No ar, a ameaça da censura
Ética
No ar, a ameaça da censura

Grandes redes de TV se previnem contra a volta da tesoura
As grandes redes de televisão do país deram um passo que ainda não se sabe aonde vai levá-las, mas pode conduzir à auto-regulamentação. Globo, SBT, Bandeirantes e Manchete decidiram criar o Instituto Brasileiro para o Aprimoramento do Rádio e da TV, um organismo privado, inteiramente controlado pelas empresas, que terá a indigesta missão de avaliar a programação das emissoras, sugerir mudanças e prevenir os excessos. As principais redes podem neutralizar, com esse instituto, as investidas dos que acham que a televisão é incapaz de se controlar e que tende a fazer as escolhas mais sórdidas para estimular e saciar o gosto mórbido do público. Nos últimos meses, o mundo cão que aparece amiúde na tela tem causado indignação e protestos e gerado pesquisas que apontam perigosamente para a censura.
Programas que ridicularizam o público, como os de Silvio Santos e Gugu Liberato, atrações macabras no Domingão do Faustão, além de pornografia à luz do dia, geraram a última bateria de críticas. O Jornal do Brasil, que não tem canal de TV, reclamou muito, em setembro, do que chamou de "Baixaria$". "Globo monta circo dos horrores", disse o jornal em 11/9 a propósito da aparição de um deficiente físico de 15 anos e com 87 centímetros, a imitar bizarramente o cantor Latino. Mais uma vez, jornais e revistas fizeram coro contra o mau gosto da TV — na verdade, uma reiterada campanha dos jornais desde que os primeiros sinais eletrônicos começaram a conquistar o público e a tomar o lugar das velhas gazetas de notícias.
As críticas acirradas que a imprensa supostamente asséptica faz ao setor de "entretenimento" da TV embutem, no entanto, o lobo na pele do cordeiro. Atrás do bom gosto pode vir a censura oficial. Irresponsavelmente, jornais e revistas clamam, nas entrelinhas, por algum tipo de controle da televisão. Sem nenhuma ponderação, divulgam-se pesquisas que dão respaldo popular à volta dos homens da tesoura.
"São Paulo quer censura contra a violência e o sexo na TV", anunciou a revista Imprensa em setembro baseada numa pesquisa do Gallup. O instituto entrevistou 1.008 pessoas de mais de 15 anos na maior cidade do país e concluiu que 76,8% dos entrevistados querem censura prévia para cenas de violência, e 82,9% para as de sexo. Quem faria os cortes? O governo, respondeu a maioria (51%) dos que apoiaram a censura, enquanto 17,8% confiariam a tarefa às próprias emissoras.
O Instituto que as grandes redes estão criando pode ser o melhor instrumento da auto-regulamentação. Ele nasce com uma verba mensal de R$ 200 mil, e terá um fórum de dez ou doze representantes das emissoras, professores universitários, sociólogos e representantes do público, que darão pareceres sobre a carga de equilíbrio dos programas. O Instituto pode ter algum sucesso se as emissoras levarem a sério as ameaças de censura — de vez que, até agora, ética tem sido a última das suas preocupações. O fórum existente é o código da Abert — Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão, mas não funciona. A resposta padrão da Abert aos que criticam a programação indecorosa da TV tem sido: "Mude de canal". O novo instituto poderia iniciar seus trabalhos auto-regulamentando o vice-presidente da associação, Luiz Eduardo Borgerth, que disse ao Estadão (12/9): "Quando não se gosta do que está sendo exibido, basta mudar de canal." É uma arrogante insensibilidade que só atrai a censura.
Uma voz sensata nesse debate tem sido a do publicitário Ivan Pinto, presidente do Conar — Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária, um organismo privado criado em circunstâncias mais ou menos parecidas às que a televisão enfrenta agora. O Conar, disse Ivan Pinto à revista Imprensa, "existe para manter os pés dos censores do governo longe do nosso terreiro profissional." É o único caminho aceitável para a televisão. O pior é o da censura. Sem balizamento estético, a censura é uma loteria em que todos perdem: cada censor, do burocrata profissional da tesoura ao intelectual refinado que esnoba a indigência mental dos programas de auditório, tem critérios particulares para cortar a cena da nudez e a "pegadinha", Freddy Krugger e Silvio Santos, Sessão Trash e a foto de PC Farias nu na morte.
Ivan Pinto admite que os excessos da televisão incomodam tanto que a reação mais fácil é chamar a repressão. "Mas a censura é tão condenável quanto a exploração comercial do sexo e da violência. Toca em outro valor profundo, absoluto, que é a liberdade — de pensar, de dizer, de escolher, de fazer. Gente morreu e matou por ela."
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Número 11, setembro-outubro de 1996
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