A história do professor Leonardo Castro assemelha-se, por enquanto, à do guarda de segurança Richard Jewell, o americano que o FBI, anonimamente, e a imprensa, escancaradamente, apontaram como suspeito de colocar a bomba que explodiu no Parque do Centenário, em 27 de julho do ano passado, durante a Olimpíada de Atlanta, nos Estados Unidos. A culpa do professor brasileiro ainda terá de ser provada, mas a inocência do guarda americano foi reconhecida quando o FBI mandou-lhe uma carta assegurando que ele não era suspeito. Jewell voltou-se para a mídia com a lei numa mão e um pedido de indenização na outra. Só da rede de TV NBC ele embolsou US$ 500 mil. Abriu processo contra jornais e vendeu sua história para um estúdio de Hollywood.
No final de julho, Jewell depôs a um comitê do Congresso que investiga o erro do FBI no episódio. “Foi ultrajante e é responsabilidade do comitê investigar o incidente e considerar se precauções podem ser tomadas de modo que outros não sofram injustiça semelhante nas mãos de agentes federais no futuro”, disse o democrata John Conyers.
Como polícia e imprensa são parecidas em qualquer lugar do mundo, um agente do FBI sussurrou a uma repórter do Atlanta Journal que Jewell estava sendo investigado. Por quê? Porque ele achara a bomba e avisara a polícia. O jornal deu uma edição extra. Considerado esquisito, de poucos amigos, recluso em casa com a mãe, pulverizado em mexericos dos vizinhos, Jewell foi exposto como suspeito numa investigação na qual os investigadores estavam perdidos. A Sociedade dos Jornalistas Profissionais dos Estados Unidos lamentou que o preço do erro foi “muito alto em termos de confiança pública e credibilidade” da mídia. Os agentes do FBI que cometeram a indiscrição já receberam uma advertência.
O Atlanta Journal recusa-se a reconhecer qualquer erro e alega que apenas imprimiu informações passadas por uma fonte confiável, o FBI. É um truque fácil no Brasil. A imprensa que edita acusações anônimas tem o refúgio da “proteção da fonte”, e o prejudicado fica sem ter a quem punir: não responsabiliza a autoridade porque é a anônima “polícia”, e não pode processar o jornal porque este sempre lava as mãos e reivindica a função de moleque de recados entre as fontes e o público.
Boletim Nº 16, Julho-Agosto de 1997
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