Sai a Gazeta, entra o Correio Instituto Gutenberg
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Dia da Imprensa

Sai a Gazeta, entra o Correio

Homenagem troca um jornal do governo
por um jornal vendido ao governo

Nem a imprensa deu importância à mudança do Dia da Imprensa, de 10 de setembro, para 1.º de junho. Trocou-se a comemoração da instalação do primeiro jornal no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, pelo lançamento do primeiro jornal português na Inglaterra, o Correio Braziliense.

A troca simboliza um ato de independência da imprensa brasileira contemporânea: a Gazeta foi destronada por ter sido o jornal oficial da Coroa, e o Correio, exaltado por constituir exemplo de jornalismo independente, da iniciativa privada.

A mudança, sugerida pela Associação Riograndense (sic) de Imprensa (gaúcha), foi patrocinada por um projeto do deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS) e sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em cerimônia com a presença do presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Paulo Cabral, diretor do atual Correio Braziliense ressuscitado em Brasília, em 1960, por Assis Chateaubriand.

O equívoco começa aí: para demarcar sua distância do oficialismo, as entidades da imprensa recorrem a providências oficiais. Comemoram lei aprovada por um deputado do governo e sancionada pelo chefe do governo. Nada impede - aliás, tudo recomenda - que a imprensa festeje a data que bem entender, alheia ao calendário oficial. Se não gostava da homenagem à folha da Coroa portuguesa, que escolhesse um dia em que o jornalismo de fato triunfou sobre a servidão - e há muitos em nossa história, como, por exemplo, na biografia de grandes jornalistas do porte de Antonio Borges da Fonseca, que nasceu coincidentemente junto com a Gazeta, em 1808 e, perseguido pelos poderosos, declarava-se na polícia: "Eu sou inimigo do rei". Borges da Fonseca, sim - como Frei Caneca e Cipriano Barata - foi um jornalista independente, liberal e republicano. Cipriano Barata foi líder da Conjuração dos Alfaiates, em 1798, e Frei Joaquim do Amor Divino Rebelo Caneca, ideólogo da Confederação do Equador, em 1824, quando surgiu o primeiro programa de liberdade de imprensa no País. Destronar a Gazeta é tentar copidescar a história. O jornal do príncipe significou a instalação da imprensa no Brasil com as limitações da época: um jornal oficial, sob censura como tudo que se publicava no reino, de livros a cartas de baralho. Segundo o historiador Nelson Werneck Sodré, era "um arremedo de imprensa". Na descrição do historiador inglês John Armitage, que viveu como comerciante no Rio, a Gazeta era a revista Caras da época: só informava "ao público, com toda a fidelidade, do estado de saúde de todos os príncipes da Europa e, de quando em quando as suas páginas eram ilustradas com alguns documentos de ofício, notícias dos dias, natalícios, odes e panegíricos da família reinante. Não se manchavam essas páginas com as efervescências da democracia, nem com a exposição de agravos. A julgar-se do Brasil pelo seu único periódico, devia ser considerado um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado um só queixume."

Outra curiosidade, esta impensável hoje: o primeiro redator-chefe do jornal, frei Tibúrcio José da Rocha, trabalhou quatro anos sem receber um centavo. Já Hipólito da Costa fartou-se do dinheiro do poder que combatia. A história deste brasileiro, nascido no conflagrado território de Sacramento, hoje Uruguai, então disputado pelo Brasil com a Espanha, tem sido muito valorizada. Funcionário do governo português, para o qual cumpriu missões nos Estados Unidos e serviu como diretor da junta da Impressão Régia, Hipólito caiu em desgraça por ser maçom. Perseguido pela Inquisição, exilou-se na Inglaterra, onde, sustentado por amigos da maçonaria e, mais tarde, pelos príncipes, fundou e dirigiu o Correio Brasiliense. Hipólito da Costa e seu periódico têm méritos, sobretudo o de iluminar o ambiente colonial com idéias e críticas à treva do período, mas os críticos não lhe poupam o aulicismo disfarçado e a linha sinuosa de seu jornal.

Em rigor, o Correio nem atendia a uma das exigências clássicas para definição de jornal: a periodicidade. Se a Gazeta circulava três vezes por semana, o Correio era mensário. Seu foco principal, ao contrário do que diz a lenda, não era o Brasil, mas a Europa e os Estados Unidos. Foi frouxo na defesa da Abolição e da Independência, e forte na pregação de valores morais para a Corte. Ademais, como pondera Sodré, "é discutível sua inserção na imprensa brasileira, menos pelo fato de ser feito no exterior, o que aconteceu muitas vezes, do que pelo fato de não ter surgido e se mantido por força de condições internas, mas de condições externas." Historiadores portugueses, como José M.Tengarrinha, consideram o Correio como um jornal português publicado na Inglaterra.

Os patrocinadores da patacoada politicamente correta de trocar as homenagens querem passar a impressão de uma independência radical que nem de longe a história avaliza. Se levassem a sério tanta separação do Estado, deixariam de pedir empréstimos ao Banco do Brasil, até porque trata-se de instituição criada, tal como a Gazeta, pelas mãos de Dom João VI. Mas aí talvez resida a identificação dos contemporâneos com Hipólito da Costa e seu jornal: o Correio também escorou suas idéias nas pilastras do dinheiro público. O biógrafo Mecenas Dourado conta a história no livro Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense. Com o duro título de "O suborno do Correio Brasiliense", Dourado relata que tanto Dom João quanto Dom Pedro usavam o periódico para veicular intrigas políticas, fortalecer ou enfraquecer idéias dos auxiliares (cilada hoje conhecida como "fritura de ministros") e subvencionaram o jornal direta ou indiretamente, seja com dinheiro seja com assinaturas. Hipólito sempre livrou a cara de Dom João, que oficialmente proibia, mas, na verdade, tinha simpatia pelo Correio. Segundo Mecenas, era "o próprio príncipe regente quem pagava o jornalista". Foram dados um "adiantamento" de 2 mil libras e um "ordenado" de mil libras por ano de 1813 a 1821, quando Dom João regressou a Portugal. O acordo continuou no Império, com o secretário de Dom Pedro I, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, atuando como agente do periódico. Quando morreu, em 11 de setembro de 1823, Hipólito era cônsul-geral do Brasil em Londres. Como se vê, mudar o Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho significa, apenas, trocar a homenagem a um jornal do governo pela homenagem a um jornal vendido ao governo.


©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Novembro de 1999