A velha doutrina da redação lai-
ca, isto é, separada da publi-
cidade, tal como o Estado da Religião, sofreu um grande abalo no Los Angeles Times – o quarto em circulação e um dos primeiros jornais em importância dos Estados Unidos. O executivo Mark H. Willes (na foto) decidiu implantar um sistema de cooperação entre os jornalistas e os publicitários inédito na grande imprensa mundial: eles devem trabalhar de mãos dadas, com um olho na notícia e o outro no anúncio. Cada editoria do jornal deverá ter um planejamento estratégico que a faça funcionar como uma unidade de negócios, com orçamento, receita e despesa.
Os jornalistas protestaram. Eles temem que a pauta das notícias seja vendida a empresas interessadas em patrocinar coberturas ou imprimir anúncios ao lado de uma reportagem favorável à venda de produtos. Algo como o corretor ligar para a Nestlé e avisar: “Olhem, segunda-feira vamos publicar uma reportagem sobre o chocolate como fonte de energia saudável”. E em seguida dizer ao editor: “Olha, combinei com a Nestlé que o anúncio deles sairá junto com a matéria do chocolate”.
O redator de mídia do jornal, David Shaw, disse à repórter Alicia C. Shepard, da revista American Journalism Review: “Eu não tenho problema em levar um vendedor de anúncios para almoçar. Só não quero eles dizendo o que deve entrar no jornal”.
A inovação condiz com o currículo de Willes. Em 1995 ele deixou uma fábrica de cereais, a General Mills, para assumir a direção da Times Mirror, que publica Los Angeles Times, com a tarefa de sanear a empresa. Fechou jornais da cadeia, como o New York Newsday, vendeu a rede de TV a cabo e cortou dois mil empregos. Por essas ações, e pelo passado na fábrica de cereais, ganhou o apelido de “cereal killer”.
Mas os acionistas estão gostando da gestão de Willes. O preço das ações triplicou em dois anos e ele garante que cumprirá sua meta de aumentar a venda diária do LA Times de pouco mais de 1 milhão para 1,5 milhão de exemplares. No ano passado, Willes recebeu um bônus de US$ 1,35 milhão, além do salário anual de US$ 798 mil. Aos jornalistas restou ajudar na venda de anúncios ou, como fez o premiado editor-chefe Shelby Coffey, procurar emprego.
Prisão na Inglaterra
Três editores da revista inglesa Green Anarchist foram condenados (17/12) a três anos de prisão por incitar os leitores a praticarem crimes em defesa dos direitos dos animais. A revista é uma publicação de linha ecológica radical, filiada a uma corrente que se denomina de anarquismo primitivo, e prega o ataque a cientistas e instituições de pesquisa que utilizam cobaias para experiências médicas. Os editores Saxon Burchnall-Wood, Steve Booth e Noel Molland foram responsabilizados pelos propostas agressivas da revista.
Erro e zelo
Depois da Newsweek, que tirou das bancas um número especial com receitas inadequadas para bebês, outra revista americana, Seleções, recolheu uma edição especial sobre festas de fim de ano também por causa de uma receita perigosa. No caso de Newsweek, considerou-se que os bebês poderiam engasgar-se com pedaços de cenoura. Seleções recolheu 600 mil exemplares de um guia para festas natalinas por conta de um erro numa fórmula de óleos comestíveis, que, mal armazenados, de acordo com a recomendação da revista, poderiam provocar intoxicações. Quando o erro foi descoberto já haviam sido vendidos 150 mil exemplares do guia.
US$ 30 milhões pela fofoca
Matt Drudge tem 30 anos, três computadores instalados em seu apartamento em Hollywood Boulevard, na Califórnia, e uma lista de 85 mil pessoas para as quais manda o seu Drudge Report via Internet. É um boletim de fofocas. Suas vítimas vão da atriz Pamela Anderson, ex-estrela do seriado SOS Malibu, ao presidente Clinton e assessores. Fãs de Drudge criaram um fundo de doações para que ele se defenda de um processo aberto por um assessor do presidente, Sidney Blumenthal, que cobra nada menos que US$ 30 milhões do fofoqueiro. Drudge disse em seu boletim que Blumenthal bate na mulher. O presidente Clinton apoiou o processo. Blumenthal tem a seu favor o fato de ser jornalista, o que conta pontos num processo contra um colega, e o testemunho da mulher, Jacqueline Jordan, de que jamais foi espancada.
Jabá à francesa
A França é um dos raros países desenvolvidos onde os jornalistas insistem em usufruir privilégios anti-sociais. Um deles é o desconto no imposto de renda concedido há 60 anos, equivalente a um mês de salário. O governo quer cortar esta sinecura fiscal, e os jornalistas reclamam que são os mais mal pagos da Europa. Em 18/11, os que trabalham nas empresas estatais, como a agência de notícias France Press, fizeram greve de 24 horas para pressionar o primeiro-ministro Lionel Jospin a manter a prerrogativa.
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1998
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