Ir à matriz dos erros, problemas e manipulações de números e prêmios distribuídos pela revista Exa me-Melhores e Maiores é o objetivo do Instituto Gutenberg nesta série de artigos que devassa a im portante publicação da Editora Abril. Pelo terceiro número consecutivo, apontamos distorções graves na revista que, todos os anos, seleciona o que ela chama de maiores e melhores empresas do país. A edição de 1997, objeto de nosso rastreamento, é a primeira, em 23 anos, a ser monitorada. A edição contém problemas proporcionais ao calhamaço de 250 páginas. Trata-se de assunto maçante, que bem poderia estar encerrado se a revista fosse altruísta e assumisse os equívocos já apontados. De quebra, a cada leitura encontramos mais problemas. Nesta edição, mostramos como algumas empresas - e o leitor - foram ludibriados nas páginas de Exame. Em nome da exatidão jornalística, o Instituto Gutenberg divulga um manual de procedimentos que ajudará a revista a não repetir erros jornalísticos e "contábeis", a aperfeiçoar seus critérios e, enfim, a vender aos leitores e anunciantes um produto confiável.
A lista das "melhores" empresas do Brasil em 21 setores da economia publicada na edição de 1997 da revista Exame-Melhores e Maiores foi manipulada pelos editores. Empresas que tiveram um desempenho impecável e forneceram corretamente seus dados para a avaliação técnica, segundo os próprios critérios da revista, foram prejudicadas. Para ficar em apenas dois casos, apresentamos a rasteira aplicada na multinacional Bristol-Myers Squibb, que, sempre segundo os critérios da revista, deveria ter sido apontada como a melhor do setor de “Farmacêuticas”, mas perdeu o prêmio para a Roche. No setor de "Materiais de Construção", a melhor empresa era a Tubos e Conexões Tigre, mas Exame escolheu a Santa Marina (leia na pág. 12).
O rastreamento do Instituto Gutenberg comprovou que os critérios de Exame são confusos e maleáveis. Mudam sem justificativa, alteram-se na última hora. A barafunda metodológica, que não é inócua, pode ser chamada de Rebimboca Contábil da Parafuseta, numa alusão aos mecânicos de beira de estrada que iludem motoristas sobre defeitos nos automóveis.
Acompanhe como é feita a edição. Todos os anos, Exame publica um número especial intitulado Melhores e Maiores. A revista faz listas das maiores empresas do país, com destaque para as 500 maiores privadas e as 50 maiores estatais, por faturamento ou “volume de vendas”. As complicações começam quando as empresas são divididas, arbitrariamente, em setores para a escolha da melhor. Na edição de 1997 foram classificados 30 setores, e analisados 21. Em cada um se elegeu uma campeã. A seguir, por critérios obscuros, a revista escolheu a melhor das 21 melhores, prêmio dado à companhia de aviação TAM.
Para escolher a melhor empresa, Exame fez uma lista das 20 maiores de cada setor e as submeteu a seis critérios de avaliação técnica: Liderança de Mercado, Crescimento de Vendas, Rentabilidade do Patrimônio, Liquidez, Endividamento e Vendas por Empregado. A empresa que fizer mais pontos vai para o topo do placar de excelência empresarial da revista. A TAM, por exemplo, somou 815 pontos e foi declarada a melhor companhia do setor de “Serviços de Transporte” (leia no 16, Erro de rota na edição 23).
A revista diz que examina centenas de balanços para analisar a saúde das empresas. Manda, também para centenas de companhias, um questionário padrão que elas devem responder com dados que não constam dos balanços – e tal questionário termina sendo tão ou mais importante que os balanços para a edição de Melhores e Maiores. “As empresas abertas têm prazo até o final de abril para publicar seu balanço. Uma boa parte das demais simplesmente não publica; nós é que corremos atrás da sua numerologia contábil”, diz o editorial da revista.
Para a edição de 1997, Exame solicitou informações sobre os “efeitos da inflação” no patrimônio e no lucro líquido das companhias. Trata-se de uma informação que não consta da maioria esmagadora dos balanços. A lei desobriga as empresas a fazer a correção monetária, mas Exame exigiu o dado para montar dois indicadores introduzidos na edição de 1997: o lucro líquido ajustado e o patrimônio ajustado. Com base nesses indicadores, a revista apura o quesito mais valorizado na avaliação das empresas, a Rentabilidade do Patrimônio. O quesito tem peso 30. A TAM teve a maior rentabilidade em seu setor e ganhou nota 10, que, multiplicada pelo peso 30, rendeu-lhe 300 do total de 815 pontos que obteve no placar de excelência empresarial.
Um problema sério com essa história de lucro líquido e patrimônio ajustados ocorreu quando a revista mandou os questionários para as empresas. Numa carta anexa, Exame disse que a informação sobre os efeitos da inflação seria “considerada no cálculo da excelência empresarial”. Não explicou como nem com quais consequências. Muitas companhias não responderam, e quando receberam a revista impressa depararam com um critério de última hora, do qual não haviam sido informadas: “Notar que, para rentabilidade, são atribuídos pontos apenas para as empresas cujo índice seja positivo e que tenham divulgado os efeitos da inflação em seus resultados e patrimônio líquido”. Resultado: as empresas que não informaram os tais efeitos da inflação tiraram zero em rentabilidade. A regra foi feita depois do jogo jogado, mas não se pense que o erro foi isonômico. Como se verá adiante, isonomia não é o forte da revista.
Exame identificou, com a nota de rodapé n.º 6, as empresas que supostamente não fizeram a correção. Diz a nota 6: “Informações ajustadas calculadas pela revista”. Segundo o texto da apresentação da revista, 305 das empresas que aparecem na lista das 500 maiores privadas forneceram a informação. “Para outras 94, a estimativa de tais efeitos foi feita pela coordenação de Melhores e Maiores.” Aqui o problema começa a se agravar. Checando a lista, constata-se que Exame estimou os “tais efeitos” para 96 — e não 94 — empresas da lista das 500. Somando 305 com 96, temos 401 empresas com “informações ajustadas”, seja por elas, seja pela revista. Quer dizer, na lista das 500 deveriam haver 99 empresas sem as tais “informações ajustadas”. Há 94.
Conclusão: ou Exame errou as contas, o que não é de estranhar, ou cinco empresas tiveram informações ajustadas pela revista e ainda assim receberam, indevidamente, pontos em rentabilidade. No cômputo geral, incluindo empresas que aparecem nas listas das 20 maiores de cada setor, a revista arrasou com a fatídica nota n.º 6 um total de 120 companhias. Na edição passada, mostramos que oito empresas* foram prejudicadas por este sururu metodológico. Eram de fato as melhores, mas, ao perderem, por um desvio de método da revista, os pontos da rentabilidade, viram companhias de pior desempenho ganharem o prêmio que confere prestígio às empresas, agrada aos acionistas e orienta investidores. Algumas dessas oito prejudicadas, como a Elevadores Schindler, de fato, não fizeram a correção monetária, e, por isso, apesar de ter o melhor desempenho do setor de “Mecânica”, viu o prêmio ser dado à Usiminas. “A Schindler não forneceu o Patrimônio Líquido Corrigido porque a pessoa que respondeu o questionário não entendeu a importância da questão e não se deu ao trabalho de calcular o item”, disse o presidente da empresa, Ronald J. Degen, admitindo, que, no seu caso, a revista está formalmente correta. Na verdade, ela adulterou o método. Mas o presidente da Shchindler, apesar de considerar Exame “extremamente ética”, e de dizer que não duvida da honestidade da publicação, faz reparos. “A questão mais importante não é se erramos em não fornecer os dados pedidos em um formulário, mas sim a qualidade jornalística da edição em questão”, disse Degen. “Os leitores de Maiores e Melhores estão sendo mal informados e julgando uma empresa a melhor do setor que não o é.”
A novidade mais comprometedora da credibilidade da revista, no entanto, está em documentos a que o Instituto Gutenberg teve acesso. São questionários preenchidos por empresas, demonstrando que, ao contrário do que informou Exame, elas fizeram os cálculos solicitados e os remeteram para a revista, e, ainda assim, foram desclassificadas. Um caso patente é o da Bristol, que subia ao pódio de Melhores e Maiores como Ayrton Senna estourava champanha na Fórmula-1. Na edição de 1996 da revista, a Bristol até publicou um anúncio no qual lembrava que foi a melhor em 1993, 94, 95 e 96 e, para em 1997, torcia: “Se depender da garra, da competência e do talento do nosso time, no ano que vem tem penta”. Penta? Na edição de 1997 a Bristol teve desempenho de Rubinho Barrichello: caiu para o quarto lugar. Por quê? Levou zero em rentabilidade, que, aliás, foi a segunda maior do setor (32%), o que lhe garantiria 270 pontos no quesito e o título de melhor companhia farmacêutica do país.
A Bristol foi fechada na curva de chegada pela nota de rodapé n.º 6. No mínimo, a revista errou. Ao responder o questionário de Exame, a empresa apresentou os efeitos da inflação (veja na página ao lado). A revista usou os dados, calculou a rentabilidade, publicada na, página 73, mas simplesmente tirou os pontos da Bristol e deu o prêmio à Roche. Esta multinacional suíça estava predestinada à vitória. Mesmo com a Bristol fora do páreo, o título não era da Roche e sim da alemã Boehringer De Angeli, cujos pontos em Crescimento de Vendas foram igualmente surripiados pela revista (leia no n.º 18, A derrota da vencedora).
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Boletim Nº 18 Setembro-Outubro, 1997
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Dossiê Exame-Melhores e Maiores
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