Tiro pela culatra Instituto Gutenberg
logojj.gif - 14,47 K

Campanhas


Tiro pela culatra

Mídia faz o marketing do governo na proibição de armas

Com o contumaz apoio da imprensa, o governo está engabelando a sociedade com essa história de proibir a venda e até mesmo a posse de armas domésticas. Lembra a proibição do cigarro nos restaurantes de São Paulo. Estava em vigor uma lei sensata, que separava os ambientes para fumantes e não-fumantes. Foi imposta a proibição generalizada. No caso das armas, o país tem uma legislação judiciosa, que reprime o porte na rua e obriga o registro de qualquer garrucha guardada na cristaleira. É providenciada agora a proscrição do comércio e posse de armas em qualquer fazenda remota do país.
A mídia não faz esforço para demonstrar a clássica covardia do Estado que, ao não cumprir suas tarefas, como prover a segurança pública, repassa o ônus – e a culpa – do problema para a sociedade. Nesse episódio, a imprensa se deixa enganar, e renega seu breviário liberal ao apoiar mais uma intromissão indevida do Estado na vida lícita dos cidadãos.
A iniciativa do presidente Fernando Henrique Cardoso foi baseada em sugestão dada por um proprietário de meio de comunicação, segundo a revelação feita durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em abril. Ali se começava a iludir o público com a idéia de que os alarmantes números da violência no Brasil, agravados a cada ciclo de desemprego e exclusão social, são culpa dos cidadãos que compram armas para fornecê-las aos delinquentes. Não há país – dos poucos que vedaram a posse de armas em residências – onde a proibição tenha contribuído para reduzir a criminalidade. Na Austrália, por exemplo, o governo impôs o desarmamento em 1996, quando os assassinatos somavam 312 (num país de 18 milhões de habitantes...), e já no ano seguinte o número subiu para 322, enquanto os assaltos a mão armada aumentavam de 6.256 para 9.015. Nos Estados Unidos, em contrapartida, onde existem 300 milhões de armas para 270 milhões de habitantes, a criminalidade está em queda livre desde 1991.
A grossa arte da prestidigitação governamental lembra uma velha e boa anedota da União Soviética. Stalin, Kruschev e Brejnev viajavam juntos quando o trem parou. Stalin desceu, furioso, ouviram-se tiros e ele anunciou sua providência: “Mandei fuzilar a tripulação”. Como o trem continuava parado, Kruschev bateu com o sapato na poltrona, saiu enfezado, ouviu-se um hino triunfal e ele contou o que fizera: “Promovi a reabilitação póstuma da tripulação”. Sem se mexer na cadeira, Brejnev anunciou sua decisão de estadista: “Vamos fechar as cortinas e fazer de conta que o trem está andando”.
A tradição brasileira é a do governo providenciar leis para dar a impressão de que resolve no papel os problemas das ruas. Pelo andar da carruagem, o presidente Fernando Henrique Cardoso vai mandar um bilhetinho ao ministro da Justiça determinando a proibição do biquíni nas praias, a pretexto de combater os ataques de tarados.
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 27 Série eletrônica
Julho-Agosto, 1999

  Índice

igutenberg@igutenberg.org


Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 4 - Julho de 1999