Aurélio S.m. Instituto Gutenberg
logojj.gif - 14,47 K

Idioma

Aurélio S.m.

Dicionário primoroso

Um romance de Sidney Sheldon, um novo filme da série Guerra nas Estrelas, qualquer bobajada performática teriam ganhado mais destaque que o lançamento do dicionário Aurélio Século XXI. Para os grandes jornais, o Aurélio é aquele cartapácio que os leitores recebem como brinde para conferir os erros dos jornalistas. Se houvesse mais atenção com o que realmente importa, a 3ª. edição daquele que se assume como "O Dicionário da Língua Portuguesa" seria recebida com reportagens, críticas, debates, uma certa efervescência cultural mais consistente que o registro pitoresco de palavras adicionadas.
Como todo trabalho ciclópico (adj. Extraordinário, colossal, gigantesco) o Aurélio tem lá seus críticos e até detratores, mas a força da obra mede-se hoje por uma autonomia que nem a morte do dicionarista, em 1989, interrompeu: mesmo sem a pinça de filólogo do mestre Aurélio, o Aurélio supera-se em verbetes, praticidade e qualidade. Note-se que à frente da obra agora estão duas lexicógrafas, Marina Baird Ferreira, viúva de Aurélio, morto em 1989, e Margarida dos Anjos - pontificando num feudo masculino cuja única exceção cintilante foi dona Carolina Michaellis. O Aurélio de Aurélio, Marina e Margarida é o melhor pai-dos-burros já produzido em português. Para quem vive de escrever, é como a agulha para o alfaiate. Eleva-se sobre qualquer dicionário contemporâneo e supera calejados esforços do passado, desde que Rafael Bluteau preparou, em 1712, o Vocabulário português e latino.
Um bom dicionário precisa de tempo para renovar-se e aperfeiçoar-se em edições sucessivas. O primeiro Aurélio, desdobramento do Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, que o autor preparava para a Editora Nacional, saiu em 1975. Entre a 2ª (1986) e esta 3ª. edição entraram 300 páginas. O filólogo Antonio Houaiss dizia que o primeiro grande dicionário de português, também-feito por um brasileiro, o pernambucano Antônio de Morais Silva, em 1813 (primeira edição de 1789), tinha tudo para engrandecer-se como o Webster de língua inglesa, pois ambos surgiram quase ao mesmo tempo (o Webster em 1825), mas o de Morais parou em atualizações desastradas, em 1954, enquanto o Webster continua recolhendo palavras. O Aurélio segue seu curso e quem sabe um dia ganhará o corpanzil de um monumento com o Oxford, o acervo léxico da língua inglesa.
Com 168 mil verbetes, explicações sobre a origem de muitas palavras, conjugação de verbos, chaves fonéticas para os estrangeirismos, indicação de pronúncia, o Aurélio é mais que um tira-teimas. Até traduz siglas, como Dieese, e tem tiradas de humor, como dar vôlei. para abreviatura de vôlei. Um de seus muitos pontos fortes é o cipoal de 54 mil abonações, extraídas de 1.400 autores que vão de Camões ao roqueiro Nando Reis, escolhido para abonar - que honra - a palavra dicionário: "Para todas as coisas: dicionário / Para quem fiquem prontas: paciência". Tratando em 2.160 páginas de um assunto explosivo, a língua portuguesa, é natural que o dicionário provoque controvérsias. O professor Pasquale Cipro Neto implica com "fôrma", palavra que não existe na língua portuguesa desde a extinção do acento diferencial pela reforma ortográfica de 1971. Eis aí uma questão relevante: pode um dicionarista insurgir-se contra as normas da língua e grafar palavras a seu talante? A resposta não é favorável ao Aurélio. De qualquer forma, é caso único.
Mais grave, pela quantidade, é o desprezo do dicionarista pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), preparado pela Academia Brasileira de Letras (o VOLP baniu, evidentemente, a forma "fôrma"). Como o nome indica, o Vocabulário Ortográfico é uma relação de todas as palavras que existem no idioma e para isso a cada edição incorpora os neologismos nacionais (imexível) e as novidades estrangeiras (site). Ao entrar no VOLP, mesmo monstrengos gráficos e prosódicos como o anglicismo site tornam-se vocábulos da língua portuguesa falada no Brasil. Para ficar bem claro: site, apesar da pronúncia incompatível com a escrita (saite), faz parte do patrimônio vocabular da língua portuguesa porque consta do VOLP. Deve ser escrita sem grifos. Mas o Aurélio estigmatiza site com o sinal gráfico >, indicador de "expressão estrangeira". É uma divergência sutil, a indicar que o dicionário não reconhece as palavras antecedidas deste sinal como integrantes da língua portuguesa. Em contrapartida, os anglicismos aportuguesados, como nocaute (do inglês "knock-out"), são transcritos sem restrições.
Como o VOLP é uma relação de palavras e sua classe gramatical (site s.m.), cabe ao dicionário dar-lhe o(s) significado(s). Não conte com o Aurélio para toda a tarefa. Noutra divergência clara, o dicionário ignora palavrões transcritos pelo VOLP, como gefiltefish, inro, out-board, out-caste, out-line, parkerizar e mais alguns estrangeirismos de sotaque. De maneira que um pobre mortal que deseje saber o significado de schroeckingerita vai ter de esperar o prometido dicionário dos imortais da Academia para decifrar esse e outros hieróglifos que constituem a legião estrangeira da língua portuguesa. Mas o contrário também ocorre. Numa demonstração de bom gosto, a Academia recusou-se a endossar o verbo disponibilizar, bisonhice que figura no Aurélio como oriunda do inglês "available"+izar. Ponto para o Aurélio, no entanto, quando registra um sonoro brasileirismo desdenhado pela Academia: maracutaia, abonado pelo escritor Oto Lara Resende. Em incertos verbetes registrados por ambos, roga-se que a Academia e o Aurélio se entendam. Para designar uma prece em aramaico, o VOLP registra kaddisch. O dicionário, kadish.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

  Índice

igutenberg@igutenberg.org


Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Dezembro de 1999

Leia mais:
Nossa língua portinglesa