Instituto Gutenberg

Ética
 Paixão jornalística x compaixão humana

 Vítimas de tragédias sofrem uma revitimação com o assédio dos repórteres

 Pense quantas vezes você já viu essa cena na TV: na saída da delegacia ou do hospital, na rua, na porta da casa, a vítima ou parentes da vítima são cercados por um grupo de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Microfones tocam na boca da pessoa, câmeras chocam-se no ar, fotógrafos se empurram na busca do melhor ângulo, repórteres fazem perguntas impertinentes. Atrás da tropelia há um fato sensacional, uma notícia emocionante, mas esqueça-os e veja por outro ângulo: a pessoa submetida a tanto atropelo nem sempre é um bandido recém-preso ou uma celebridade em visita à cidade; muitas vezes é um cidadão comum, vítima ou envolvido à revelia numa tragédia. Debaixo dos refletores, atordoado pelos flashes, impedido de andar pelo paredão de repórteres, encolhem-se, acabrunhados, o homem que teve a casa assaltada e a família seviciada, o que acabou de escapar dos seqüestradores, a mulher que matou o filho ao manobrar o carro na garagem, a tia da adolescente morta na sala de aula por uma bala perdida...Eles estão vulneráveis, atordoados. Alguns fogem dos repórteres, escondem o rosto e são perseguidos como se fossem delinquentes obrigados a explicar seus crimes. Às vezes desligam o telefone ou mandam dizer que não estão em casa. Às vezes gritam e insultam os jornalistas. Massacrados pela perseguição, passam por um processo que especialistas chamam de revitimação pelo assédio da mídia.
A prática é rotineira e bárbara no Brasil, mas é nos Estados Unidos que começam a despontar estudos nas universidades e cuidados éticos nas redações sobre a forma mais respeitosa e menos invasiva de extrair informações das vítimas. Uma experiência bem-sucedida são os seminários "Cobertura de Vítimas", desenvolvidos pelo Instituto Poynter de Estudos sobre a Mídia, com sede na Flórida. O diretor do Programa de Ética do Poynter, Bob Steele, reúne jornalistas e vítimas de crime ou outras tragédias para a troca de experiências.
As vítimas tendem a se queixar muito da exploração de seus dramas pessoais ou familiares, e os jornalistas aprendem formas mais compassivas de abordagem. "Essas pessoas estão sofrendo e a presença dos repórteres podem revitimá-las", diz Steele, ressalvando que o papel dos jornalistas é obter notícias. "Mas é necessário fazer um casamento da paixão jornalística com a compaixão humana".
O psicólogo Martin Cohen assessor do programa, pondera que os jornalistas não são insensíveis aves de rapina. "Os repórteres são vítimas secundárias potenciais por causa da natureza do seu trabalho e podem sofrer alguma forma de síndrome pós-trauma depois de cobrir uma tragédia." As empresas de comunicação devem estar atentas, segundo o Dr. Cohen, para evitar não só a brutalização como o trauma de seus profissionais. "A tendência é negar e esconder os sintomas, mas num período de 72 horas depois da cobertura de uma tragédia os jornalistas começam a compensar o trauma de algum jeito. Bebendo, por exemplo".
A revista American Journalism Review (AJR) tratou do assunto numa excelente reportagem de Fawn Germer, em junho do ano passado, com o título "Como se sente?" — a pergunta padrão para as vítimas. Existem duas grandes linhas na análise dessas abordagens: de um lado, uns dizem que o compromisso dos jornalistas é com o público, não com as fontes, ainda que elas sejam vítimas. De outro, pondera-se que a maioria das reportagens com vítimas explora a miséria alheia, num momento particularmente difícil, e são feitas sem compaixão. Um dos entrevistados da AJR foi Todd Bensman, repórter de polícia do Morning de Dallas. De tanto ser expulso das casas de vítimas, ele criou o truque de levar flores e inaugurou-o oferecendo-as à mãe de três crianças cuja avó tocara fogo na casa. "Consegui entrar, ouvi alguns comentários antes de eles saberem quem eu era. Então chutaram-me pra fora. Pelo menos recebi alguma coisa."
Edna Buchanan, repórter policial que diz ter coberto mais de 5 mil mortes violentas em 18 anos de trabalho no Miami Herald, vencedora do Pulitzer, o grande prêmio do jornalismo americano, desenvolveu uma técnica de telefonar para a casa das vítimas. Se um membro da família a amaldiçoava e desligava o telefone, ela esperava um minuto e ligava de novo e dizia: "Eu sou Edna Buchanan, do Miami Herald. Caiu a linha ". A experiência mostrou que a pessoa já estava mais receptiva ou arrependida do insulto. Edna disse à AJR que falar fez bem às vítimas e o importante é fazê-las entender que a tragédia delas pode a tragédia de todos.
Não é o que pensa Patricia Spradling, uma dona de casa de Loveland, no Colorado, que esqueceu o filho Eric, de dois anos, no furgão da família quando parou num estacionamento. A temperatura interna chegou a 108 graus, e já no velório toda a mídia queria detalhes do sofrimento ("Como se sente?"). O telefone não parava de tocar, repórteres acampavam na porta e mandavam bilhetes pedindo uma entrevista. "Quando você perde alguém", disse Patricia à AJR, "você não fica no seu estado normal. A imprensa não é a sua prioridade...Eu não estou dizendo que o público não devia saber o que aconteceu a Eric. Mas era muito duro. Ouvimos ele no rádio. Vimos ele na TV. Estava nos jornais..."
A experiência mostra que os repórteres parecem se revestir de uma carapaça emocional quando vão cobrir tragédias, e no calor da hora não saem da única sintonia que lhes permite trabalhar impunemente: a da notícia. Só pensam em obter a reportagem, fazer perguntas, anotar declarações, tirar fotos, empurrar quem estiver na frente para ficar no melhor lugar. Depois, repassando os fatos, vendo as fotos, examinando as fitas de vídeo é que se sintonizam na tragédia. "Você não tem tempo de pensar sobre os próprios sentimentos", disse Diana Baldwin, do Daily Oklahoma.
Há repórteres que, mesmo sob o risco de perder o emprego, recusam-se a cumprir tarefas macabras. Um incidente desse tipo aconteceu em 1969 na redação do Inquirer, de Filadélfia. Na véspera do Dia de Ação de Graças, o editor mandou um repórter ouvir os pais de Mary Mamon, jovem condenada à prisão perpétua por assassinato. "Vou sair em uma hora. Você paga hora extra?", esquivou-se o repórter. O editor voltou-se para outro, mas ele foi seco: "Eu não vou". Um terceiro simulou um telefonema e informou ao chefe que não havia ninguém em casa. O jornalista David J. Umansky, hoje no serviço de imprensa do Instituto Smithsonian, testemunhou a cena. "Eu acho que nunca na história do jornalismo americano alguém disse não a um editor de Cidade. Você quer que eu pergunte como se sentem os pais de uma moça sentenciada à prisão perpétua na véspera do Dia de Ação de Graças? Não".
A rebelião dos repórteres contra a rapinagem emocional das vítimas é estimulada por Christopher Scanlan (na foto), ex-repórter de diversos jornais americanos, hoje trabalhando no Instituto Poynter em St. Petersburg, na Flórida. Tal como ocorreu na redação do Inquirer, onde os repórteres se recusaram a perturbar a família mas o editor que os mandava telefonar não teve a coragem de fazê-lo, Scanlan acha que é muito fácil para os chefes dar tarefas desse tipo aos subordinados. "Eu também acho que o primeiro compromisso do jornalista é com o público, mas não sei se vale a pena importunar uma família no que talvez seja o pior momento da sua vida para expô-la no jornal", diz o jornalista.
Como parte de seu trabalho de orientação e divulgação de padrões éticos no Instituto Poynter, Scanlan preparou um guia para entrevistadores de vítimas e sugere aos jornalistas que se façam as perguntas antes de pegar o telefone:
1) Por que essa reportagem é legítima? O que eu realmente preciso saber para servir bem ao público? 2) Que dano adicional posso causar a pessoas vulneráveis?
3) Quais alternativas posso considerar para obter a informação?
4) Que cuidados posso tomar para minimizar o dano a essas pessoas com quem preciso conversar?
5) Qual é o meio menos invasivo de fazer contato com elas? Posso usar um intermediário para fazer o contato? Posso conversar mais tarde, quando não estiverem tão vulneráveis? Posso entrevistá-las em lugar e horário menos invasivos?
Scanlan revela um segredo daqueles que os jornalistas só contam depois de abandonarem as redações: apesar de concordar em que seu dever é obter notícias, certa vez deixou de cumprir uma pauta com vítimas quando trabalhava "para um jornal metropolitano importante". Um furgão pegou fogo no centro da cidade, os pais conseguiram sair mas seu bebê ficou preso na parte de trás. Foi salvo com queimaduras graves. Descobriu-se que o pai tinha mexido no carburador do carro um dia antes. No dia seguinte ao acidente, Scanlan foi pautado para ouvir os pais dos bebê queimado ("Como se sentem?"). "Eram 7 e meia da manhã. Disquei até o penúltimo algarismo, desliguei, e disse ao editor:
Nenhuma resposta. Eu estava errado?"

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Número 10, julho-agosto de 1996
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