Lixeiro de celebridade Instituto Gutenberg
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Coberturas


Lixeiro de celebridade

A melhor imprensa copia as baixarias da TV

Preocupado com a fofocagem na imprensa americana, o editor do austero The New York Times, Abe Rosenthal, um dia fez um apelo jornalístico-ideológico: “Deixem esse lixo para os russos”. Borrifados pela tintura marrom da imprensa brasileira, é hora de dizermos: “Deixem esse lixo para os americanos”. Tradicionalmente, o Brasil não tem imprensa sensacionalistas porque a imprensa séria cumpre esse papel. Mais uma vez, a começar da maior revista, Veja, e do maior jornal, Folha de S.Paulo, transmutou-se em tablóide ao divulgar os detalhes sórdidos da separação do playboy Chiquinho Scarpa e da alpinista social Carola de Oliveira.
“A condessa desbocada”, estampou Veja em artigo de quatro páginas. O escândalo foi desdobrado em mais seis páginas da reportagem de capa (“Baixaria no high society”) do encarte Veja São Paulo. É o jornalismo conhecido como gari de celebridade. A Guerra nos Bálcãs, na mesma edição n.º 1595, mereceu uma página. A Folha tratou do assunto em notinhas de colunas até encarnar o espírito de seu irmão editorial Notícias Populares: “Separação de Scarpa vira ´guerra` jurídica”, anunciou em título de seis colunas (toda a largura da página) e texto de seis mil palavras. O antetítulo foi moldado no manual dos tablóides ingleses que a imprensa brasileira repudia nos editoriais e reproduz nas notícias: “Advogado de Carola de Oliveira, que disse na TV que Chiquinho Scarpa seria gay, levanta suspeitas sobre o juiz”. (Pelo princípio da atração sintática, há aí a insinuação de que o juiz também é gay). Com mão de gato, a maior revista e o maior jornal abasteceram-se na lata de lixo que gostariam de ver tampada pela censura: os programas populares Leão Livre, da TV Record, e Ratinho, do SBT, nos quais a ex-senhora Scarpa desfiou pormenores de alcova de seu casamento fracassado. Veja e Folha vivem sugerindo o saneamento moral desses programas (as expressões prediletas são “baixaria, grostesco, bizarro, circo”). Numerosas reportagens e comentários apontam para a conveniência de “a sociedade” – ou o governo – pôr um paradeiro no mundo cão da TV. Em 13/1/99, no texto “Um dia de cão na telinha”, Veja referiu-se ao programa Leão Livre como o que há de mais “mais vulgar e desinteressante...É de passar mal.” Pois foi no Leão Livre que a grande revista brasileira montou sua sucursal de lavanderia da roupa suja da elite decadente. Veja cuidou de transcrever os diálogos de Carola com o Leão e o Ratinho, e, no jornalismo-xerox que antes se chamava “tesoura press”, recortou trechos da ópera de bordel.
Quando os temas imundos da TV são transplantados para as páginas assépticas da imprensa séria, transformam-se em algo que algum teórico do grotesco clonado talvez chame de “jornalismo investigativo”. Nessa gincana bizarra, ninguém separa o joio do trigo – todo mundo publica o joio.
A justificativa clássica refere a um vago “direito do público de saber”. Viceja na imprensa de elite a interpretação de que o culpado pela baixaria da imprensa é o público que consome escândalos. A tese foi defendida pelo diretor de redação da Folha, Otavio Frias Filho, em 1/9/97, a propósito das críticas de um repórter do jornal americano Washington Post ao papel na mídia na morte da princesa Diana: “O que o repórter do `Post´ não disse é que o público – todos nós – participa da cadeia de responsabilidades, está aliás na base dela. É a curiosidade popular em torno dos “ricos e famosos” que paga milhões pelo trabalho de bisbilhotar a intimidade alheia”, escreveu Frias Filho.
A questão é que a curiosidade popular não tem ética, mas a imprensa deve ter. A mídia que atende ao interesse ilimitado do público adota a lógica do traficante de drogas: apenas vende o que o cliente pede. Nesse jogo de oferta e procura, vale repetir a melhor frase de Abe Rosenthal: “Não sou absolutamente um flagelador da imprensa – passei toda a minha vida no jornalismo e abençoando o dia em que comecei – mas não posso fingir não ver o que vejo: o explosivo movimento nos jornais, revistas e TV rumo a uma forma especializada de coleta de lixo, conhecida como fofoca”.
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 26 Série eletrônica
Maio-Junho, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 3 - Maio de 1999

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