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Internacional


Ódio às princesas

Imprensa inglesa (e a brasileira) fazem de Sophie a substituta de Diana

A elite da imprensa reproduziu no Brasil a vilanagem, para não usar palavra de parentesco fonético, do jornal inglês The Sun com a futura princesa Sophie Rhys-Jones. De casamento marcado com o príncipe Edward, Sophie teve o dissabor de ver no tablóide sensacionalista uma fotografia tirada em 1988, quando, no banco traseiro de um carro, a parte de cima do seu biquíni foi levantada pelo amigo Chris Tarrant. Outra amiga, Kara Noble, registrou a cena – para vendê-la ao Sun, onze anos depois, por um valor estimado em US$ 400 mil. Sophie tinha 23 anos e passeava na Espanha com a dupla de companheiros de trabalho na rádio Heart FM. Tarrant, um disc-jóquei famoso, saiu em defesa da amiga, garantindo que o topless não passou de brincadeira típica de jovens em férias. “Nunca houve o menor romance entre nós dois”, disse às agências de notícias. Tarrant foi convidado para o casamento, mas a fotógrafa Kara caiu em desgraça pública: demitida da rádio, sob reprovação dos colegas, saiu com o estigma de fofoqueira e traidora.
Pressionado pelos que temem ver a mídia inglesa arruinar Sophie como trucidou a princesa Diana – um dos críticos da rapinagem é o primeiro-ministro Tony Blair – o editor do Sun, David Yellen, pediu desculpas e prometeu doar a instituições de caridade o dinheiro ganhado com a revenda da fotografia a outras publicações. Foi mais um lance de cinismo cáustico do jornal: uma das entidades selecionadas para receber o dinheiro cuida de câncer no seio. Os concorrentes se deleitaram. The Mirror, que não fica atrás na cobertura da família real, deu em manchete: “Vergonha para a Inglaterra – Rainha obriga Sun a rastejar sobre a foto de Sophie”. O Sun é o diário mais vendido em língua inglesa, com uma circulação de quatro milhões de exemplares.
A mensagem dessa imprensa é que as mulheres que se casam com príncipes são todas prostitutas. Qualquer aventura, deslize, transgressão ou diversão sexual pode ser usado contra elas – e Sophie teve alguns namorados antes de Edward, um filão para o baú de escândalos É fácil imaginar o constrangimento na família da noiva, mesmo a da plebéia mais volúvel, com a divulgação num jornal, às vésperas do casamento, de um fato do passado capaz de criar embaraços no presente. Em resumo, essa imprensa odeia mulheres. Quanto mais bonitas, independentes e bem-sucedidas, mais perseguidas serão. Jornalistas que estariam melhor nas estrebarias que nas redações, tudo fazem para boicotá-las nas páginas marrons. Quando não acham fofocas debaixo das saias, saem à noite para flagrar ministros gays nos parques de Londres. Se isso for jornalismo, a crueldade é uma virtude.
“Trata-se de uma vil invasão de privacidade”, reagiu um porta-voz da realeza, segundo o Estadão. Como até as pedras sabiam, o sisudo jornal brasileiro aproveitou para estampar o assunto em manchete de seis colunas (toda a largura da página) com a falcatrua noticiosa de sempre (“Foto de noiva de Edward irrita a família real”). É a velha e marota prática da imprensa de elite do Brasil, um país que não tem pasquins sensacionalistas porque os jornais sérios embutem a baixaria típica da imprensa-gari. O Estadão teve, contudo, o zelo formal de não republicar a foto invasiva, limitando-se a reproduzir a 1ª página do Sun em que Sophie aparece com Tarrant noutra situação. O JB seguiu o mesmo caminho. As três revistas semanais – Época, IstoÉ e Veja – não deixaram por menos. E, tal como a Folha e O Globo, (re)publicanos como o Sun, fizeram o serviço completo.
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 27 Série eletrônica
Julho-Agosto, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 4 - Julho de 1999