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Exterior
Mexerico fatal
Cineasta se suicida pela fofoca da revista de escândalos
Uma onda de indignação encurralou a imprensa mar
rom do Japão depois que o cineasta Juzo Itami suicidou-se ao ser apontado como adúltero por uma re-
vista especializada em fotos escandalosas. No sába do 20/12, Itami escreveu um bilhete e atirou-se do
oitavo andar do prédio onde morava em Tóquio.
“Minha morte é o único modo de provar minha inocência”, escreveu ele, dois dias antes de o semanário Flash chegar às bancas com três fotos em que o cineasta, de 64 anos, aparece ao lado de uma moça de 26 – não identificada mas apontada pela revista como amante do diretor. Itami era casado com a atriz Nobuko Miyamoto, estrela de alguns de seus filmes.
O cineasta ficou conhecido por retratar em comédias o submundo do crime no Japão, sobretudo a organização mafiosa Yakuza. Seus filmes mais conhecidos são Tampopo, Funeral e Minbo ou A Gentil Arte Japonesa da Extorsão, que mostra os mafiosos como palhaços. Por conta da irreverência, foi atacado pelos gângsteres. Sobraram-lhe duas cicatrizes na face e uma temporada sob proteção da polícia. Seu último filme tratou de uma testemunha de crime mantida sob a guarda policial, e foi inspirado numa seita radical que semeou o terror no metrô de Tóquio em 1995. Segundo o correspondente do jornal americano Washington Post em Tóquio, Kevin Sullivan, “Itami era um homem quieto e gentil”, e procurou a morte “como um samurai”.
O cineasta chegou a falar com Flash sobre a moça, garantindo que era uma amiga a quem emprestara dinheiro. A revista sustentou a versão da infidelidade conjugal. Mesmo antes de a reportagem sair, jornais sensacionalistas atanazaram Itami com pedidos de esclarecimento.
A tradicional mídia japonesa é avessa a invasões de privacidade, mas têm prosperado no país publicações especializadas em vasculhar a intimidade de gente famosa e da família imperial. O editor de Flash, Kenji Kaneto, disse à agência Reuters que “investigou” a infidelidade do cineasta durante dois meses. “Nós seguimos todos os procedimentos formais investigando esta história e é terrivelmente lamentável que este incidente tenha acontecido pouco antes de a reportagem ser publicada”, disse o jornalista. Segundo o Asahi Shimbun (23/12), a revista recebeu muitos telefonemas de pessoas que a comparavam aos paparazzi que perseguiram a princesa Diana. “A maioria culpou Flash diretamente pela tragédia”, escreveu o jornal japonês. Flash tirou duplo proveito do infortúnio de Itami: ao saber que sua vítima jornalística se suicidara, a revista aumentou a tiragem de 550 mil para 740 mil exemplares e se esgotou nas bancas.
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1998
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