Hemingway Repórter

Instituto Gutenberg


Hemingway Repórter

O escritor Ernest Hemingway (1898-1961) estava cobrindo a Guerra Civil Espanhola , em 1938, quando publicou em Ken esta indignada crítica aos jornalistas de hotel. O texto está no livro Tempo de morrer, da Editora Civilização Brasileira, que reúne reportagens do festejado autor de Adeus às armas.

Uma lufada revigorante numa história de colegas

Encontrei esse cidadão no Flórida Hotel, em Madri, no fim de abril do ano passado. Foi ao cair da tarde e ele chegara de Valência na noite anterior. Passara o dia em seu quarto escrevendo um artigo. Era um homem alto, com olhos lacrimejantes e madeixas de cabelo louro cuidadosamente atravessada sobre o crânio calvo.
— Que tal lhe parece Madri? - perguntei.
— Está dominada pelo terror - disse esse jornalista.
— É uma coisa que se sente onde quer que você vá. Estão encontrando milhares de cadáveres.
— Quando foi que você chegou?
— À noite passada.
— E onde viu os cadáveres?
— Oh, vêem-se por toda a parte - respondeu ele — Poderá vê-los de manhã cedo.
— Você saiu cedo esta manhã?
— Não.
— Viu alguns cadáveres?
— Não, não vi. Mas sei que há montões deles.
— E que provas de terror você conseguiu?
— Oh, ele está aí. Você não poderá negá-lo.
— Mas que provas viu por si mesmo?
— Ainda não tive tempo de vê-las pessoalmente, mas sei que não faltam.
— Escute aqui. — disse eu. —Você chegou a Madri a noite passada. Ainda não meteu sequer o nariz na cidade e vem dizer-nos, a nós, que vivemos aqui, trabalhamos aqui, que existe o terror na cidade.
— Você não pode negar que há terror — respondeu o especialista. — Por toda parte vêem-se provas disso.
— Ah, pareceu-me que você dissera não ter visto prova alguma ainda.
— Não vi mas sei que há — disse o grande jornalista.

Expliquei-lhe então que havia meia dúzia de homens vivendo e trabalhando em Madri e cuja a missão era, se existisse terror, descobri-lo e noticiá-lo. Que eu tinha amigos na Seguridad, meus conhecidos de velhos tempos e em quem podia confiar, e que sabia terem sido fuziladas três pessoas por espionagem neste mês. Fora convidado a presenciar a execução mas estivera fora, em missão na frente, e tivera de esperar outras quatro semanas por outra execução. Que muitas pessoas tinham sido abatidas nos primeiros dias da rebelião pelos chamados "incontroláveis", mas há muitos meses que Madri era tão segura, bem policiada e livre de toda a espécie de terror como qualquer outra capital da Europa. Qualquer pessoa abatida pela polícia ou fuzilada pela tropa era enviada para a morgue e ele poderia verificar por si próprio, como todos os jornalistas faziam.

— Não tente negar que existe terror — disse ele. — Você sabe muito bem que há.
Ora, o sujeito era correspondente de um grande jornal, pelo qual eu tinha o maior respeito, e só por isso não o esmurrei. Além disso, se esborrachássemos a cara a um sujeito como ele, isso só iria fornecer uma prova de que existe terror. O encontro ocorria também no quarto de uma jornalista americana e creio, mas não posso afirmá-lo positivamente, que ele usava óculos.

A jornalista americana estava deixando o país e, nesse mesmo dia, ele entregou-lhe um envelope fechado, para que a senhora lhe fizesse o favor de servir de portadora para levar para fora de um país em tempo de guerra, mas esse intrépido moço garantiu à nossa colega americana que o envelope continha apenas uma cópia de papel carbono de uma correspondência sua já censurada, da frente de Teruel, que ele enviava para o seu próprio escritório como duplicado a fim de assegurar-se da sua recepção.
No dia seguinte, a jornalista americana mencionou que levaria essa carta para ele. — Não está fechada, não? - perguntei.
— Sim.
— É melhor que leve à Censura, pois vou agora para lá e poupo-lhe esse trabalho. Você poderia meter-se em complicações.
— Em que complicações eu iria meter-me? É apenas uma cópia a carbono de uma correspondência que já foi censurada.
— Ele mostrou-a a você?
— Não.
— Não confie num homem que puxa o cabelo dos lados para tapar a careca — disse eu. — Os nazistas puseram-lhe a cabeça a prêmio. Vinte mil libras pela sua captura — disse a jornalista. — Deve ser de confiança.
Bem, na Censura, resultou que o pretenso carbono de uma correspondência de Teruel não era cópia alguma de uma correspondência já censurada mas um artigo que afirmava: "Aqui em Madri lavra o terror. Milhares de cadáveres são descobertos, etc. " . Era uma beleza. Convertia em mentirosos todos os correspondentes honestos em Madri. E esse cara escrevera aquilo sem dar fora do seu hotel, logo no primeiro dia em que chegou. O único detalhe realmente feio era que a colega a quem ele entregara o envelope podia, segundo as leis da guerra, ter sido fuzilada como espiã, se o artigo fosse encontrado em seus papéis ao sair do país. A correspondência era uma mentira e ele entregara-a a uma senhora que nele confiara para levar do país para fora.

Nessa noite, num restaurante da Gran Via, contei a história a um grupo de correspondentes não-políticos, trabalhadores laboriosos e honestos que arriscavam a vida diáriamente em Madri e vinham negando a existência de terror na capital desde que o governo assumira o controle da situação e pusera cobro a todo terror.
Ficaram muito irritados com esse estranho que chegara a Madri paras fazer todos eles mentirosos e expor um dos mais populares correspondentes a uma acusação de espionagem por subtrair do país um noticiário falso.
— Vamos perguntar-lhe na cara se os nazistas realmente puseram um prêmio de vinte mil libras pela sua cabeça - sugeriu alguém. —Devíamos denunciá-lo pelo que fez. Devíamos liquidá-lo e se soubermos para onde mandar a cabeça dele, poderíamos remetê-la acondicionada em gelo.
— Não seria uma cabeça muito atraente mas teria o prazer de levá-la eu próprio numa mochila - disse eu. - Já não vejo vinte mil libras desde 1929.
— Eu vou perguntar-lhe — ofereceu-se um conhecido repórter de Chicago.
Encaminhou-se para a mesa do homem, falou-lhe com toda a calma e regressou.
Todos nós ficamos de olhos pregados no homem. Estava tão pálido quanto a parte inferior de um linguado não vendido até as 11 horas da manhã, quando o mercado está prestes a fechar.
— Ele disse que não tem prêmio algum pela sua cabeça - informou o repórter de Chicago, em voz tênuemente rítmica. — Diz que foi um negócio inventado pelos seus chefes.
Assim foi como um jornalista escapou de desencadear em Madri um terror estritamente pessoal.
Se uma censura não permitir a um jornalista que escreva a verdade, o correspondente pode tentar bater a censura, sujeitando-se à pena de expulsão se for apanhado. Ou pode sair do país e escrever suas notícias sem censura. Mas esse cidadão, numa viagem relâmpago, ia deixar que outra pessoa corresse os riscos, enquanto ele recebia os créditos de jornalista destemido. A história mais notável, nessa altura, era a inexistência de terror em Madri. Mas isso era muito monótono para ele.
Teria interessado ao seu jornal , entretanto, pois, por muito estranho que pareça, acontece tratar-se de um jornal que há longos anos se interessa pela verdade.

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