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Imprensa americana é mais destaque que a brasileira

A imprensa brasileira continua cobrindo com mais atenção a imprensa americana do que a imprensa brasileira. Os dois grandes jornais de São Paulo raspam o que acontece aqui, tanto nas redações como nos negócios da mídia, mas destacam o que ocorre nos Estados Unidos. No Brasil, o único posto de chefia de redação a merecer atenção da imprensa é o de diretor de Jornalismo da Rede Globo. Grandes profissionais entram e saem das redações sem receber - especialmente na saída - uma notinha de aviso aos leitores, como o prestigioso Estadão fez com o colunista Elio Gaspari. Negócios duvidosos, como a associação Folha-Globo para criação de um jornal de economia, não vão além do anúncio publicitário da iniciativa. Mas qualquer mudança importante no New York Times é alardeada. Um exemplo: "Rosenthal encerra carreira no ´New York Times", anunciou o Estadão em 6/11. A Folha publicou: "A. M. Rosenthal, que chefiou o `New York Times´, é demitido".
Como era de se prever de uma imprensa que publica qualquer coisa, exceto sobre ela própria, o panegírico de Rosenthal foi burocrático como uma nota fúnebre. Os dois jornais brasileiros registraram algumas inovações editoriais que ele introduziu no jornal americano, como o caderno de Ciência, mas não publicaram uma linha sobre os padrões técnicos e éticos do jornalista. Uma das melhores criações de Rosenthal no Times foi a Nota do Editor, não para sustentar posições, com prepotência e arrogância do tipo "mantemos as informações publicadas", como ainda se faz no Brasil, mas para efetuar correções significativas, como, por exemplo, refazer, na primeira página, uma reportagem que se descobriu estar errada. Fez isso, sete anos depois, com a informação de que o antigo embaixador dos Estados Unidos no Chile, Edward Korry, desconhecia a trama do golpe que em 1973 derrubou o presidente Salvador Allende. As duas reportagens - a errada e a certa - foram feitas pelo lendário Seymour Hersh, o repórter que revelou ao mundo a matança de My Lai na Guerra do Vietnã.
Rosenthal jamais admitiu, e isto é política editorial do Times, gravações clandestinas. Puniu jornalistas que se disfarçavam - de garçons, de enfermeiros, de amigos desinteressados - para, enganando, obter informações das fontes. Uma de suas decisões mais comentadas foi a demissão de uma repórter, da sucursal de Washington, que tinha um senador como informante e amante. Claro que nunca permitiu que jornalistas do Times se hospedassem de graça num hotel para fazer uma reportagem sobre o hotel - prática que no Brasil contamina dos proprietários à secretária da redação. Mas nada disso é notícia. Destaca-se aqui o vaivém dos bambambãs de lá, mas não a obra deles, que, afinal, ressoaria como uma pregação bíblica para os infiéis.
A questão é: se a imprensa brasileira gosta tanto do New York Times, e se admira profissionais como Abe Rosenthal, deveria imitá-los. Abraham Michael Rosenthal, aposentado aos 77 anos, ensinou muita coisa em seus 55 anos de profissão. Se razoavelmente assimiladas, fariam um bem enorme à imprensa brasileira. Duas delas seriam bem-vindas:
Sobre fofoca, um assunto de especial predileção de nossos grandes e sérios jornais: "Não sou absolutamente um flagelador da imprensa - passei toda a minha vida no jornalismo e abençoando o dia em que comecei - mas não posso fingir não ver o que vejo: o explosivo movimento nos jornais, revistas e TV rumo a uma forma especializada de coleta de lixo, conhecida como fofoca".
Sobre o disfarce, outra mania dos nossos profissionais: "Exigimos os direitos e os privilégios da Primeira Emenda [dispositivo que garante a inviolabilidade da liberdade de imprensa nos EUA] e depois assumimos papéis dúbios, fazendo-nos passar por pessoas diferentes daquilo que somos. Dizer que assim se consegue uma reportagem melhor ou que se serve melhor o público, não muda nada. Ainda está errado".


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Boletim Nº 29 Série eletrônica
Novembro-Dezembro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 8 - Dezembro de 1999