Instituto Gutenberg


 




A invasão dos marcianos: 
A Guerra dos Mundos 
que o rádio venceu 

Especialistas brasileiros analisam o programa que mais marcou a História da mídia no Século XX 

Gisela Swetlana Ortriwano

Welles na CBS:"... vocês ficarão aliviados ao saber que tudo não passou de um entretenimento"

N ove horas da noite de 30 de outubro de 1938. A rádio CBS - Columbia Broadcasting System - e suas afiliadas de costa a costa, transmitem, dentro do programa Radioteatro Mercury, A invasão dos marcianos. Na adaptação da obra A Guerra dos Mundos do escritor inglês H. G. Wells, centenas de marcianos chegam em suas naves extraterrestres a uma pequena cidade de New Jersey chamada Grover's Mill. 
Era uma peça, literalmente. E os méritos públicos da adaptação, produção e direção do programa foram para sempre creditados ao então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. Sessenta anos depois, a ousadia ainda fascina. E a história do rádio passou a ter um antes e um depois...

 Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos
Manchete do jornal Daily News de 01.11.38

 No especial do Raditeatro Mercury da véspera do Dia das Bruxas de 1938 - denominado Mercury's Halloween Show -, usando somente sons e silêncios, foi representada uma invasão de marcianos sob a forma de uma cobertura jornalística. Todas as características do radiojornalismo usadas na época – às quais os ouvintes estavam habituados e nas quais acreditavam – se faziam presentes: reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de especialistas e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emotividade dos envolvidos, inclusive dos pretensos repórteres e comentaristas, davam a impressão de um fato, que estava indo ao ar em edição extraordinária, interrompendo outro programa, o radioteatro previsto. Na realidade, tratava-se do 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas por Orson Welles e o Radioteatro Mercury (ou Teatro Mercury no Ar) que explorava as técnicas jornalísticas com a ambientação sonora requerida pela linguagem específica do rádio.
A CBS calculou na época que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade passaram a sintonizá-lo quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato, acreditando que estavam mesmo acompanhando uma reportagem extraordinária. E, desses, meio milhão tiveram certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico e agindo de forma a confirmar os fatos que estavam sendo narrados: sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc. O medo paralisou três cidades. Pânico ocorreu principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e Welles situou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores de Newark e Nova York (além de Nova Jersey), que sofreram a invasão virtual dos marcianos da história.
O conceito de rotatividade de audiência, que hoje faz com que as notícias sejam repetidas à exaustão uma vez que as pessoas estão sempre começando a ouvir o rádio naquele exato momento, ainda não existia na teoria. Só na prática. A recepção era coletiva, dando margem à existência de uma comunidade de ouvintes que, diversamente da recepção intimista, cúmplice e individualizada que caracteriza o rádio atual, facilitava – e até incentivava - os comentários interpessoais, a troca de informações, experiências e emoções. Ainda hoje, a grande maioria dos acontecimentos importantes chegam primeiro pelo rádio, seja direta ou indiretamente: quem avisou, ficou sabendo pelo rádio.

 Ouvintes de rádio em pânico tomam drama de guerra como verdade
Manchete do jornal New York Times de 01.11.38

 A peça radiofônica é de autoria de Howard Koch com a colaboração de Paul Stewart, baseada na obra de H.G. Wells (1866-1946), e ficou conhecida como "rádio do pânico". O roteiro foi reescrito pelo próprio Orson Welles (1915-1985) que, além de diretor, foi também o produtor junto com a Mercury Players e, na dramatização, fez o papel de professor da Universidade de Princeton que liderava a resistência à invasão marciana. Orson Welles misturou elementos específicos do radioteatro (ou seja, da ficção), com os existentes nos noticiários da época (o verossímil, a realidade convertida em relato). 
Herbert George Wells foi um dos precursores da literatura de ficção científica. A Guerra dos Mundos, publicado há exatos 100 anos, em 1898, era um de seus livros mais conhecidos, com o palco da ação da história ambientado em Londres, Inglaterra. Wells já utiliza, em seu texto, um estilo bastante jornalístico, atualizado tecnologicamente para sua época. Passados 40 anos do lançamento, Orson Welles resgata a temática e trata de situá-la frente ao modo de vida e aos valores norte-americanos dos anos 30. No original, os episódios se desenvolvem ao longo de vários dias. Na adaptação, apressando o ritmo da trama, tudo acontece em pouco mais de uma hora, confirmando a força e a credibilidade devotadas às notícias transmitidas por rádio. O radioteatro começa com sua abertura habitual, interrompido pelo anúncio da apresentação de um suplemento musical, bem ao estilo da época (inclusive se, por algum motivo um programa não pudesse ser apresentado, entrava o suplemento para cobrir a lacuna) e pela prestação de serviço, o boletim meteorológico. 

O assunto central de A Guerra dos Mundos foi sendo introduzido aos poucos. Interrompendo a música de tempos em tempos, são anunciadas as novidades, sempre mais ameaçadoras. A pretensa transmissão jornalística vai ocupando cada vez maior espaço até que os flashes se tornam uma extraordinária que cancela o suplemento musical que, por sua vez, cancelava o radioteatro. Um locutor simula passar notícias, um repórter entrevista especialistas e autoridades, outro finge estar presente no palco da ação presenciando ao vivo os efeitos produzidos pelos marcianos invasores em uma das regiões mais povoadas dos Estados Unidos. 
Nesses 60 anos, muitas vezes a experiência tem sido repetida por produtores e emissoras de rádio em todo o mundo. São experiências locais, de menor destaque mas que, sempre, levam a resultados semelhantes: a reação emocional condicionando o comportamento do ouvinte. Apesar dos tempos serem outros, da quantidade de fontes de informação ser infinitamente maior, as possibilidades mobilizadoras do rádio continuam intactas. 

O programa de rádio mais quente do mundo

O formato jornalístico: a estética e a ética

Baseado em análise acurada da realidade econômica, social, tecnológica e do comportamento humano da época, o formato jornalístico foi o padrão utilizado por Welles para a divulgação das "informações". Aproveitando a credibilidade que o jornalismo havia conquistado, e apoiado nos recursos reais disponíveis em 1938 e aos quais os ouvintes estavam acostumados, o padrão dramático foi utilizado para o desencadeamento da obra radiofônica. As transmissões diretas, ao vivo, podiam ser feitas, sob o ponto de vista do desenvolvimento tecnológico, desde os anos 20. A introdução de reportagens externas merece destaque, uma vez que possibilitava as transmissões dos acontecimentos jornalísticos ao vivo, diretamente do palco da ação, do local em que ocorriam.
Outras inovações importantes seriam adotadas ainda nos anos 30. Entre elas, o telefone tornou-se um instrumento fundamental para o sucesso das coberturas radiojornalísticas. Reportagens com a participação de vários repórteres, falando de diferentes lugares, também eram realizadas. O rádio e seu jornalismo faziam parte do cotidiano dos ouvintes na década de 30. O radiojornalismo torna-se mais complexo e ganha maiores espaços. As transmissões passam a ter melhor qualidade sonora graças aos avanços tecnológicos e à própria necessidade de informar a população que se acostumara a receber as notícias em primeira mão. A credibilidade conquistada pelo rádio era indiscutível. Não se tratava mais de uma novidade fascinante, de um modismo, mas de uma necessidade. As emissoras passam a montar suas próprias estruturas de informação e a trabalhar com fontes especializadas, não dependendo mais dos jornais impressos e suas agências de notícias para poder informar. O rádio conquista espaços mas pouco sabe do papel que desempenha na vida dos ouvintes.
Os especialistas ouvidos no enredo de Welles são mediadores que, com riqueza de informações, explicam o acontecimento. O astrônomo é um tipo de cientista que tem especial importância no relato, aparecendo sob diferentes personagens, diversos professores supostamente de renome, que confirmam os dados e avaliam a situação durante o transcorrer da ação. Outros especialistas são chamados para sustentar a tensão argumentativa da transmissão e entram quando a narrativa exige a presença de uma ação social organizada, aparecendo então as autoridades constituídas: comandante de polícia, vice-presidente da Cruz Vermelha, Capitão da Marinha, Secretário do Interior dos EUA etc. O bombardeamento de informações em um meio e em um formato aos quais os ouvintes estavam habituados e que já tinham conquistado sua credibilidade foi, sem dúvidas, importante desencadeador da reação da audiência: acreditar que as informações vindas do rádio, em forma de notícias, seriam sempre verdadeiras.
Uma curiosidade a ser considerada: todos os envolvidos no desenrolar da dramatização, sejam repórteres, locutores, cientistas, autoridades etc., são do sexo masculino. Será que a mulher não tinha, na sociedade da época, credibilidade para representar papel de destaque na mediação social? 
No final do programa, o narrador constata a morte dos marcianos, seres tão poderosos e aterrorizadores, vítimas de microorganismos terráqueos, seres tão minúsculos contra os quais não tinham defesa. Os terríveis marcianos foram vencidos pelo seu próprio corpo! Afinal, tamanho não é documento. Mas essa notícia, na peça, só foi dada quando os ouvintes já tinham vivenciado o pânico. 

A credibilidade (ou a cumplicidade) do jornalismo

Os modelos jornalísticos são utilizados ainda hoje com objetivos sensacionalistas como, por exemplo, em programas policiais, que já fizeram muito sucesso no rádio e atualmente são vedetes na televisão. Ao modelo jornalístico, nestes casos, alia-se o gênero dramático. De maneira geral, em coberturas jornalísticas de eventos que envolvem comoção pública, o padrão continua dominante e é explorado à exaustão por muitas emissoras que têm no sensacionalismo seu principal trunfo. A questão ética parece ficar esquecida. Basta pensar em casos como a cobertura da doença e morte de Tancredo Neves (21.04.1985), a morte do piloto Ayrton Senna (01.05.1994) ou dos componentes do conjunto musical Mamonas Assassinas (03.05.1996), entre tantos outros.
O modelo parece ser tão promissor, motivando e cativando o ouvinte, que é utilizado com muita freqüência pelos programas políticos que, sob o formato jornalístico, com repórteres, comentaristas e locutores (que podem ser verdadeiros ou representados por atores), apresentam suas idéias e programas partidários, ouvindo especialistas e trazendo o palco da ação. Muitos deles não deixam de se aproximar perigosamente do sensacionalismo puro e simples.

 

E atenção!!! Em edição extraordinária...

O público sabia, nos Estados Unidos de 1938, que o rádio tem características muito adequadas à transmissão jornalística e isto é relevante para a discussão da questão do jornalismo radiofônico, formato adotado na adaptação de A Guerra dos Mundos
Nos anos 30, o rádio ainda não tinha mobilidade quanto ao receptor (não havia transistor), mas do ponto de vista do emissor, o fato já era conhecido. Com o desenvolvimento tecnológico ficava cada vez mais fácil transmitir de qualquer lugar, podendo acompanhar os acontecimentos diretamente do palco da ação, do local do acontecimento. O rádio já era um meio de comunicação eletrônico – o único então –, a poder oferecer o imediatismo: transmitir simultaneamente ao acontecimento, em tempo real. 
Welles aproveitou a atualidade e oportunidade do momento vivido nos EUA. A transmissão constituiu um alerta para o próprio rádio. Ficou demonstrado que sua influência era tão forte e determinante que poderia causar reações imprevisíveis na audiência. As características do meio, aliadas a determinadas condições do momento histórico como, por exemplo, o anseio em sair totalmente da Grande Depressão iniciada com a bancarrota econômica de 1929, as tensões na Europa deixando cada vez mais próxima a possibilidade de um novo conflito mundial (situações que geravam insegurança), a credibilidade no jornalismo e na ciência, a divulgação de obras de ficção científica aventando a hipótese de haver vida inteligente em outros planetas e possíveis viagens interplanetárias etc., levaram a uma reação que fugiu a qualquer previsão: estavam reunidos naquela radiofonização os ingredientes certos para provocar o pânico.
A experiência indicou que era necessário realizar estudos sistematizados de audiência/recepção e do poder do rádio na formação da opinião pública. Mostrou, sobretudo, a necessidade de pesquisas sobre o assunto. Veio à tona a problemática muito mais complexa das audiências e de suas possibilidades de manipulação. 
A experiência permitiu que várias das características do rádio, da audiência e da estrutura da mensagem radiofônica, pudessem ser analisadas e posteriormente utilizadas – ou evitadas – conscientemente. Deixou patente, acima de tudo, a questão da responsabilidade do comunicador com relação à mensagem que emite e suas conseqüências, entre elas, o sensacionalismo.

 

A invasão marciana no espaço da imaginação

Depois de A Guerra dos Mundos, o rádio nunca mais foi o mesmo. Hoje, a informação jornalística no rádio ocupa espaços cada vez maiores e as emissoras all news e talk radio, nas quais a programação está toda voltada para o jornalismo, fazem parte do cotidiano. Pecam, contudo, por esquecer a linguagem do rádio: além da informação, a correta ambientação sonora é fundamental. Não dá para ficar ouvindo só blá, blá, blá! O rádio necessita da música, dos ruídos, dos silêncios. Mas os nossos produtores parecem ter esquecido a linguagem radiofônica. Talvez, voltar 60 anos no tempo e ouvir o programa que é o maior fenômeno de mídia de todos os tempos, seja uma boa lição.
Acreditar que os sons não desaparecem, apenas se fragmentam no espaço é uma das idéias fundamentadas em princípios científicos, tão fantásticas que mais parecem ficção. Talvez possa vir o dia em que a tecnologia permita recompor os sons dispersos e, quem sabe, por meio de um software, um desfragmentador, recompor os fiapos das falas desfeitas no espaço e no tempo, como nuvens tocadas pela ventania. Lá estará a voz de Orson Welles, jovem e imponente, na noite anterior ao Dia das Bruxas de 1938...

"... Fizemos o que deveria ser feito. Aniquilamos o mundo diante de seus ouvidos e destruímos a CBS. Mas vocês ficarão aliviados ao saber que tudo não passou de um entretenimento de fim-de-semana. Tanto o mundo como a CBS continuam funcionando bem. Adeus e lembrem-se, pelo menos até amanhã, da terrível lição que aprenderam hoje à noite: aquele ser inquieto, sorridente e luminoso que invadiu sua sala de estar, é um representante do mundo das abóboras e, se a campainha de sua porta tocar e ninguém estiver lá, não era um marciano... é Halloween!"


Gisela Swetlana Ortriwano é jornalista, doutora em Comunicação e Professora da Universidade de São Paulo. Este texto integra o livro 
Rádio e Pânico
A guerra dos Mundos, 60 anos depois
Especialistas brasileiros analisam o programa que mais marcou a História da mídia no Século XX
Eduardo Meditsch (org.) Editora Insular (048) 2233428 

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Boletim Nº 24 Série eletrônica
Janeiro-Fevereiro, 1999 
 

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