Sai-te! Instituto Gutenberg
logojj.gif - 14,47 K

Idioma

Sai-te!

Palavrão inglês instala-se com grafia e som no português

Da avalancha de expressões inglesas que deformam a língua portuguesa, uma, em particular, é humilhante: site. Popularizou-se entre os usuários da Internet, e também na imprensa, evidentemente, que tudo transcreve como um copista autista. Site quer dizer sítio. Tanto em inglês como em português, a palavra tem o mesmo significado (lugar que um objeto ocupa, segundo o Aurélio e o Webster), porque provém da mesma matriz, o latim situs. Ou seja, a palavra portuguesa sítio tem origem e acepção idênticas aos da palavra inglesa site, mas, no Brasil, agora dizemos site no lugar de sítio. Parece piada de português.

A opção brasileira por site (portugueses e castelhanos usam sítio), justifica-se pelo fato de a palavra ter, também, o significado de chácara. Ocorre que esta acepção rural é um brasileirismo, isto é, foi dada apenas aqui, como sinal de engenho no manejo do vocabulário. Não existe em Portugal. Na língua portuguesa falada no Brasil, sítio tem, portanto, as duas acepções - de lugar e de chácara -, além de outras registradas pelos dicionários.

Tudo seria tolerável se o tijolo de som estranho à grafia não fosse considerado, oficialmente, uma palavra da língua portuguesa. Foi incluída no Vocabulário Ortográfico, preparado pela Academia Brasileira de Letras, nesses termos: "site (saite) s.m. ing.". Cresce tanto a degradação do idioma, praticada pelos que deveriam defendê-lo, que não só importamos palavras para substituir as aqui existentes, como deformamos a prosódia clássica do português ao dar ao i o som inglesado de ai. No mínimo, ainda que desnecessária, a palavra deveria ter sido aportuguesada pela Academia. Segundo a regra histórica, defendida pelos grandes cultores do idioma, do português Gonçalves Viana ao brasileiro Napoleão Mendes de Almeida, a grafia deve corresponder à pronúncia. Por isso, em português, existe náilon, não nylon, e dizemos álibi e não alabai.

***

Esperemos que até o fim do ano os jornais decidam em que cidade da Austrália serão realizados os Jogos Olímpicos: Sydney, Sidney, Sydnei, Sidnei ou Sídnei.

***

O Jornal do Brasil, um dos que usam a forma Nova Iorque (a maioria dos jornais brasileiros, e também esta coluna, prefere a polêmica Nova York) rendeu-se ao hibridismo mais confuso. Na reportagem "Liberdade, a melhor notícia" (14-09), o JB referiu-se ao jornal americano como "New Iorque Times".


carta.gif - 1035 BytesCaros senhores,
Parabenizo-os pela matéria contra o abominável "site" (in http://www.igutenberg.org/jj29idioma.html), mas tenho uma pergunta a fazer com relação ao início do primeiro parágrafo:
"Da avalancha de expressões inglesas que deformam a língua portuguesa, uma, *em particular*, é humilhante: site."
É humilhante em particular, certo. E em público? Não é humilhante também? Não é humilhante adotar o anglicismo "em particular" que, em português, assume um tom ambíguo, quando poderíamos traduzi-lo com diversos outros termos expressões, pois a língua portuguesa é riquíssima e não precisa adotar a pobreza bastarda e ambígua do inglês? Poderiam ter escrito: "uma, em especial, é humilhante", "uma, principalmente, é humilhante" e por aí vai. Qual é o motivo da adoção humilhante do "em particular"?
Muito obrigada pela atenção,
Jussara Simões
São Paulo BR
"Pequenos girassóis os que mostram a cara,
e enormes as montanhas que não dizem nada..."
(Raul Seixas)
(27/07/2000)

Resposta do editor Sérgio Buarque de Gusmão

Desconhecemos que a expressão "em particular", no sentido usado, seja um anglicismo. Já em 1576, na obra História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo, lia-se: "E por isso nem farei agora mençam sinam de algumas em particular, principalmente daquellas de cuja virtude e fruito Participão os Portuguezes".
Ademais, a defesa do português vira patetice se ignorar o enriquecimento secular do idioma, desde o árabe (açúcar) ao russo (pogrom). Do francês incorporamos uma avalancha (inclusive) de palavras, e duas delas a leitora usa: anglicismo e bastarda.
Oxalá (ioruba) ninguém nos critique pelo uso de anglicismos nacionalizados, como bife, nocaute, coquetel, líder, detetive, drinque, desapontamento, esporte, pôquer, teste, tíquete, turfe, jóquei, repórter, revólver, etc., sem falar, é claro, de futebol - todos devidamente aportuguesados, procedimento determinado pelo Formulário Ortográfico.

Rejeitamos palavras ou locuções desnecessárias e extravangantes, copiadas, no som e na grafia, em vez de transliteradas, como o palavrão site, que, além de ter correlato, agride a prosódia portuguesa.
04/08/2000


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

  Índice

igutenberg@igutenberg.org


Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Novembro de 1999

Leia mais:
Nossa língua portinglesa