A última da Monica Instituto Gutenberg
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Coberturas


A última da Monica

Jornal critica mas divulga escândalo americano

“O jornalismo de escândalo está percorrendo um perigoso itinerário. Esse culto à frivolidade indica inconsistência editorial. A passionalização da informação, festejada num primeiro momento, acaba produzindo cicatrizes irreparáveis no prestígio dos veículos.
De um editorial do Estadão, em 13/2, sobre cobertura da imprensa americana ao caso Clinton-Monica.

A imprensa brasileira é muito ética, repele fofocas e jamais publicaria o lixo editorial que os americanos divulgam sobre o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky, certo? Bem, a imprensa brasileira oscila na ética dupla da casa e da rua de que fala o antropólogo Roberto DaMatta – onde a casa, templo do pudor, é o editorial; e a rua, palco da malandragem, é o noticiário. O editorial é o guardião da virtude que o noticiário corrompe.
Com o título de “A síndrome do escândalo”, o Estadão passou um pito de ombudsman na mídia dos Estados Unidos a propósito da cobertura do caso Bill e Monica. O artigo isentou o austero The New York Times e lavou com detergente ético a inescrupulosa reportagem de capa da revista People sobre a filha do casal Clinton, Chelsea, uma adolescente até então poupada da lambança em torno das aventuras sexuais do pai. Indignado com a imprensa americana, o Estadão perguntou a seus leitores: “Será legítimo, em nome do direito à informação, submeter uma jovem de 19 anos, compreensivelmente magoada e desorientada, a tamanha exposição pública?” Mais abaixo, a resposta: “A imprensa tem relevante papel de denúncia. Mas essa função nada tem a ver com a curiosidade mórbida, os boatos, a maledicência e o sensacionalismo barato.”
Nesta evangelização ética do aristocrático jornal brasileiro, resplandece o marketing dourado e casto dos editoriais. No jogo cinza e rude da notícia, a conversa é outra. Se o leitor brasileiro quiser os detalhes sórdidos do caso Clinton-Lewinsky, não precisa aprender inglês nem aumentar a saída de dólares comprando tablóides americanos (tablóide estrangeiro virou, no Brasil, sinônimo da sensacionalista imprensa marrom). Para indignar-se com o “jornalismo de escândalo”, leia os editoriais. Para usufruir o “jornalismo de escândalo”, leia as notícias. Ao mesmo tempo em que receita para os americanos a “qualidade técnica e ética”, o aristocrático jornal brasileiro transcreve aqui a mexericada que critica lá.
Monica Lewinsky toma remédio para depressão? Leia no Estadão. Clinton é sensual e, digamos, vigoroso? Leia no Estadão. “A jovem” teve outro amante durante o caso com o presidente? Leia no Estadão. Quem foi o namorado secreto que a engravidou e a obrigou a fazer um aborto? Leia no Estadão. Não se acanhe. Quer saber qual o desempenho do homem mais poderoso do planeta? Por R$ 1,25 o Estadão lhe conta.
A crônica político-sexual que galvanizou os Estados Unidos é traduzida para o português em reportagens extensas, com chamada na 1ª página e manchete de seis colunas (toda a largura da página), a exemplo desta pérola, de 4/3: “Monica diz que chegou a pensar em suicidar-se”. Seguia um texto de 700 palavras, com revelações a caráter extraídas do livro História de Monica, lançado em grande estilo pela ex-estagiária para documentar seu romance na Casa Branca. No jornal que adverte para a “passionalização da informação”, lêem-se títulos ao feitio dos tablóides:
“Hillary achava que marido apenas `orientava' Monica”
“Hillary deu soco em Clinton, revela jornal”
“Monica afirma que não consegue viver sem Prozac”
“Monica teve outro amante durante caso com Clinton”
“Identificado o homem que engravidou Monica”
“Sexo oral foi admitido em declaração”
“Monica teve relações `incompletas' com Clinton”
“Monica diz que Clinton é `parceiro sexual ideal`”
“Encontros sexuais são descritos em todos os detalhes” – e aqui o subtítulo tinha a sintaxe melíflua dos jornais sensacionalistas: “Em pleno ato amoroso, o presidente falou com um parlamentar pelo telefone”. Outro título e subtítulo ao estilo insidioso dos tablóides: “Caso Monica leva filha de Clinton a romper namoro – Chelsea, arrasada, apoiou-se no namorado Matt, mas a pressão foi demais e eles romperam”. A Revista do Rádio não faria melhor. Esta última reportagem foi extraída do outrora respeitável The Times, de onde o Estadão transcreveu subescândalos que a imprensa americana, com a exceção óbvia dos tablóides, se recusava a divulgar. Em 5/1, saiu isto: “Ex-prostituta pretende fazer teste de paternidade de filho”, dando conta de um suposto rebento bastardo do presidente. O jornal adotou a fórmula marota que a imprensa séria utiliza para divulgar mexericos e boatos: noticia a fofoca como notícia da fofoca. “Washington – O jornal britânico The Times estampou ontem em manchete...”
Para repassar o lixo despejado pelas agências internacionais, o austero jornal brasileiro embute o serviço noticioso do que há de pior na imprensa americana – como o National Inquirir e o New York Post, garis do entulho das celebridades. Qual a fonte da notícia sobre o suposto soco de Hilary em Clinton, publicada no aristocrático jornal brasileiro em 27/12/98? O National Inquirir, pasquim apresentado como um jornal “que não desfruta de boa reputação no meio jornalístico”. Do Post, o tablóide, o Estadão extraiu até intrigas internacionais: “Com as revelações de Monica, começam a surgir também várias especulações sobre o caso. De acordo com uma delas, publicada pelo jornal New York Post, o serviço secreto israelense, Mossad, usou o escândalo para chantagear...” Especulação é eufemismo de mexerico.
Nossos jornais estão longe de adotar padrões de lisura e renúncia semelhantes, por exemplo, aos dos portugueses. Conforme reportagem publicada pelo próprio Estadão, em 26/9/98, quatro emissoras de TV, quatro de rádio, seis jornais e uma revista de Portugal assinaram um protocolo ético para sonegar ao público o noticiário “obsessivo e degradante” sobre “a vida íntima de Clinton.” Nenhum meio de comunicação brasileiro foi capaz de imitar o americano State Journal-Register, pequeno diário de Springfield, no estado de Illinois. Em fevereiro do ano passado, no auge do escândalo, o editor Patrick Coburn publicou nota informando que a crônica sexual estava banida das páginas do Register. “Com exceção desta coluna, você não encontrará nenhuma referência a Lewinsky nesta edição”, avisou o editor.
A copiosa cobertura dada no Brasil ao zíper do presidente americano despreza um aspecto estranho à nossa imprensa e instituições: a investigação do poder. Raramente se diz que o melodrama de Monica Lewinsky chegou à mídia não com a rubrica de “escândalo sexual”, e sim como um capítulo de investigação oficial conduzida por promotor independente sobre supostos crimes do presidente da República. A investigação começou no estado de Arkansas, farejando negociatas imobiliárias da época em que Clinton era governador, passou pela acusação de assédio sexual feita por Paula Jones, que pedia uma indenização de 700 mil dólares, e desaguou em Monica Lewinsky porque sua amiga Linda Tripp informou ao promotor Kenneth Star que a estagiária da Casa Branca era vítima de uma conspiração de perjúrio. Em resumo, Clinton era acusado de obstruir a justiça e induzir Monica a mentir à justiça para protegê-lo. A raiz do caso estava na forma como Clinton manipulava a lei, não o charuto.
No Brasil é assim: uma revista de circulação nacional (IstoÉ) divulga que o presidente da República (Fernando Henrique Cardoso) cometeu um crime (receptação de gravações clandestinas) e fica por isso. “Às 17 horas do dia 17 de setembro, o presidente Fernando Henrique Cardoso, a pedido do governador do Ceará, Tasso Jereissati, recebeu em seu gabinete no Palácio do Planalto o empresário Carlos Jereissati. O irmão do governador levou a Brasília uma encomenda especial: cópias das fitas do grampo feito na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que mostram as armações para a venda de empresas do grupo Telebrás,” assegurou a revista em novembro passado.
Contexto: o presidente Fernando Henrique Cardoso dera ordens para que a Polícia Federal e o Ministério Público descobrissem o autor do grampo, naquele estilo “doa a quem doer”. A principal vítima das gravações, o então ministro das Comunicações, Mendonça de Barros, dizia à boca pequena que o criminoso era o empresário Carlos Jereissati. O general Alberto Cardoso, chefe da Casa Militar da Presidência da República, apareceu com duas fitas que, na sua versão, foram deixadas num viaduto de Brasília por alguém que telefonou para avisar de entrega tão generosa.
Ninguém levou a sério a taxativa reportagem de IstoÉ – nem nossos procuradores independentes, nem a própria revista, que na edição seguinte evitou desdobramentos. Nenhuma confirmação do suposto crime do presidente, nenhum pedido de desculpas da revista, nenhuma conclusão em três inquéritos simultâneos. Nossos jornais, que desdenham a jequice dos americanos, têm coisas mais importantes a fazer: contar a última de Monica Lewinsky.
©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 26 Série eletrônica
Maio-Junho, 1999

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Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 2 - Abril de 1999

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