O modernismo de Pompeu Instituto Gutenberg
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História


O modernismo de Pompeu


Imagine que o ministro da Fazenda Pedro Malan seja substituído pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga. O leitor não estranharia o título “Sai Malan, entra Fraga”, mas, nos anos 40, deveria ser rebuscado e formal como “O Senhor Economista Pedro Malan demite-se do Ministério da Fazenda e é nomeado para substituição o Senhor Economista Armínio Fraga”.
Por isso foi um escândalo o Diário Carioca publicar “Sai Dutra, entra Góes” para noticiar a substituição do general Eurico Gaspar Dutra pelo general Goés Monteiro no Ministério da Guerra. Jornalistas veteranos, como Nelson Rodrigues, torceram o nariz. O diretor do Diário, J.E. de Macedo Soares, foi tão cobrado que repassou a reprimenda ao diretor de redação: “Pompeu, todo mundo reclamou. O Jóquei Club estava em estado de escândalo”.A história, contada em depoimento de Pompeu de Souza à Associação Brasileira de Imprensa, depois resumido na Revista de Comunicação, demarca uma mudança profunda no jornalismo brasileiro. Pompeu de Souza (1916-1991) adotou o texto modernista na imprensa, varrendo o estilo rococó que solenizava os títulos e os narizes-de-cera. “Ninguém publicava em jornal nenhuma notícia de que um garoto foi atropelado aqui em frente sem antes fazer considerações fisiológicas e especulações metafísicas sobre o automóvel, as autoridades do trânsito, a fragilidade humana, os erros da humanidade, o urbanismo do Rio. Fazia-se primeiro um artigo para depois, no fim, noticiar que um garoto tinha sido atropelado defronte a um hotel”, contou Pompeu.
Editor e político (trocou a redação pelo parlamento, morrendo como senador), Pompeu de Souza está para o jornalismo como a Semana de Arte Moderna de 1922 para a Literatura. Para obrigar o redator a ir diretamente aos fatos, introduziu o lide americano e criou um sublide brasileiro. Para evitar a barafunda de estilos individuais, escreveu um pioneiro manual de redação – embora haja notícias de que outro ilustre redator-chefe, o sociólogo Gilberto Freyre, já nos anos 20, em A Província do Recife, implantara normas que obrigavam os redatores a escrever pai em vez de genitor. Por fim, Pompeu criou o “copy-desk”, expressão que entrou para o português não como a mesa em forma de ferradura onde trabalhavam os reescrevedores dos jornais americanos. Aqui copidesque passou a designar o próprio reescrevedor de originais.
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Boletim Nº 27 Série eletrônica
Julho-Agosto, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 4 - Julho de 1999