Ética na imprensa
Seminário Ética na Imprensa - Realidades e Desafios no Brasil
São Paulo-Itu 17 a 19 de maio de 1996
Centro Internacional de Jornalistas
Instituto de Estudos Avançados da USP
Instituto Gutenberg


Ética na imprensa

O Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ), com sede em Washington, realizou no Brasil, de 17 a 19 de maio, o seminário Ética na Imprensa - Realidades e Desafios, em parceria com o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e o Instituto Gutenberg. O seminário foi o segundo de uma série de quatro que o ICFJ promove na América Latina, com patrocínio da Fundação Robert R. McCormick, mantenedora do jornal americano Chicago Tribune. O ICFJ (de International Center for Journalists, que até há pouco se chamava Center for Foreign Journalists) é basicamente mantido pelos jornais americanos e realiza essa série de seminários com o objetivo de estimular debates e compartilhar soluções de dilemas éticos no jornalismo. O primeiro foi realizado em Santiago do Chile, em dezembro de 1995.

A etapa brasileira teve uma sessão inaugural, aberta ao público, no auditório do Conselho Universitário da USP, com conferência do professor Alfredo Bosi e comentários do professor Jair Borin, do advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira e do jornalista americano Rushworth Kidder, diretor do Instituto para a Ética Global. Nos dois dias seguintes, quarenta jornalistas (70%), professores de comunicação (25%) e convidados especiais de vários ocupações e estados se reuniram no hotel San Raphael, em Itu (SP), para palestras, debates e resolução de dilemas éticos na imprensa. (leia sobre a palestra de Kidder e o texto de introdução de George Krimsky, ex-correspondente da Associated Press e co-fundador do ICFJ) A maioria dos participantes (67%) tinha mais de 20 anos de profissão — e os menos experientes (13%) tinham no mínimo 8 anos.

O ponto de destaque do seminário foi a aguda preocupação com a ética e uma contundente e generalizada crítica aos métodos e técnicas da imprensa brasileira. Tal posição ficou clara nas respostas a um questionário sobre procedimentos profissionais, nos debates em plenário e nos grupos que analisaram complexos casos hipotéticos de conflitos éticos. O jornalista John Dinges, editor da National Public Radio, apresentou um método de solução de conflitos éticos no dia-a-dia de uma redação: o segredo é levar em conta a posição de cada pessoa envolvido no caso - do dono do veículo de comunicação ao protagonista da reportagem.

A discussão dividiu os grupos, mas em dois casos houve consenso: os debatedores rejeitaram o uso de falsa identidade no jornalismo — quando repórteres se disfarçam para obter notícias de interesse público a que não teriam acesso se se identificasse como jornalistas; e concordaram em publicar uma reportagem que denunciava a exploração de trabalho infantil numa olaria, mesmo diante da possibilidade de a olaria ser fechada pelas autoridades e os meninos-operários perderem o salário de R$ 48 com que ajudavam os pais miseráveis.

Nos dois outros casos - manipulação de fotografias digitais e "negócios por fora" (como um segundo emprego, assessorias a empresas ou aparição em comerciais) não houve posição majoritária, embora o grupo tenha concordado em que jornalista não deve fazer publicidade. "Em onze anos de centro, posso dizer que esse foi o encontro com intervenções mais fortes e intensas", disse Whayne Dilehay, ex-colaborador do líder dos consumidores Ralph Nader, atual presidente do ICFJ, que já fez trabalhos similares em 172 países.

Índice de maio-junho


Ética na imprensa
A verdade é um valor ético universal
A obediência ao que nao é obrigatório
Casos: dilemas éticos no dia-a-dia dos jornalistas
Questionário: algumas respostas para questões éticas
Lista de participantes