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Jornalismo no singular

Veja troca o pluralismo pela opinião unicelular

No jornalismo, é boa norma dar a César o que é de César e a palavra a todos. A revista Veja tem descuidado dessas providências. No noticiário sobre o governador Itamar Franco, a revista cuidou de tomar uma posição, ouvir os críticos e negar a palavra aos criticados. Na deselegante reportagem “Itamar – A volta do Trapalhão”, de 23/1, Veja tomou o atalho da militância política ao desqualificar a decisão do governo de Minas Gerais de decretar moratória. A reportagem é recheada de molecagens miúdas, típicas de jornaizinhos de seita, do tipo “`Topete` não chega a surpreender quando toma essas iniciativas trapalhonas”.
Só falou quem era contra. O ministro Pedro Malan (“lamentável”), o senador Antonio Carlos Magalhães (“burro”), o deputado do PMDB governista Germano Rigotto (“irresponsabilidade”), o ex-ministro Maílson da Nóbrega (“irresponsabilidade”), o ministro Renan Calheiros (“ressentimento”) e até o falecido Tancredo Neves, a quem a revista atribuiu a frase de que Itamar guarda “os ódios na geladeira”. A atitude do governo de Minas foi resumida em breves linhas, pela própria revista, como “ato estabanado” – e ninguém foi escalado no texto para explicar por que razões o estado congelaria por três meses o pagamento de sua dívida com o governo federal. Para Itamar, sobraram qualificativos como “trapalhão”, “Topete”, “místico das Alterosas”.
É da boa técnica do jornalismo comercial equilibrar a reportagem – não comentários, editoriais ou críticas baseadas em textos – com a palavra das partes em litígio. Os meios de comunicação enquadram as notícias na sua visão do mundo, mas não têm o direito de omitir o ponto de vista contrário. Veja tem abusado da tesoura na edição. Na reportagem “Para não valer”, em que criticou a lei que proíbe o trabalho de menores de 16 anos (20/1), a revista não divulgou uma opinião favorável ao diploma legal aprovado pelo Congresso. Nem o autor da lei foi citado. O resultado é um jornalismo totalitário, no qual o leitor recebe apenas um ponto de vista.
O bem-sucedido esquema das revistas semanais de informação é baseado num jornalismo editorializado. A narrativa é costurada desde o início pela conclusão (o “enfoque”) e as declarações entre aspas entram no texto para sustentar a tese que se deseja incutir na mente do leitor. A fórmula foi criada pelo editor americano Henry R. Luce, em 1923, com a revista Time – matriz ainda hoje copiada pelas revistas semanais de informação do Brasil.
Quando Time fez 25 anos, Luce publicou um ensaio polêmico porque opunha objetividade e honestidade. A receita editorial de Luce, no entanto, era diferente do que se lê hoje. Ele dizia que o jornalista responsável “é honesto na medida que não deturpa os fatos para fundamentar a sua opinião e não suprime aqueles que apóiam um ponto de vista diferente.”
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 26 Série eletrônica
Maio-Junho, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 2 - Abril de 1999

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