O marcador de cartolas Instituto Gutenberg
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Juca Kfouri - O marcador de cartolas


Com 29 anos de jornalismo, 49 de idade, ex-diretor de redação de Placar e Playboy, Juca Kfouri tem feito marcação cerrada dos cartolas do futebol. O colunista da Folha, e comentarista da rádio CBN e do programa Cartão Verde da TV Cultura de São Paulo, acaba de deixar um prestigiado programa de entrevistas na rede CNT. Ele responde às três perguntas do Instituto Gutenberg:

O seu programa de entrevistas na CNT acabou porque a TV não suporta jornalismo independente?
No caso, acho que não. O programa acabou porque dava apenas de 1 a 2 pontos no Ibope, porque não tinha nada a ver com o resto da programação da CNT, porque a CNT está, como todas as demais redes pequenas, com dificuldades financeiras e porque não havia novos passos possíveis, dada a pouca estrutura da rede. É possível, em todo caso, mas aí é mera especulação, que o fato de o José Carlos Martinez, dono da CNT, ter sido eleito deputado federal e presidente nacional do PTB, tenha, também, alguma influência. Mas eu faltaria com a verdade se não dissesse que durante os três anos que o programa esteve no ar trabalhei com absoluta liberdade e independência. Se me pediram cinco vezes para entrevistar alguém foi muito, e todas as vezes fazia sentido, ou porque era alguma nova atração da casa ou porque o entrevistado fazia sentido por si só.

A imprensa esportiva comete menos faltas que a cartolagem?
Tantas quantas, até por ser cúmplice, muitas vezes sócia, da cartolagem, embora a imprensa escrita se comporte muito melhor que a televisiva. Hoje em dia é difícil saber quem é jornalista, quem é garoto-propaganda, quem é empresário de atleta, promotor de evento, vendedor de placa, de publicidade, etc. A promiscuidade entre jornalistas e cartolas é um caso sério.

Qual sua reação aos que criticam o noticiário institucional do futebol, propondo que se deve noticiar mais o esporte que a gestão do esporte?
Acho que é natural, do mesmo modo que não abdico do que considero o dever de informar o que se passa nos bastidores. É óbvio que eu também gostaria mais de falar dos jogos, dos lances, dos gols. Mas é até ingenuidade, uma ingenuidade muito útil, sem dúvida, deixar de lado todas negociatas que são feitas neste grande negócio em que se transformou o futebol e que têm influência direta na qualidade do espetáculo, na segurança do torcedor, no respeito às regras e aos regulamentos. Porque se você se limitar a ficar dentro das chamadas quatro linhas do gramado, de repente, o leitor será surpreendido por um escândalo como o recente das arbitragens ou da virada de mesa do Campeonato Brasileiro ou do suborno na Portuguesa ou do contrato da Nike-CBF e se perguntará: onde estavam os jornalistas que nem sequer me davam uma idéia de que essas coisas poderiam acontecer? Como uma coisa não exclui a outra, ou seja, como falar dos jogos não impede que se fale sobre o que há por trás dos jogos, e vice-versa, acho que essa é uma questão meio sem sentido.

©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 26 Série eletrônica
Maio-Junho, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 3 - Maio de 1999

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