Jornalismo barato e burro Instituto Gutenberg
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Sandro Vaia


Jornalismo barato e burro


   Sandro Vaia, de 56 anos, 34 anos de profissão, diretor de Informação da Agência Estado, é um dos raros jornalistas importantes à frente de uma redação importante que reflete criticamente sobre o jornalismo. Um de seus alvos é a cobertura copiosa dos embates das vedetes (ACM versus Jader, por exemplo), em detrimento da explicação dos fatos (no caso, o Projeto Avança Brasil). Resulta uma espécie de Fla-Flu do mexerico, em que a imprensa destaca a gritaria dos técnicos e ignora o jogo.

O Sr. tem criticado o que chama de Fla-Flu na imprensa. Quais as causas desta opção pelo diz-que-diz?
A opção pelo Fla x Flu, pelo diz-que-diz, pelo lado "espetacular" da notícia, é uma opção pela preguiça, pelo comodismo, por um tipo de jornalismo "facilitário", que não requer reflexão, que não requer pesquisa, que não requer informação, que não requer contextualização, que não requer análise. É um jornalismo burro, porque dispensa o uso da inteligência. É um jornalismo barato, que pinça frases, retira-as do contexto e se possível cria conflitos onde não existem e potencializa pontos de vista divergentes transformando debates de idéias em batalhas campais. Todo e qualquer assunto se resume ao reducionismo maniqueísta do "quem ganhou" e "quem perdeu". É muito mais fácil criar heróis e vilões, alimentar um confronto entre eles, do que ter o trabalho de explicar, atrás do jogo político de aparências, que há interesses profundos da sociedade sendo defendidos ou sendo prejudicados. Quantas páginas os jornais gastaram na descrição da suposta briga entre ACM e Jader Barbalho por uma relatoria e quantas linhas gastaram para explicar qual era a substância da matéria a ser relatada? Um bate-boca entre caciques políticos dá mais ibope do que um complexo projeto de lei que engloba praticamente um programa de governo inteiro. E além de dar mais ibope, é mais fácil de acompanhar. É só anotar as ofensas que um dirige ao outro e garimpar, no meio desse lixo político, comportamental e jornalístico, algum título bem picante. Pouco importa que dez dias depois os dois artistas resolvam colocar um fim à sua encenação e saiam por aí aos beijos e abraços. E aí o que os jornais fazem? Registram a confraternização dos inimigos mortais de ontem, desligam esse botão e saem à procura de outra intriga. Quem sabe o Serra não falou mal da Xuxa, hoje ?

A elite da imprensa está preparada, com conhecimento, paciência e capacidade narrativa, para superar o imediatismo superficial do jornalismo declaratório ou xingatório?
Acredito até que não falte nem conhecimento nem capacidade narrativa para superar o imediatismo desse jornalismo superficial, declaratório e xingatório. Mas não sei se haverá paciência para isso. Ou determinação. A concorrência mercadológica tende a nivelar os jornais por baixo. Ninguém se arrisca a dar o primeiro passo no caminho dessa superação. Os jornais hoje estão todos iguais ou muito parecidos porque um se espelha no outro. Ninguém tem a coragem de romper essa barreira. Há muitos assuntos que um jornal só tem coragem de abordar quando seu concorrente o faz primeiro. Alguns assuntos só são legitimados para os pauteiros do jornal depois que a TV deu. Aí passa a ser assunto para todos. Ninguém arrisca. Ninguém ousa. Mudar tudo isso é uma mão de obra enorme. É preciso mudar a cultura das redações. É preciso mudar a cultura das empresas. É preciso "desmarketizar" um pouco as redações e voltar a "jornalistizá-las" um pouco mais. E veja bem: não se trata de purismo.

O que a Agência Estado em particular tem feito para livrar seu noticiário dessas distorções?
É inevitável que, em certa medida, também sejamos vítimas desse ambiente; mas acontece que, além do mercado tradicional de venda de informações para a mídia, a agência trabalha com produtos segmentados para mercados profissionais: Broadcast,para mercado financeiro, Agrocast, para agribusiness e Infocast, para mercado empresarial. Esses produtos são distribuídos via eletrônica e não se destinam ao público aberto. Neles, a angulação, o enfoque e a linguagem não são trabalhados para buscar audiência mas para informar consumidores diferenciados, que buscam informações específicas. Nosso produto de massa, que é o noticiário on line na Internet, visto por mais de 160 mil pessoas por dia, procura sempre a informação seca, concisa, enxuta, mais apropriada a esse tipo de consumo. E a edição desse noticiário, ágil e rápido, sempre persegue a precisão informativa e a sobriedade.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Novembro de 1999

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