Instituto Gutenberg

Justiça

Notícia-crime

Repórter falsifica documento é processado

Demorou, mas um promotor - um, enfim, na legião que corteja a mídia e fecha os olhos para os delitos do papel - tem a ousadia de processar um jornalista que comete um crime a pretexto de denunciar outro. O procurador-geral da Bahia, Raimundo Viana, mandou processar criminalmente um repórter e um motorista do jornal A Tarde, o mais antigo e tradicional do estado, por falsificação de documentos. O jornalista Marconi de Souza aplicou o velho golpe de jogar o fósforo e gritar "Fogo": foi a um posto do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC), em Salvador, onde a população pobre tira documentos rápida e gratuitamente, e obteve uma carteira de identidade em nome do motorista César Mendes da Conceição. A seguir o motorista tirou um documento similar em nome do repórter. A dupla cometeu seu delito particular e anunciou pelo jornal, em 7/1: "SAC está emitindo documentos falsos".

A única prova de falsidade era a própria reportagem, mas a tramóia foi explicada como uma forma de "colaborar para a moralização de um serviço que até então tem sido benéfico à população." Para acentuar a tradicional promiscuidade entre crime, imprensa e polícia, a reportagem informou: "A denúncia chegou a A Tarde através de um delegado."

O procurador Viana não achou nada edificante. "A matéria se configura uma confissão de crime, ainda que noticie um fato que, porventura, possa ser ocorrente. Criar essa notícia é um ardil, uma fraude", disse Viana ao Correio da Bahia - que, aliás, numa corporativa traição às regras do lide (quem?), deu a notícia do processo sem revelar o nome do repórter. Mas quando um vereador do cafundó falsifica a papelada do Funrural, para beneficiar um lavrador desamparado, seu nome sai na manchete.

Fraude, falsidade ideológica, falsa identidade têm sido ingredientes de reportagens no Brasil. Repórteres, com o incentivo das empresas, encomendam diplomas falsos, compram gente, furtam recém-nascidos - como fez Rovenia Amorim, do Jornal de Brasília, que em 8 de outubro de 1996 raptou o bebê de Vilma da Silva do Hospital regional da Asa Sul, em Brasília. Seu objetivo era demonstrar a insegurança do berçário...Vilma era, evidentemente, uma mulher pobre. A segurança do hospital chamou a polícia, a repórter foi defendida pela Federação Nacional dos Jornalistas e pela OAB do Distrito Federal. "Repórter é presa ao mostrar que é fácil roubar bebê", comemorou o Jornal de Brasília no dia seguinte. Rovenia se deu bem: ganhou um emprego melhor, no Correio Braziliense. Nem a ficção vai tão longe. Kirk Douglas, no papel de Charles Tatum no filme A Montanha dos Sete Abutres, não fez melhor ao manter preso numa gruta um pobre diabo que lhe rendia notícias exclusivas.

Decididamente, a liberdade de imprensa não apadrinha crimes. É um valor democrático a ser preservado com dignidade e dentro da lei pelos que dele se servem e, em especial, pelos que o exploram comercialmente. Ociosa é a alegação de que os fins justificam os meios, segundo a qual os jornalistas fazem o mal para obter o bem e não se beneficiam dos delitos que cometem. Não é bem assim.

Notícias fraudulentas vendem jornal e até rendem prêmios aos repórteres que usam o jornalismo como escudo para a impunidade. Práticas nefastas como essas foram abolidas da imprensa de países desenvolvidos, sobretudo da dos Estados Unidos. É de esperar que a iniciativa do Ministério Público da Bahia contribua para acabar com a lenda de que no Brasil todos são iguais perante a lei, exceto a imprensa. Ainda está de pé a lição de A.M. Rosenthal, ex-editor do New York Times: "Exigimos os direitos e os privilégios da Primeira Emenda [dispositivo que garante a inviolabilidade da liberdade de imprensa nos EUA] e depois assumimos papéis dúbios, fazendo-nos passar por pessoas diferentes daquilo que somos. Dizer que assim se consegue uma reportagem melhor ou que se serve melhor o público, não muda nada. Ainda está errado."


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 30 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 2000

  Índice

igutenberg@igutenberg.org


Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 11 - Fevereiro de 2000

Leia mais:
Repórter que usa falsa identidade engana a fonte e comete crime