Instituto Gutenberg

Liberdade de imprensa

Os sem-obituário

Atentados a jornalistas no Canadá e Estados Unidos
não aparecem nos relatórios da SIP

Em 1º de fevereiro, o jornalista Shafqat Chughtai, de 52 anos, editor do semanário Sada-E-Paquistão, foi atacado por desconhecidos em seu escritório no Brooklin, Nova York. Um dos agressores, empunhando um taco de beisebol, bateu-lhe na cabeça, quebrou-lhe um dedo e um braço. "Eles estavam tentando me matar, e quase conseguiram", disse Chughtai (Extraído da revista American Journalism Review).
"Em 26 de maio, a jornalista Maria Elena Covre e o fotógrafo Junior Vignola, ambos do jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, foram impedidos de continuar a apuração de denúncia de expulsão de alunos e violência escolar na Escola Estadual Galante Nora" (Trecho literal do relatório sobre o Brasil da Sociedade Interamericana de Imprensa).

Qual dos dois episódios merecia mais destaque num relatório sobre agressões a jornalistas? A resposta decompõe-se nos filtros ideológicos de quem prepara os levantamentos. Para a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o impedimento do trabalho dos dois repórteres do jornal brasileiro Diário da Região é mais importante - tão mais relevante que foi apontado pela entidade como um dos "episódios relativos à censura e agressões" dignas de nota no Brasil em 1999, enquanto o espancamento do editor do Sada-E-Paquistão em Nova York foi inteiramente omitido.
O "Relatório sobre liberdade de imprensa 2000" da SIP fecha os olhos para os crimes contra jornais, jornalistas e a liberdade de imprensa cometidos nos Estados Unidos e no Canadá - exceto para os casos civis levados aos tribunais. Em contrapartida, a SIP é pródiga em relacionar incidentes criminais na América Latina. A razão talvez seja racial: as vítimas da brutalidade nos países ricos da América são na grande maioria imigrantes, repórteres e editores de origem latina ou asiática. Eles são ameaçados, agredidos e assassinados sem que a entidade que reúne os principais jornais do continente se digne a citá-los em seus relatórios de defesa da liberdade de imprensa. Desde que Don Bolles, repórter do Arizona Republic, morreu ao ter o carro explodido por uma bomba, em 1976, nenhum jornalista branco da grande imprensa nacional americana foi assassinado nos Estados Unidos em razão de seu trabalho.
Há um ano, este boletim apontou a seletividade das denúncias da SIP. Que atentados contra a imprensa ocorreram no Canadá em 1998? O relatório preliminar da Sociedade relacionou como "acontecimentos principais" duas questões legais tratadas em tribunais de Ontário e Québec, e ignorou nada menos que o assassinato do jornalista Tara Singh Hayer, editor do Indo-Canadian Times, morto em 18 de novembro, em Vancôver. Minúcia: apesar de ter a cidadania canadense, Hayer era de origem indiana e publicava seu semanário na língua "pujabi". No relatório para o ano 2000, novamente a SIP circunscreveu-se a casos de tribunal - indenizações, decisões judiciais sobre os limites da imprensa, etc. - como "os principais eventos" relativos à liberdade de imprensa no Canadá. Citou casos ocorridos desde 1995, mas reiterou a omissão sobre a morte de um jornalista.
Incidentes como o de Hayer e Chughtai foram enfim tratados pela imprensa especializada dos Estados Unidos. A revista American Journalism Review publicou na edição de novembro um longo artigo assinado por William Kleinknecht mostrando que tanto as entidades corporativas, como a grande mídia, ignoram as agressões e assassinatos de jornalistas não-americanos que trabalham nos Estados Unidos. A reportagem de Kleinknecht menciona um solitário relatório do Comitê de Proteção dos Jornalistas, com sede em Nova York, que, em 1994, listou 13 assassinatos de jornalistas nos Estados Unidos e Canadá. Segundo o relatório, preparado pelo executivo Joel Simon, só um caso fora esclarecido, o do jornalista cubano Manuel Dios Unanue, morto a mando de um narcotraficante. Depois da divulgação do levantamento do Comitê, que tem entre seus patronos nomes lendários do jornalismo americano, como o âncora Walter Cronkite e a diretora do Washington Post Catharine Graham, o FBI anunciou um inquérito.
Procurada pelo repórter da American Journalism Review, a porta-voz da polícia federal americana em Los Angeles, Laura Bosley, disse que as investigações estão em andamento e são sigilosas. Mortes como a de Nguyen Dam Phong, editor de um jornal em língua vietnamita no Texas, assassinado em 1982, continuam impunes e fora das listas da SIP. Da mesma forma, permanecem desconhecidos, e soltos, os matadores de outros cinco jornalistas de origem vietnamita que trabalhavam na Califórnia.
O presidente honorário vitalício da SIP, Lee Hills, é do grupo Knight-Ridder, de Miami, Flórida. O presidente, Tony Pederson, do Houston Chronicle, fica em Houston, Texas. Pelo visto, nada sabem sobre a impunidade de crimes contra a imprensa em seus locais de trabalho.


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Boletim Nº 30 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 2000

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 11 - Fevereiro de 2000