A obediência ao que não é obrigatório
Seminário Ética na Imprensa - Realidades e Desafios no Brasil
São Paulo-Itu 17 a 19 de maio de 1996
Centro Internacional de Jornalistas
Instituto de Estudos Avançados da USP
Instituto Gutenberg


A obediência ao que não é obrigatório

George A. Krimsky

Este texto visa a abordar sinteticamente alguns dos assuntos que serão discutidos no seminário Ética na Imprensa - Realidades e Desafios no Brasil.
Embora a discussão sobre o significado e a importância de ética venha mobilizando os filósofos há séculos, sua aplicação para a imprensa somente agora ganhou lugar em todas as sociedades e países. A ética na imprensa tornou-se um "assunto quente", não apenas dentro da profissão, mas também entre autoridades do governo, educadores, ativistas, empresários e pessoas comuns Por que?
Parece que hoje qualquer um que seja atingido pelos meios de comunicação — um público enorme — tornou-se um crítico de mídia Mas há outro motivo que parece tornar a ética entre jornalistas um assunto mais importante do que, por exemplo, ética entre professores do ensino básico: jornalistas estão sempre falando sobre a necessidade de terem credibilidade. Eles precisam ganhar a confiança dos leitores, já que estão prestando um serviço público. E o público somente pode confiar neles se eles forem confiáveis. É nesse ponto que entra a ética.
Pesquisas de opinião conduzidas tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento normalmente mostram que a imprensa não goza da confiança de que deveria gozar. Isso ocorre nos Estados Unidos, onde apesar de sua reputação de "watchdog" do governo, a imprensa fica entre os últimos colocados na lista de credibilidade pública (um resultado semelhante ao do Congresso americano).
Alguns jornalistas acham que muitas acusações deveriam ser creditadas a outros profissionais dos meios de comunicação. A linha divisória entre jornalismo e entretenimento está ficando cada vez mais tênue, principalmente na televisão, e isso é um complicador. Além disso, como recentemente disse um jornalista de Trinidad, "hoje em dia, qualquer um que possui um computador pensa que é um jornalista."
A discussão sobre o comportamento da imprensa é dificultada pelo fato de que não há consenso sobre qual é o papel da imprensa na sociedade. Muitos também desconhecem como funciona a imprensa e fazem confusão com a terminologia; palavras básicas como "valores", "moral", "opinião" e "padrões" recebem as mais diversas interpretações. Alguns substantivos inocentes podem adquirir um peso diferente do desejado, principalmente quando a discussão entra na esfera da política*. Isso está acontecendo agora no debate sobre ética. O que seria uma definição boa e prática de ética?
Uma das definições prediletas (que é utilizada pelo fundador do Instituto de Ética Mundial, Dr. Rushworth Kidder): ética é a obediência ao que não pode ser obrigatório. Pode se obrigar alguém a obedecer a uma lei, mas ética, como já se disse, é "o que você faz quando ninguém está olhando".
Embora os valores éticos estejam dentro de cada indivíduo, seu resultado afeta diretamente outras pessoas. "Uma pessoa totalmente egoísta nunca terá ética", disse o Dr. Louis Day, da Universidade de Louisiana. Uma questão freqüentemente levantada por jornalistas: como se distingue ética de ideologia ? (É uma boa pergunta, geralmente feita por pessoas que têm que lidar com ambas ao mesmo tempo...). A ética de um jornal é a expressão de como ele conduz seus negócios moral e profissionalmente. A ideologia do jornal é seu compromisso com convicções políticas, sociais e econômicas. São conceitos bastante diferentes e nem sempre compatíveis. Por exemplo, um jornalista pode achar que não há problema em mentir ou roubar em nome de uma "boa causa" (ideologia).
No campo do jornalismo, há um outro assunto que está ainda mais perto da ética do que a ideologia — os padrões profissionais. Padrões profissionais são o resultado direto da ação de valores éticos sobre as regras de trabalho do jornalista. Por exemplo, se a "verdade" é o valor ético, a "exatidão" é o padrão e a checagem dos fatos torna-se uma regra de trabalho. Se a "justiça" é o valor ético, então "equilíbrio" é o padrão, e ouvir a outra versão da história passa a ser a regra. E assim por diante.
Padrões profissionais são freqüentemente materializados através de "códigos de conduta", um termo que às vezes ganha uma conotação diferente quando há uma discussão entre o governo e a imprensa. Nos Estados Unidos, quase todas as associações jornalísticas têm seu próprio código de conduta, embora eles normalmente não sejam obrigatórios para os membros da organização — ao contrário do que acontece com advogados e médicos. Os empregadores também possuem seus códigos internos e regras que são obviamente obrigatórios (quem desrespeitá-los pode ser demitido).
Esperamos que esses breves comentários sejam úteis para estimular uma discussão proveitosa em São Paulo.
*Como resultado dos famosos debates da Unesco nos anos 70, a expressão "responsabilidade da imprensa" adquiriu um tom ameaçador e ainda é vista por muitos defensores da imprensa livre como uma senha para "restrições", ao menos quando ela é usada pelo governo.

George A. Krimsky foi correspondente internacional da Associated Press e é co-fundador do Centro Internacional de Jornalistas


Ética na imprensa
A verdade é um valor ético universal
A obediência ao que nao é obrigatório
Casos: dilemas éticos no dia-a-dia dos jornalistas
Questionário: algumas respostas para questões éticas
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