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Roda-diva

Quando o entrevistador brilha mais que o entrevistado

A fórmula do Programa Roda-Viva, a mesma do plenário do Congresso, entroniza os entrevistadores numa galeria acima do entrevistado - e, às vezes, no terceiro andar, embora sem direito à palavra, empoleira-se uma espécie de platéia. A sensação de estar por cima parece inflar a vaidade dos jornalistas, nada dispostos a cumprir apenas sua modesta tarefa de perguntar. Com a exceção do mediador Paulo Markun, que sempre fecha suas frases com um ponto de interrogação, raramente alguém faz uma indagação seca, direta. Em geral fazem-se perorações, prolixas e argumentativas como uma tese de palanque. O artifício mais comum consiste em antepor a marota expressão "O senhor não acha que..." Segue-se um angu epistemológico no qual resplende a visão do mundo do entrevistador, a doutrina que ele gostaria que o entrevistado acatasse ou, ao menos, repetisse, pois, afinal, os jornalistas não são ninguém sem as aspas que dão vida às suas inteligentes argumentações.

Muitas vezes o programa lembra a algaravia de um pregão da bolsa de valores. Jornalistas e convidados, em número excessivo para uma entrevista cujo objetivo fosse realmente extrair informações de interesse público, disputam a palavra e, ao final, cabe ao entrevistado decidir quem pergunta e a quem responde. É muito cacique para um só índio. O jornalista Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, disse, em artigo no jornal, com a experiência de quem já esteve mais de uma vez na cadeira giratória: "O programa "Roda Viva" é uma das maiores ilusões de ótica da televisão brasileira. Ao contrário do que parece, o "formato" do programa, em que a vítima se vê na arena de um coliseu de papelão, favorece o entrevistado. Basta-lhe voltar as costas para um dos entrevistadores, que estão se acotovelando pela sua vez de falar. Ele vira a cadeira, o assunto muda."

Um desvio comprometedor do Roda-Viva é a representação. Os jornalistas e convidados não falam apenas por si, mas também, e às vezes principalmente, em nome das instituições que aparecem embaixo de seu nome no vídeo. Se o entrevistado faz menção a um jornal ali representado, o representante toma a palavra para defender a empresa em que trabalha. Numa entrevista com o presidente do Ibope, Carlos Montenegro, o jornalista José Roberto Toledo, editor na Folha das pesquisas do Datafolha, respondeu ao vivo, como um porta-voz do instituto, a críticas do dono do Ibope.

Tem sido intolerável, ainda mais, o desvio parlamentar de repórteres que, influenciados pela arquitetura do programa, polemizam como se estivessem num debate. Dão palpites, opiniões, às vezes divergem entre si. Há casos em que os entrevistadores cometem outro pecado capital, o de tentar adivinhar o pensamento do entrevistado, completando-lhe as respostas, ajudando-o quando a memória falha. Nada se compara, no entanto, ao erro de intrometer-se com julgamentos próprios do público. Numa entrevista com o presidenciável Ciro Gomes, no final de setembro, a colunista Dora Kramer, do Jornal do Brasil, interrompeu uma resposta para sentenciar: "Isso é uma quimera". Quem age assim, deveria ficar em casa, diante da TV, para aplaudir ou condenar de acordo com as suas idéias.


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Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Novembro de 1999