Carta Capital alveja o pronto-socorro do capital Investigação
Carta Capital alveja o pronto-socorro do capital

Revista conta manobras da intervenção do Banco Central no Banespa

Jornalismo de investigação? Tem sido uma espécie tão rara na mídia quanto um mico-leão dourado na floresta, mas um exemplar viçoso foi avistado na edição de 7/8 da revista Carta Capital. O editor Carlos Drummond reconstituiu com a minudência de um arqueólogo a intervenção do Banco Central no Banespa, anunciada em 29 de dezembro de 1994, três dias antes da posse do atual governo, e escreveu a reportagem de capa "Caso Banespa, golpe dos tucanos - A história da intervenção mancha a honra do governo federal e põe em xeque o Banco Central".
A peça de resistência da reportagem, baseada em depoimentos e documentos fartamente reproduzidos, é uma minuciosa descrição da reunião de 7 de agosto de 1995, na sede do BC em São Paulo, quando foi apresentado o relatório da comissão de inquérito que durante sete meses apurou supostas irregularidades no banco. Com nomes, locais, datas e diálogos, a revista divulgou que naquele dia a comissão anunciou duas decisões: denunciar algumas irregularidades ao Ministério Público e arquivar o inquérito. "O processo tem de ser arquivado porque não há patrimônio líquido negativo e o devedor principal é o próprio governo do Estado, que está negociando com o BC uma forma de amortização da dívida", receitou, segundo a revista, o funcionário Carlos José Braz Gomes de Lemos, relator da comissão de inquérito. Mas o diretor do BC Alkimar Moura, presente à reunião, achou pouco e aceitou uma sugestão que, segundo Carta Capital, lhe toldou o colarinho: avermelhar o balanço do Banespa.
O artifício, para fazer a situação parecer pior do que realmente era, foi considerar toda a dívida do governo paulista com o banco como crédito em liquidação. Segundo a apuração de Drummond, o Banco Central praticou uma repreensível "manobra contábil": no dia da intervenção o Banespa tinha um patrimônio líquido positivo de R$ 1,7 bilhão e a dívida do Estado, no total de R$ 9,4 bilhões, estava em dia, com a exceção de "uma pequena parcela de R$ 25 milhões vencida...". "Isso significa que, no dia em que se fez a intervenção, não havia passivo a descoberto, ou seja, créditos sem perspectiva de recebimento", concluiu a revista. Num truque de fazer inveja aos contadores do Banco Nacional, um saldo de patrimônio líquido positivo de R$ 1,7 bilhão foi transformado em patrimônio líquido negativo de R$ 4,2 bilhões.
A matéria de Carta Capital remete para a superficialidade da cobertura dos grandes assuntos econômicos — a começar pelo mal explicado Proer, um bilionário e perdulário programa de socorro a bancos cujo custo é real para o contribuinte ainda é desconhecido e cuja oportunidade nunca foi demonstrada além de argumentos genéricos como a suposta necessidade de impedir a quebra do sistema financeiro. A experiência mostra que quanto mais complexo e anguloso é o assunto, mais pobre e especulativa tem sido a cobertura da imprensa. Decisões que movimentam bilhões de dólares e mexem no bolso do contribuinte são tomadas cabulosamente, e a mídia, por conveniência ou incompetência, não tem como rotina explicar ao público o que está acontecendo.
Segundo Carta Capital, a intervenção no Banespa deve ser creditada a disputas políticas e à gula dos bancos privados pela grande fatia do mercado nas mãos do banco estatal paulista. Infelizmente para os leitores, a reportagem não foi desdobrada por outros meios de comunicação, embora faça a ata do que diz ser um dos grandes escândalos financeiros do ano. Alguns jornais deram a palavra ao presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, para ele dizer de passagem que a revista estava mentindo (Estadão, 11/8) ou que o BC iria processar Carta Capital (Folha, 9/8). "...Todas as afirmações feitas têm por base entrevistas, documentos e depoimentos", desafiou a revista no número de 4/9, e provocou: "Talvez Gustavo Loyola não tenha tanta sorte como imagina e em breve seja convidado a explicar seus atos". Até o final de agosto não se tinha notícia do processo.

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Número 10, julho-agosto de 1996
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