Jornalista processa a Folha Instituto Gutenberg

Justiça

Jornalista processa a Folha

Marcelo Fagá, ex-repórter do jornal, pede indenização por conta de reportagem sobre seu registro na assessoria da Prefeitura de São Paulo

Levo ao conhecimento do Instituto Gutenberg a íntegra da ação que ajuizei contra a Folha de S. Paulo, por danos morais à minha honra e integridade profissional. Tomo a iniciativa de divulgá-la por dois motivos. Primeiro, porque não posso abdicar dos meus direitos – muito menos calar – diante da injustiça, da mentira e da violência gratuita e covarde de que fui vítima, na edição do jornal do dia 31 de março último. Devo salvaguardar meu nome e imagem profissional, que são o meu patrimônio moral de mais de 25 anos de exercício do jornalismo.
No entanto, para além da reparação na Justiça, há outra questão em jogo – nada pessoal. Diz respeito a problemas que podem interessar a todos nós, como a prática do jornalismo (pseudo) investigativo, que descamba para o "denuncismo" irresponsável. Por isso, na ação judicial tive o cuidado de confrontar os verbetes e recomendações do Manual de Redação da Folha com os métodos de apuração e edição da matéria. Fica claro que a Folha não cumpre o que prega, ao estilo do "faça o que eu digo, não faça o que eu faço".
Quis mostrar de que maneira uma apuração preguiçosa, superficial e sem o menor compromisso com os fatos oculta as vergonhas da própria imprecisão e incompetência debaixo das saias de uma edição mistificadora e pirotécnica. O resultado não poderia ser outro senão a armação de um balaio (ou mixórdia) editorial, em que pessoas são "envolvidas" sem provas ou direito de defesa. Sobre o tema, fiz questão de reproduzir matéria do primeiro número do Jornal dos Jornais que discute a ética na mídia impressa.
Quero ver condenados os métodos da apuração comodista e leviana, da edição sensacionalista e prepotente, que facciosamente a Folha tem praticado de maneira contumaz, crente de sua impunidade. O que pretendeu o jornal ao pinçar o meu nome profissional e publicá-lo (com o salário) em matéria com chamadas, quadros, selos, chapéus, gráficos e afirmações que remetem à prática de crimes e delitos do tipo "uso da máquina", "funcionários fantasmas", "máfia da propina", "apadrinhados políticos", etc?
A resposta adianta uma outra ordem de questões, que têm a ver com a atitude da Folha em relação ao exercício da profissão de jornalista. Além de descumprir e afrontar a legislação profissional, o jornal padece de uma doença infantil: precisa se afirmar como não-corporativista. Se há governo (não todos), sou contra; se há jornalistas que trabalham em assessorias de imprensa de governos (não todos), vamos linchá-lo. Comigo, não. Tem volta.
Marcelo Fagá

Instituto Gutenberg
Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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