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Idioma


Nossa língua portinglesa

Em vez de zelar pelo idioma, a imprensa incentiva o barbarismo

O maior problema do jornalista brasileiro não é a censura, a pressa ou o salário. É o idioma. Escrever rapidamente em português é empreender uma corrida com obstáculos contra infinitivos inflexíveis, desinências ambíguas, crases humilhantes. Quantos de nós não nos perdemos nas curvas do pronome reto. Reconhecer as dificuldades sintáticas é um consolo para admitirmos que atravessamos o período em que o Português mais tem sido maltratado – seja pela imprensa, seja pelos guardiães do idioma. Talvez por isso, também estamos na época em que os jornais mais dão empregos a consultores encarregados de identificar erros e pôr o texto nos trilhos. Eles publicam colunas e livros de sucesso e são reconhecidos na rua como celebridades.

Em sua coluna na Folha, o professor Pasquale Cipro Neto, também colunista do Globo e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa na TV Cultura, contou como foi reconhecido por um fiscal de trânsito no congestionamento. Eduardo Martins, autor do best-seller ( em português; em inglês é best-seller) Manual de Redação e Estilo do Estadão, tem um programa de grande audiência na Rádio Eldorado, de São Paulo. Outras estrelas da ortografia são o professor Sérgio Nogueira Duarte, do Jornal do Brasil e TV Globo, e o jornalista Marcos de Castro, hoje no Jornal do Brasil e colunista de Jornal dos Jornais.

Bons efeitos do trabalho dos consultores-colunistas têm sido a redução da taxa de erros da imprensa e a demonstração do envilecimento da língua portuguesa. Marcos de Castro, no livro A Imprensa e o Caos na Ortografia, publica um (enorme) Pequeno Dicionário de Batatadas da Imprensa. Entre os muitos problemas, Castro aponta este (a citação à americana dos sobrenomes) e cita um neologismo que rebatiza a face nova de um mal antigo, a substituição do idioma nacional pelo “portinglês”.

Nem durante a Segunda Guerra Mundial, quando chegamos a ter bases americanas e proibimos jornais em línguas estrangeiras, o Português foi tão massacrado. A imprensa, em vez de zelar pelo idioma, divulga e incentiva o barbarismo. Uma olhadela em três grandes jornais – Estadão, Folha e JB – divisa palavras e expressões como blue collar, boom, break, bug, cool, cult, day off, diet, fast track, fake, fitness, game, gay, help, high-tech, hot, in, layout, light, meeting, noodles, out, outsider, point, power flower, premium, ranking, revival, serial killer, spread, target, timming, think tanks, top, upgrade, university, wonderland, workshop. Na 1.ª página do JB de 6/8 lia, quem pudesse: “O pianista Thelonius Monk, um dos dos founding fathers do bebop,...”. Os grandes jornais, que já distribuíram dicionários de português, deveriam encartar o Webster´s como brinde. A falta de cerimônia é tanta que o Estadão, onde se encontra uma coluna de automobilismo com o nome de “Grand Prix”, lançou um fascícu lo intitulado Help!. A Folha está vendendo aos leitores a “coleção supergames”. E promete: “No final da coleção você ganha um Kit Tomb Raider”.

O excesso de estrangeirismo é um daqueles problemas que têm unanimidade no diagnóstico e receitas antagônicas no tratamento. Todos concordam em que a língua é viva e renovável, devendo estar receptiva a neologismos que expressem invenções e descobertas, e incorporar vocábulos de outros idiomas, além de acatar mudanças no sentido das palavras. A atualização é uma necessidade para as áreas técnicas, como está a demonstrar a informática. Faltam, no entanto, critérios adequados para a inclusão de palavras e expressões no vocabulário oficial. Em muitos casos, a ignorância e a preguiça fazem a palavra estrangeira tomar o lugar da nacional. Adotamos sem resistência fonemas rascantes como e-mail, browser, download, bookmark – e a ironia das ironias é que os americanos, quando oferecem seus programas (que nós chamamos de softwares) na Internet, fazem a tradução. A Netscape, por exemplo, adotou correio eletrônico, navegador, descarregar, marcador.

A imprensa prefere palavras curtas, para os títulos, e isso explica por que pequenos hieróglifos enchem as páginas dos jornais. Grid, kit, gay e teen, por exemplo, não existem em português, mas substituem grade, estojo/coleção/conjunto, homossexuale adolescente. A maioria de nós não sabe que no Brasil as palavras precisam passar pelo cartório, ou seja, ser registradas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). O VOLP é como um catálogo telefônico que traz o nome do assinante mas não divulga o número do telefone. Registra a palavra e a classe gramatical, e deixa a definição para os dicionários. Exemplo: o VOLP registra apenas ponto s.m. A partir dele, o Aurélio usa 932 palavras para explicar os significados de ponto, num total de 44 definições.

O Vocabulário é preparado pela Academia Brasileira de Letras, por determinação da Lei 5.765, de 1971. A primeira edição, com 350 mil verbetes, saiu em 1981. No ano passado, dezessete anos depois, foi atualizada com seis mil novos vocábulos. A imprensa nem notou as barbaridades inseridas na língua, com exceção da revista Veja. “O pecado capital dessas inserções é que elas foram feitas sem nenhum critério sério”, comprovou a revista, depois de ouvir o relator da Comissão Acadêmica do Vocabulário, Antônio José Chediak, que engordou o vocabulário com muitas palavras faladas por pouca gente, como vocábulos tirados do hebraico, língua de apenas 110 mil residentes. “Recebemos a colaboração espontânea de um rabino e não tivemos tempo de consultar especialistas de línguas como o japonês e o italiano", disse Chediak à Veja.

Os critérios da Academia são mesmo duvidosos – e já faz tempo. O VOLP acolheu simultaneamente grafias estrangeiras e sua forma aportuguesada, como cáiser, nocaute ou cúmel. De modo que qualquer um pode achar-se um kaiser, depois de beber o licor perfumado com cominho conhecido como kummel, e ganhar por knockout uma briga imaginária com Maguila. Acredite, está tudo em Português. É estranho, também, que o Vocabulário oficial aceite determinados palavrões, ilegíveis e impronunciáveis, como o dinamarquês Kjkenmödding, já registrado pelo VOLP e pelo Aurélio como sinônimo de sambaqui. O português adotar este paralelepípedo prosódico como equivalente a uma linda palavrinha tupi é como trazer mulatas de Copenhague para animar o Carnaval do Rio.

Nossos lexicógrafos agem como copistas. Desprezam os filtros históricos e sensatos que têm orientado o registro de palavras. É preciso dar-lhes um banho de Português. Como ensina um crítico da Academia, o professor Napoleão Mendes de Almeida, autor da Gramática Metódica da Língua Portuguesa, “indispensável se torna que o vocábulo exótico, ao entrar no português”, seja adaptado à “fisionomia da língua do país.” No passado, nenhum termo peregrino entrava sem passar pela alfândega léxica. Por isso falamos e escrevemos paletó e não paletot, boné e não bonnet, Argélia e não Algeria, computador e não computer, futebol e não football, telefone e não téléphone, espaguete e não spaghetti, muçarela e não mozzarella, xerife e não sheriff, xampu e não shampoo, publicidade e não publicité, chofer e não chauffeur. Pelo novo figurino da Academia, esta seria a review Giornale dei Giornali.

Kjkenmödding (com maiúscula, faz favor), backup, browser, best-seller, site, são concessões intoleráveis. Os puristas – os do lado de lá, síndicos da forma inglesa – torcem o nariz para o aportuguesamento. A revista IstoÉ pôs na capa, em letra garrafal, “Stress”, desprezando a dicionarizada estresse. Nem pensar em estatus, besteceler, saite (já que recusamos a forma sítio usada em Portugal). É demais. Demais, mas não tudo. Chegamos ao ponto em que o Vocabulário oficial do país contém palavras inglesas traduzidas com vocábulos equivalentes preexistentes na língua! Acreditem: nosso Vocabulário bilíngüe agora inclui a expressão self-service (s.m. ingl.), com a tradução de “auto-serviço”. De modo que quando seu filho vir, no comercial da TV, um cliente do Bradesco elogiar o “auto-serviço do banco”, e perguntar do que se trata, não se faça de burro. Explique que auto-serviço quer dizer self-service. Só falta incluir a última macaquice dos restaurantes, delivery – que nada mais é que entrega (Os comer ciantes preferem delivery nas placas porque não sabem se o certo é entrega a ou em domicílio). A esta chacina léxica o crítico Wilson Martins chama de linguicídio – palavra que, aliás, como faz questão de notar o presidente da Academia, Arnaldo Niskier, “consta do nosso Vocabulário”. Ainda não consta, porém, do Aurélio.

Em contrapartida, muitas palavras que figuram nos dicionários não estão oficializadas no VOLP. O Aurélio, aqui citado como modelo de obra grandiosa, tem lá suas liberalidades. Comete a patetice de registrar a expressão inglesa all right (e pronuncia o ridículo quando ensina a dizer: “ól rait”) e a define como “Frase que se emprega para indicar que tudo vai bem, ou para exprimir consentimento.” O popularíssimo tudo bem parece insuficiente. O concorrente Michaelis quer vencer pela quantidade. A última versão impressa, com “201.154 verbetes e subverbetes”, inclui o que aparece pela frente. O editor Walter Weiszflog explicou ao Estadão que “o principal critério para a inclusão de uma palavra no dicionário é a sua ocorrência pelo menos três vezes na mídia ou em publicações técnicas.” Escreva três vezes wretchedness e ganhe uma entrada (quer dizer miséria, desdita, em inglês).

Encaminhado o Ortográfico, a Academia ainda nos deve o Vocabulário Onomástico, e como precisamos dele para chegar a um consenso sobre os topônimos nacionais e os de origem estrangeira. Nova York ou Nova Iorque? Kwait ou Kuwaiti, sem falar de um tal Coveit que andou na moda? Por que escrevemos Londres e não London, Genebra e não Genève, Filadélfia e não Philadelfia? Porque foram aportuguesadas. Adaptamos Bordeaux para Bordéus, Frankfurt para Francoforte (o nome inteiro é Frankfurt am Main ou Francoforte-sobre-o-Meno), mas não pegou. E o que dizer de La Paz, Los Angeles, Madrid ou Sydney, usadas com a grafia original? Traduzimos a capital sul-africana de Cape Town para Cidade do Cabo, mas precisamos decidir se as Olimpíadas de Inverno vão se realizar em Salt Lake City ou na Cidade do Lago Salgado.

O Formulário Ortográfico, que contém Instruções para a organização do VOLP, apenas raspa o problema. “Os topônimos de origem estrangeira devem ser usados com as formas vernáculas de uso vulgar; e quando não têm formas vernáculas, transcrevem-se consoante as normas estatuídas pela Conferência de Geografia de 1926 que não contrariem os princípios estabelecidos nestas Instruções”, diz o Formulário. Eis o problema: como aplicar as normas vernáculas de uso vulgar? Houve um tempo em que a imprensa traduzia os nomes de pessoas, cidades e publicações, quando havia correspondência em Português. Exemplo: João, Revista Tempo, ou jornal O Tempo de Nova Iorque, A Abelha de Sacramento. Felizmente pararam com isso, mas que precisamos de normas, precisamos. Para nome de gente, então...A transliteração do chinês para o inglês tentou nos impor, recentemente, a mudança dos consagrados Mao Tsé-tung para Mao Zedong e de Pequim para Beijing. Foi outra patacoada que não pegou.

Nomes adaptados antigamente se consagraram, como o do reformador francês João Calvino (Jean Calvin) ou do reis francês, alemães, espanhóis que chamamos de João, Carlos, Fernandos e Franciscos. Mas hoje escrevemos Carl, Charles e Charlie, François, Ferdnand. Os Luíses da França não ficaram como Loui XV, Loui XVI, etc. O naturalista sueco Carl von Linné, latinizado para Carolus Linnaeus, virou Lineu. Adaptamos o nome do herói lendário da Suíça que atirava flechas em maçãs, William Tell, mas não chamamos o presidente americano de Guilherme Clinton nem o dono da Microsoft de Guilherme Bates. Em bom português, e num sentido não registrado pelo Aurélio, é um sururu.


As siglas deles

As siglas são um caso à parte. A do ácido desoxirribonucléico, em português, é ADN, mas a imprensa prefere a versão inglesa, DNA. Copiamos dos americanos CIA, DEA, as das organizações das Nações Unidas, como FAO e Unicef, nas quais não temos consenso nem para o nome por extenso – ora escrevemos Fundo, ora Organização das Nações Unidas para...a Agricultura, a Infância, etc.
Há um caso de macaquice pelo qual me penitencio. Declaro-me culpado, ao menos em parte, pela introdução da sigla Aids na imprensa brasileira. Quando editei na revista IstoÉ, no começo dos anos 80, as primeiras reportagens sobre a ocorrência da doença no Brasil, adotei o monograma em inglês, extraído de “acquired immunological deficiency syndrome”. Algum tempo depois, dei-me conta de que os portugueses e os castelhanos traduziram Aids para síndrome de imunodeficiência adquirida e a abreviaram para Sida. Aids já era, no entanto, de uso corrente no Brasil, e tão inglesado que ainda pronunciávamos “eides”. Nada tenho que ver, contudo, com o HIV – sigla para “human immunodeficiency vírus”. Em Portugal, alguns, pelo menos, traduziram a expressão, e a sigla ficou VIH.

Assinte s.m.

Jornalistas criam palavras e inventam expressões. Elio Gaspari forjou o neologismo brasilianista, para designar os estrangeiros que estudam o Brasil. É da lavra de Augusto Nunes a expressão Lei de Gerson. Como os tempos são outros, convém fazer o registro para consignar na história que o Estadão também comete seus neologismos. Logo o Estadão, cujo Manual de Redação, preparado pelo jornalista Eduardo Martins, é um primor. Modesto, o jornal atribuiu sua última criatura ao deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), que criticara a suntuosidade acintosa do prédio do Superior Tribunal de Justiça em Brasília. E lascou no título: “Biscaia diz que obra do STJ é “um assinte”. A invenção saiu na edição de 29 de abril e foi devidamente endossada pelo jornal. Se aqui se faz o registro é porque não houve correção. Ainda resplandece no arquivo na Internet. Como é regra na proteção de invenções, e para dissuadir os piratas do direito autoral, à reportagem segue-se a advertência: “Copyright 1999 - O Estado de S. Paulo - Todos os direitos reservados”. Quem quiser “assintar” terá de pagar uma taxa ao jornal.


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Boletim Nº 28 Série eletrônica
Setembro-Outubro, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 6 - Setembro de 1999