários, era acusado de perseguir e prender jornalistas. O recado da Associação Mundial de Jornais, presidida na época pelo brasileiro Jayme Sirotsky, foi muito claro: é obrigação dos proprietários de meios de comunicação defender a livre expressão em todos os níveis.

Nesse meio tempo, o empresário-censor, protegido pelo corporativismo mais tacanho da indústria da mídia, ganhou o título de "Líder Empresarial do Estado do Piauí", outorgado pelo jornal Gazeta Mercantil.


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Boletim Nº 30 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 10 - Janeiro de 2000