O jornalismo dourado - II Instituto Gutenberg
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História

O jornalismo dourado - II

Cláudio Abramo fez um jornal no Estadão

Em 1952, aos 28 anos de idade, o jornalista Cláudio Abramo tornou-se o mais jovem secretário de redação da imprensa brasileira, assumindo o cargo no Estadão. Quando se demitiu, em 26 de julho de 1963, deixou na história a mais relevante reforma impressa num grande jornal no Brasil - parte de um ciclo de inovações empreendidas nos anos 50 que incluíram as mudanças no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã, no Rio, com efeitos em cascata pelo resto do país.

A primeira grande mudança foi na estrutura do poder: o jovem secretário pôs os pés na gráfica (oficina, na época) onde um chefe reinava absoluto com seus soldados de chumbo, os linotipistas. O senhor feudal da oficina diagramava o jornal, acomodando nas páginas os textos descidos da redação, muitas vezes decidindo o destaque e o tamanho e até fazendo títulos. Controlava também o fluxo de anúncios, medindo-os com um barbante. À meia-noite, subia e, apontando para um novelo no pescoço, informava ao chefe da publicidade: "Tem tudo isso de anúncios." A oficina era um feudo proibido aos jornalistas. "Aqui ele não vem", desafiou o chefe da época, Bernardino, ao saber que Abramo pretendia ir lá. Quando o jornalista entrou por uma porta,o chefe da oficina saiu por outra e nunca mais voltou.

Abramo levou para o Estadão uma equipe de futuros famosos. "Meu primeiro repórter foi Sábato Magaldi", conta no livro A Regra do Jogo. Depois, em funções diversas, foram Antonio Marcos Pimenta Neves (hoje diretor de redação do jornal), Alexandre Gambirasio, Perseu Abramo, Vladimir Herzog, Luiz Weiss, Carlos Azevedo, Braulio Pedroso, Washington Novaes e Fernando Pedreira (que também foi diretor de redação).

- O que fizemos, primeiro sob a capa da reforma gráfica, e depois com a anuência da direção, foi uma reforma total na maneira de fazer o jornal, nos métodos de cobrir as coisas e na introdução de um tipo de cobertura "científica", que previa grandes operações com todos os detalhes perfeitamente estudados, previstos e calculados, com espaços predeterminados, fotografias desenhadas antecipadamente - diz Abramo no livro.

Naqueles anos dourados do jornalismo, dinheiro não era problema. A edição de domingo, recheada de anúncios, já saía com mais de cem páginas. Quando, em 1956, explodiu no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética o relatório de Kruschov sobre os crimes de Stalin, o Estadão fretou um avião para trazer o texto e publicá-lo simultaneamente com os demais grandes jornais. "De 1956 a 1961 [quando reduziu-se a influência do secretário], o Estado se tornou, talvez, um dos jornais mais bem-feitos do mundo, embora os editoriais fossem medievais e defendessem os interesses da classe dominante paulista em primeiro lugar e os interesses brasileiros em segundo".

O desprezo pelo Brasil e a birra com determinadas personalidades da história nacional eram tamanhos que, em 25 de agosto de 1954, o Estadão correu o risco de ser o único jornal brasileiro - e talvez do mundo - a não registrar na primeira página a morte do presidente da República. Cláudio Abramo teve de brigar com o Dr. Julinho Mesquita para que saísse na 1ª, feudo dos fatos internacionais mais ordinários, a notícia de que Getúlio Vargas se matara com um tiro no peito.


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Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Novembro de 1999