Instituto Gutenberg
Critica de mídia

 

 
 Cães de guarda
Paulo Lyra
 
FAIR - Fairness&Accuracy in Media In Reporting é o mais famoso centro americano de watchdog, algo como um cão de guarda que fiscaliza a mídia com rigor e humor, e ensina o público a identificar notícias tendenciosas

Ao completar dez anos, FAIR é um cão de guarda que não perdeu um único dente. O mais famoso e respeitado centro de crítica de mídia nos Estados Unidos morde a assopra as feridas da grande imprensa como a mesma vitalidade que tinha quando começou.
O carro chefe da FAIR é a revista bimensal “Extra!”,  que traz artigos sobre a influência do governo e das corporações sobre a mídia, desmascara reportagens preconceituosas, principalmente contra mulheres, assalariados e minorias, e denuncia casos de censura. Tem ainda um programa semanal de rádio divulgado em 90 estações do país, a maioria não-comerciais.
FAIR não prega apenas para convertidos. Mantém uma coluna semanal que é assinada — e paga — por 20 jornais diários americanos. “Seu tom ousado e provocativo”, segundo o Los Angeles Times, “é um refresco diante das idiotices freqüentemente chamadas de jornalismo contemporâneo”.
Norman Solomon, autor do livro “Fontes não confiáveis”, é o titular da coluna distribuída por FAIR. Numa das edições de maior repercussão, ele mostrou como a revista Time transformou um estudo  fajuto sobre pornografia na Internet numa reportagem de capa, com oito páginas de matéria. A reportagem teve grande impacto. A rede ABC repercutiu a notícia e especulou sobre suas conseqüências políticas, inclusive possibilidade de o governo vir a censurar a Internet. A deixa foi pega pelo senador Charles Graslley, de Iowa, que em seguida pediu a “intervenção federal na Internet”.
Três semanas depois, sem intervenção federal, a pornografia na Internet continuava a mesma. Já a revista Time, mudou radicalmente. Uma nota camuflada na página 57 dizia que tudo não passava de um engano: apenas 0,3% das mensagens enviadas pela Internet eram pornográficas. A revista esclareceu também que o autor do estudo não era um especialista no assunto, apenas um universitário curioso.
Time alegou — melhor, confessou — que havia um trato, segundo o qual a revista não mostraria o estudo a outros pesquisadores antes da publicação. Nem mesmo para checar sua validade. Não está claro se o acordo existiu. Caso tenha existido, observou Solomon, a revista errou em não informá-lo aos leitores no momento devido.
Solomon já bateu de frente com outros gigantes da imprensa americana, desde a rede de televisão CBS até o New York Times. O jornal foi um dos ganhadores do prêmio PUM-litzer do ano passado. Criado em 1991 e desde então anunciado anualmente através de sua coluna, o prêmio homenagea “as matérias mais mal-cheirosas do ano”.
Num artigo sobre dois ex-presidentes da Coréia do Sul, Chun e Roh, processados e condenados, o NYT disse que “apesar de um número relativamente pequeno de sul-coreanos terem sido torturados durante o seu governo, a maioria das pessoas saiu ganhando”. Por esse artigo, a revista ganhou o PUM-litzer na categoria de jornalismo “ligeiramente torturado”.
Entre todos os desafetos que FAIR colecionou nesses dez anos, nenhum se compara a Rush Limbaugh, âncora no mínimo politicamente incorreto de programas de rádio e de televisão de grande audiência. “Limbaugh nunca é questionado em seus programas. Qualquer um que quer fazer perguntas embaraçosas é filtrado por sua equipe de produção. Seus programas de TV não passam de um monólogo à frente de uma claque treinada. Ninguém nunca teve um palanque como este na televisão americana”, acusa FAIR.
Para se ter uma idéia de sua influência de Limbaugh, um juiz da Suprema Corte, Clarence Thomas, anunciou que gravava todos os seus pronunciamentos no rádio para ouvir enquanto fazia exercícios. O radialista é freqüentemente convidado a participar de programas de debate, como o “Nightline” um dos mais influentes da TV americana. Suas opiniões também já foram publicadas na revista Newsweek.
Limbaugh sabe que a polêmica alimenta sua fama. Ele se comporta como um especialista sobre tudo o que fala e usa sua linguagem agressiva retórica para atacar as feministas, os ecologistas, os pacifistas, os antitabagistas, os negros e os homossexuais — exatamente os grupos que FAIR gostaria de ver melhor retratados pela imprensa.
FAIR colecionou 100 afirmações feitas por Limbaugh sobre esses e outros temas e questionou uma por uma. O resultado virou um livro — O Jeito que as coisas não são, uma paródia a O jeito que as coisas são”, de autoria de Limbaugh — , que já teve cinco edições esgotadas. Limbaugh não piscou e rebateu grande parte das críticas. A página de FAIR na Internet contém esse debate, inclusive todas as réplicas de Limbaugh, que a instituição classifica de “longas e evasivas”.
Vários jornais americanos já escreveram sobre a cruzada de FAIR contra Limbaugh. Também escreveram sobre outras iniciativas da instituição. Mas quando achou que não estava recebendo a atenção merecida, FAIR não deu brindes para jornalistas e nem pagou viagens. Usou um recurso inusitado para uma instituição que faz crítica de mídia: publicou matérias pagas nos grandes jornais.
O New York Times, por exemplo, já foi acusado por FAIR de quase tudo, inclusive de manipular debate sobre previdência social ( quatro de seus 12 diretores são também diretores de grandes seguradoras). Mas o jornal publicou um editorial pago (“advertorial”) por FAIR sobre a televisão pública norte-americana (PBS). Na página de editoriais.
“A maioria das pessoas baseia seus julgamentos políticos nas informações de um pequeno número de poderosos órgãos  de imprensa”,  diz FAIR. “O trabalho dessas instituições precisa ser investigado”. O “inimigo, segundo a instituição, não são repórteres ou editores, mas a crescente concentração da imprensa americana nas mãos de um número cada vez menor de empresas. “Somos os advogados dos cidadãos que não têm dinheiro para comprar uma estação de TV ou um jornal diário”.
Entre as causas em que FAIR milita está o destino da PBS. A televisão pública norte-americana estaria sucumbindo diante do poder das grandes corporações e aceitando um número cada vez maior de programas “patrocinados”, em que o nome e o logo do patrocinador seguem-se ao programa. Esse “reconhecimentos ampliados”, disse a crítica de mídia do Village Voice, Leslie Savan, numa entrevista a FAIR, “são comerciais em gênero, número e grau”.
De acordo com FAIR, além de serem questionáveis sob o ponto de vista legal, os patrocínios resultam na diminuição do espaço para os documentários polêmicos e a ampliação do noticiário de economia e negócios. Isso seria uma deturpação dos objetivos iniciais da PBS. Ao mesmo tempo, políticos de direita estariam tentando passar uma imagem incorreta de que a PBS tem uma agenda de esquerda, apenas porque aborda temas que dificilmente são vistos no resto da TV, como conflitos entre homossexuais e a Igreja Católica.
“Nos EUA, a televisão está na mão dos conservadores”, acusa FAIR. “A maioria dos apresentadores e comentaristas está entre a direita e o centro e quase todos são homens e brancos. Grande parte do espectro político não consegue comunicar-se com o público pela televisão.”
Mas o que o FAIR chama de direita? Em termos práticos, diz, a direita é a ala direta do Partido Republicano e a esquerda é a ala esquerda do Partido Democrata. O centro seriam as alas moderadas de ambos os partidos. Se nem mesmo esse relativamente estreito espectro político é retratado com equilíbrio pela imprensa dos Estados Unidos, resta perguntar: como será que ela se comportaria se um candidato como Lula concorresse — com chance — à presidência daquele país?
No caso do programa Nightline, FAIR descobriu que durante a Era Reagan, os quatro entrevistados mais assíduos do programa eram aliados de presidente. O programa também produziu sete reportagens sobre derramamento de óleo do Exxon Valdez. Em nenhum deles havia um ambientalista presente. “O enfoque restrito pro-establishment dos entrevistados de Nightline frauda o objetivo inicial da televisão pública de ser um espaço para debate e polêmica”, atacou FAIR, numa declaração publicada em vários jornais.
Acusações à parte, FAIR acredita que a crítica de mídia pode ser feita com humor e elegância. Uma criativa idéia nesse sentido foi o “Detetor de Notícias Parciais”. A fórmula é simples e pode ser adaptada para diferentes países:
1. Muitos jornalistas pensam que falam em nome do governo. Eles usam “nós” referindo-se genericamente às pessoas, ao país e ao governo. Uma jornalista da ABC, durante a guerra do Golfo afirmou: “temos quer ser muito cuidadosos com áreas que vamos atacar”.
Marque cinco pontos para cada jornalista que fale em nome do governo. Adicione outros cinco pontos para cada uso gratuito dos termos “nós” e “nosso”.
2. Muitas reportagens rotulam de maneira estereotipada as suas fontes e personagens. Rótulos comumente usados são “radicais”, “extremistas” ou “moderados”. Eles representam as convicções políticas do repórter ou do meio de comunicação.
Marque cinco pontos sempre que forem usados rótulos ou estereótipos injustificados.
3. Síndrome da Fonte Adquirida. Alguns jornalistas costumam confiar demasiadamente nas mesmas fontes, geralmente oficiais, sem questionar nunca seus interesses . Henry Kissinger teve ampla oportunidade de defender o governo chinês dos massacres da Praça da Paz Celestial, sem que ninguém questionasse seus interesses econômicos naquele país.
Marque cinco pontos sempre que uma fonte oficial, ou um ex-funcionário do governo, fizer afirmações sem que se divulgue uma outra opinião.
4. “Fontes oficiais” não identificadas são usadas em notícias sem imparcialidade. Ficaram famosos os casos do diretor da CIA William Casey e do funcionário do Comitê Nacional de Segurança Oliver North. Eles usaram a imprensa porque tinham outros interesses.
Marque dez pontos sempre que houver uma “fonte oficial” não identificada.
5. Pontos extras. Marque dez pontos extras quando a informação for proveniente de Zbigniew Brzezinsky, quinze pontos para Alexander Haig e vinte pontos para Henry Kissinger.
 

Número 11, setembro-outubro de 1996
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