Nem oposição, nem amém Instituto Gutenberg
logojj.gif - 14,47 K


Nem oposição, nem amém
Papel da imprensa é vigiar o governo e dar as notícias

A imprensa e o governo dão a impressão, em qualquer lugar do mundo onde viceja a democracia, de que gostariam de tomar o lugar do outro. O governo adoraria escrever as notícias. A imprensa sonha com a frase do presidente americano Thomas Jefferson (1743-1826) sobre a primazia dos jornais: "Se me coubesse decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, eu não hesitaria um momento em preferir a segunda alternativa". A cartilha contemporânea, no entanto, reza que não cabe ao governo intrometer-se na imprensa, nem é papel da imprensa fazer oposição (e muito menos dizer amém) ao governo.
A elite da imprensa brasileira tem agido, no entanto, como um partido único na defesa e sustentação do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Há divergências, críticas, colunistas rebeldes, e pipocam libelos de tribunal conhecidos como "denuncismo". Nada que altere o rumo: a escaramuça é típica da dinâmica interna do partido único. Não há organização mais dividida pelas facções. Em linhas gerais predomina na mídia a subserviência a que se referiu o diretor da Folha de S.Paulo, o maior e mais crítico jornal do país, Otavio Frias Filho, ao declarar, no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, em 26/2/96, que a imprensa estava sendo servil ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
Duas gerações de jornalistas, a que já estava e a que chegou às redações durante a longa noite do regime militar, adotaram como lema uma frase atribuída ao humorista Millor Fernandes: "Imprensa é oposição. O resto é armazem de secos e molhados". Não é. A função da imprensa é publicar notícias, boas ou más, contra ou a favor, sem a preocupação de sustentar ou boicotar governantes. Equanimidade e senso de notícia não querem dizer neutralidade ou falta de opinião, e sim investigação e divulgação dos fatos de interesse público com equilíbrio e exatidão. Vigiar o governo significa zelar pelo interesse público, sem inflar os fatos ou distorcê-los pelo filtro da linha editorial. . Se o governo impõe censura, é dever da imprensa rebelar-se para reconquistar seu oxigênio, a liberdade de decidir o que é ou não é notícia.
Tal figurino é talhado para a grande imprensa comercial, que universaliza o interesse pela notícia. São os grandes jornais, revistas e redes de TV que se proclamam apartidários, pluralistas, independentes, objetivos, isentos, sem o rabo ou a contabilidade presos a quem quer que seja. A imprensa de partidos, sindicatos ou segmentos não se enquadra neste molde porque é (legitimamente) engajada, limitada e parcial por natureza. Em contrapartida, a grande imprensa comercial de interesse geral dirige-se ao conjunto do público, e como este é diversificado e expressa todo tipo de contradições e diferenças, o manual impõe notícias apuradas e pautadas na verdade. Todos dizem que rezam por esta cartilha e com certeza deveriam rezar. Não poderia haver marketing melhor, nem linha editorial mais justa.
Há tarefas, contudo, que o melhor marketing não consegue maquiar. Internacionalizou-se o consenso de que o primeiro objetivo da imprensa, nas democracias liberais, é fiscalizar o poder público. Marcar o governo como o zagueiro funga a nuca do artilheiro é a melhor jogada da mídia. Tal como no futebol, não valem golpes baixos, empurrões, pontapés. O jogo limpo na notícia é arbitrado pelo interesse público e pela acurácia, não pelas paixões ou transgressões dos meios de comunicação. Há um quê de ambivalência numa imprensa que, em bloco, omite-se na investigação de programas públicos gigantescos e duvidosos, como o Sivam e o Proer, estendeu o prazo de validade do Plano Real, fechou os olhos para escândalos como a compra de votos para a reeleição do presidente, e, ao mesmo tempo, fez pose de xerife ao escancarar, ao arrepio da lei, conversas de autoridades gravadas ilegal e criminosamente, como no caso dos grampo nos telefones do BNDES. Parodiando o humorista, imprensa é notícia; o resto são trocos e trocados.

Leia mais:
Ética por favor - A foto de JK com Dulles

©Instituto Gutenberg
Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

  Índice

igutenberg@igutenberg.org


Jornal dos Jornais
Textos da coluna do Instituto Gutenberg na revista Jornal dos Jornais - nº 1 - Março de 1999