Contrapauta Instituto Gutenberg
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Contrapauta


Sentenças no lide – A imprensa está estimulando o destempero verbal da polícia e do Ministério Público nas conclusões que precedem as investigações sobre a morte do calouro Edison Tsung-Chi Hsueh em São Paulo. Edson, de 22 anos, morreu afogado, em 22 de fevereiro, durante um trote em que aproximadamente 100 estudantes entraram ou foram empurrados na piscina do clube dos alunos da Faculdade de Medicina. A promotora Eliana Passarelli logo concluiu que Edson foi assassinado e anunciou o indiciamento de 200 estudantes como cúmplices do crime. “Estávamos ouvindo os alunos que participaram da festa como testemunhas e agora vamos passar a ouvi-los como suspeitos de um assassinato”, disse ao Estadão. Logo voltou atrás e passou a falar em homicídio culposo – ou seja, em que não houve a intenção de matar. A morte do estudante é chocante e inspira restrições à violência dos trotes nas universidades. Se houver culpados, que sejam corretamente identificados e punidos pela Justiça. Mas, antes de mandar a escola inteira para o banco dos réus, os investigadores não podem descartar a hipótese de acidente. A mídia deve lembrar-se de um tribunal de papel conhecido como Escola Base e acender o sinal amarelo quando autoridades lavram sentenças antes do julgamento. Quando isso ocorre é porque ninguém – imprensa, polícia e promotoria – está fazendo seu trabalho direito.

Gratuito com desconto – O horário eleitoral gratuito não é tão gratuito assim. As emissoras de TV descontam da base de cálculo do imposto de renda 25% do equivalente ao custo das inserções. Isso nos anos de eleições. Agora, querem abater também o tempo em que veiculam os anúncios picados dos partidos, sobretudo no horário nobre (das 19 às 22h). Em 1998, segundo as contas da repórter Elvira Lobato na Folha de S.Paulo, a propaganda eleitoral na TV somará um total de 15 horas.

Inglês, só o da Índia – A globalização abre caminho para a internacionalização da imprensa. Dois gigantes do noticiário econômico, Financial Times, da Inglaterra, e Wall Street Journal, dos Estados Unidos, uniram as páginas para lançar publicação semelhante na Rússia. Em contrapartida, o magnata Rupert Murdoch não consegue entrar no mercado da Índia, onde já tem um canal de TV. A Sociedade Indiana de Jornais pressiona o governo para impedir que editores estrangeiros tornem-se proprietários no país. A Índia, por conta dos numerosos idiomas e dialetos, é o país que mais imprime jornais diários – 3.805, seguida dos Estados Unidos, com 1.570.

Faturamentos – Começam a sair os balanços da indústria da mídia no Brasil – com exceção do Globo, que omite seus números. O Estadão diz que faturou R$ 518,5 milhões no ano passado – R$ 18,2 milhões a menos que em 1977. A Folha revela faturamento de R$ 604,5 milhões em 1998, R$ 45,9 milhões a mais que no ano anterior. É impressionante como os jornais brasileiros faturam pouco.

Local de notícia – Na Inglaterra, televisão é diferente. A emissora estatal BBC, controlada pelo governo de um dos países que lideram a ofensiva da Otan contra a Iugoslávia, separou a Igreja do Estado e produziu um noticiário equilibrado sobre as ações das duas partes em guerra. As emissoras brasileiras, com a TV Globo à frente, levam a bandeira da Otan na câmera.

Ao texto, seu tamanho – Um mérito do Estadão deve ser ressaltado nesta era de jornalismo mininalista: o tamanho das reportagens é determinado por sua importância. O grande jornal paulista espalha um texto até por duas páginas, como fazem, aliás, os melhores – e muito lidos – diários do mundo. Módulo, sinônimo de texto curto, reduzido a fórceps para o espaço pré-diagramado, é artifício da indústria de casas pré-fabricadas.

Censura inaceitável – O juiz Cléber Lúcio de Almeida, de Belo Horizonte, conseguiu que a Justiça impedisse a divulgação do nome dele em reportagens sobre suposta corrupção no Detran de Minas. O juiz foi acusado por um instrutor de auto-escola, Oracir Rodrigues, de ter comprado uma carteira de motorista por R$ 2 mil. Para o juiz, não basta que apenas a Justiça tenha os olhos vendados.

©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 26 Série eletrônica
Maio-Junho, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 3 - Maio de 1999

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