Em Questão
Um jornal tem a obrigação de reconhecer
e citar o furo do concorrente?
 
A regra é não passar recibo e abusar do uso da expressão 
"exclusivo" para valorizar entrevistas e reportagens
 
 
 

"Regra n.º 1: Uma história originada por outro veículo nunca é tão jornalisticamente valiosa como uma originada por nosso próprio jornal."  
Código não-escrito da imprensa, citado por Philip Meyer no livro "A ética no jornalismo".  
A primeira página do Jornal da Tarde de 26/5 tinha uma área de impressão de 52 cm de altura por 31 cm de largura. Aproximadamente 60% deste latifúndio de papel foi ocupado com a manchete-pôster "Ex-secretário denuncia corrupção no PT". Um veterano militante da esquerda, Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário de Finanças de administrações petistas em duas grandes cidades paulistas, Campinas e São José dos Campos, acusava o partido de beneficiar-se de irregularidades e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de não dar atenção a uma carta-denúncia encaminhada por Venceslau havia dois anos. A reportagem teve vários desdobramentos, a começar pela palavra impressa com tinta vermelha acima do título: "Exclusivo". 
Ainda que pequeno, nasceu um debate sobre quando esta expressão pode encabeçar reportagens e o quanto é indevidamente usada na mídia brasileira. Parece pacífico que uma grande revelação feita com exclusividade por um meio de comunicação deveria gerar reconhecimento de todos - mas a regra sigilosa citada por Philip Meyer, embora enfraquecida, ainda vige nas redações. No mundo todo a reportagem exclusiva é superestimada por quem publica e menosprezada por quem leva o furo. Mas no Brasil há diferenças. 
Em geral, a ordem unida de partido único da imprensa brasileira, com as rivalidades internas típicas do partido único, a faz cair em bloco sobre um assunto - desde que seja "escândalo" no setor público, e mais ainda se houver políticos na história. Aos poucos cada veículo modela a cobertura, moderando o tom ou exagerando os fatos, de acordo com seus interesses e idiossincrasias, mas sempre procurando valorizar o seu "escândalo" em detrimento do "escândalo" do concorrente. As denúncias de Venceslau foram tratadas com equilíbrio pela Folha, por exemplo, porque o jornal estava adubando seu furo sobre a compra de votos (leia nas página 12 a 15). Em contraste, o Estadão selou as denúncias como um crime transitado em julgado (leia na pág. 12). 
Ao entrar no assunto, no dia seguinte ao escândalo gráfico que o Jornal da Tarde imprimiu à entrevista de Venceslau, a Folha ressaltou no terceiro parágrafo: "A denúncia de Venceslau foi publicada no "Diário do Povo", de Campinas, no último dia 18, e no "Jornal da Tarde", de São Paulo, na edição de ontem". De fato, oito dias antes do JT, o Diário do Povo publicara em duas páginas: "Exclusivo - Carta Bomba revela o lado corrupto do PT". O então editor-chefe do jornal de Campinas, Wilson Marini, que logo depois deixou o cargo por motivos alheios à entrevista, reivindicou a exclusividade. O JT, disse Marini, "não poderia ter se apropriado indevidamente de um pioneirismo a que não fez por merecer". Consultado sobre a reclamação de Marini, o repórter Luiz Maklouf, que entrevistou Venceslau para o JT, declarou: "Esse Marini é um caroneiro de furo dos outros". Dias depois, a revista Veja tratou do assunto na reportagem "A escolha de Lula", e não citou nem o Diário do Povo nem o Jornal da Tarde, mas a si própria: em agosto de 1994 a revista já publicara a história agora denunciada por Paulo Venceslau, numa reportagem assinada por Mônica Bergamo e Paulo Moreira Leite. 
  Uma abordagem engajada da questão foi feita por Bernardo Kucinski, professor de Jornalismo na Universidade de São Paulo, num texto publicado no jornal PT Notícias. Segundo Kucinski, o roubo de matérias é uma tradição da imprensa brasileira. "Neste caso, quem roubou primeiro foi o jornal Diário do Povo, de Campinas. Em 18 de maio, as repórteres Angelica Muller e Soraya Agége publicavam, sob o título "O segredo de Lula que o PT não quer investigar", a essência do que Veja já havia publicado em 1994 e que Maklouf republicaria 8 dias depois no Jornal da Tarde. Também esse crédito foi omitido por Maklouf - seguindo o preceito de que "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão´", escreveu Kucinski (Leia a resposta de Maklouf a Kucinski).
 
 
 

 
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"O furo do Diário foi plagiado pelo Jornal da Tarde"  
A imprensa brasileira abusa do uso da expressão "exclusivo" - sobretudo em entrevistas. Uma fonte disponível para os repórteres, passando basicamente informações idênticas para todos eles, não pode ser vendida ao público como exclusiva. A conversa particular de um jornalista com o presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, é sempre apresentada como "entrevista exclusiva", como se o presidente só tivesse dado aquela entrevista para aquele único meio de comunicação. Uma pessoa arredia à mídia - o escritor Rubem Fonseca, por exemplo - que de repente abre uma exceção, faz revelações do arco da velha e recolhe-se ao silêncio, este merece o carimbo da exclusividade. A grande maioria das entrevistas de fontes em destaque momentâneo são reprises, com palavras diferentes, para repórteres diferentes (Leia no nº 12, "E de exclusivo e de excessivo").

Uma receita para não enganar o público é etiquetar como exclusiva apenas informações ou comentários inéditos, algo como, mesmo depois de dar mil entrevistas, a fonte Paulo Venceslau revelar a um só meio de comunicação um dado bombástico que guardara no colete. Além de exclusiva, esta informação seria um furo - duas categorias que deveriam andar de mãos dadas na mídia. Quando um meio de comunicação apura em sigilo e surpreende o público com uma revelação sensacional, a exclusividade é patente. Nesse caso, a citação, além de elegante, indica honestidade.
Jornal do Brasil embarcou 
sem cerimônia no furo do Globo 

 

Um jornal que leva o furo e desdobra (recupera, no jargão jornalístico) a notícia já no dia seguinte, tem o dever de citar a precedência do concorrente. Um exemplo clássico da falta de reconhecimento: em 23/5, o Globo deu na 1ª página: "Secretário de trânsito dirige sem carteira", noticiando o hábito do coronel Paulo Afonso da Cunha conduzir motocicletas pelas ruas do Rio sem estar habilitado. Uma foto enorme do coronel numa moto chancelava a notícia. No dia seguinte, o Jornal do Brasil publicou entrevista com o presidente do Detran sobre o assunto - e não citou o Globo como matriz da informação.
 


igutenberg@igutenberg.org