Em questão
Por que a credibilidade da imprensa só é
elevada nas pesquisas que ela mesma faz?
 
 
 Datafolha e InformEstado divulgam que prestígio e confiabilidade são os
maiores do país, mas não é isso o que dizem Ibope, Gallup e Vox Populi
 
A terceira rodada da série de pesquisas do Datafolha sobre o “prestígio” e o “poder” de instituições no Brasil, publicada pela Folha de S.Paulo em 29 de janeiro, reabriu o baú de incertezas que a imprensa espalha quanto se auto-avalia. Numa questão corretamente formulada, o público respondeu que a imprensa é a instituição mais poderosa do país — tem mais poder que o governo, o Congresso, o Judiciário e as Forças Armadas. Numa questão incorretamente formulada, o público disse que a imprensa é a instituição de maior prestígio no Brasil — seguida dos clubes de futebol e da Igreja Católica. Mas a pesquisa foi divulgada com metodologia cabalística e truques de tabulação que arranham a imagem de seriedade do Datafolha.
Pode ser coincidência ou questão de método, mas toda vez que um jornal faz pesquisa sobre a imprensa, ele próprio colhe um everéstico índice de credibilidade. Quando a pesquisa é feita por institutos independentes, a credibilidade desce ao chão como as raízes das árvores que fornecem papel aos jornais.
Em outubro de 1993, o Estadão fez a sua e alçou-se ao topo da glória: 80% das 400 pessoas ouvidas pelo InformEstado disseram que nos jornais se pode confiar. No último reflexo narcisista da série espelho-espelho-meu, o Datafolha ouviu de 69% dos 5491 entrevistados, em onze capitais, de 13 a 18 de dezembro do ano passado, que a imprensa é a instituição de maior prestígio no Brasil. Seria maravilhoso se não fosse duvidoso. A pesquisa foi baseada numa pergunta com três opções de resposta: “Agora vou citar algumas instituições nacionais e gostaria que você me dissesse de cada uma se tem muito prestígio, pouco prestígio ou nenhum prestígio na sociedade brasileira”. Ao divulgar o resultado, a Folha fez uma interpretação pobre (não explicou a origem de tanto prestígio, sobretudo da imprensa e dos clubes de futebol) e, num erro grave e comum nas pesquisas com várias opções de resposta, não informou como chegou aos números finais. Note bem: a questão dava ao entrevistado a escolha de um entre três graus de prestígio: muito, pouco ou nenhum.
Como o Datafolha concluiu que a imprensa é a instituição de maior prestígio do país na opinião de 69% dos entrevistados? Que peso tiveram na tabulação cada uma das três respostas possíveis? Isso o leitor teria de adivinhar. Um garimpeiro das entrelinhas descobriria que a imprensa obteve um índice de prestígio de 69% porque foi essa a porcentagem de entrevistados que escolheu a resposta “muito prestígio”. (O leitor atento faria essa descoberta lendo a matéria principal - “Congresso tem a maior queda de prestígio”—, onde está escrito: “... 25% consideraram que o Congresso tem muito prestígio”, e 25% foi o índice de prestígio atribuído ao Congresso na pesquisa).
Se apenas uma das três respostas possíveis seria considerada, perguntar sobre “pouco” ou “nenhum prestígio” não fazia sentido: bastava indagar se a instituição tem muito prestígio e se a Lua é preta e o Sol, azul, pois, ainda que 99% dos entrevistados dessem outra resposta que não “muito prestígio”, ela seria desconsiderada. Mutatis mutandis, seria como perguntar “O Congresso é muito honesto, pouco honesto ou desonesto” e, se 25% respondessem muito honesto e 75%, desonesto, o Datafolha iria ignorar a maioria de 75%, visto que não era a resposta selecionada.
O método só escapa da contestação se o índice de “muito prestígio” for alto, como foi no caso da imprensa. Ainda assim, é no mínimo esquisito dar ao entrevistado a chance de escolher uma de duas respostas que não serão consideradas na tabulação. Fica claro que o erro do instituto foi montar uma pesquisa que não conseguiu tabular. A pesquisa de 1993 do InformEstado teve o cuidado de publicar as duas respostas e suas porcentagens: 80% disseram que sim e 20% disseram que não confiam nos jornais. O “saldo” foi de “+60”, embora, no texto sobre a pesquisa, o Estadão tenha adotado o glorioso índice de 80%.
O pior da pesquisa do Datafolha foi a pergunta — na verdade, não é uma pergunta, é uma sondagem marota, embutindo truques que não resistem a uma brisa de lógica. O instituto fez uma pergunta indireta, que gera avaliação indireta. Pede que a pessoa identifique o grau da fama de uma instituição, e não que ela avalie a instituição. É uma avaliação da imagem, e não da instituição em si. Uma pessoa reconhecer que a imprensa tem muito prestígio é diferente de dizer se a imprensa é boa ou ruim, ética ou aética, confiável ou desprezível. É o resultado positivo da avaliação direta que gera prestígio. Positivamente se pode dizer que o Correio tem prestígio, porque institutos de opinião perguntaram e o povo respondeu que o serviço postal é confiável e eficiente.
É possível reconhecer o prestígio de uma pessoa ou instituição e ao mesmo tempo avaliá-la negativamente. Se o Datafolha perguntar a um xiita do PT se o presidente FHC tem muito, pouco ou nenhum prestígio, o militante será obrigado a reconhecer que o presidente tem muito prestígio — é um fato medido pelas pesquisas. E se a pergunta for se o presidente é ótimo, bom, razoável, ruim ou péssimo, o militante poderá responder “péssimo” sem se contradizer.
A pergunta sobre poder, em contraste, faz sentido: “Gostaria também que você me dissesse, de cada uma (instituição), se tem muito, pouco ou nenhum poder ou capacidade de influência hoje no Brasil”. A resposta maciça, o maior índice da pesquisa: 72% dos entrevistados disseram que a imprensa têm muito poder. Abaixo vieram a Presidência da República e os ministérios, com 59% (13 pontos a menos). Nesse caso, o entrevistado fez uma avaliação direta: “eu acho que a imprensa tem muito poder ...”.
A Folha não interpretou os dados sobre o “prestígio” e o “poder” das instituições (o jornal notou apenas que o Legislativo recebeu baixa “avaliação” num “dos anos mais produtivos do Congresso”). Uma interpretação crítica dos 72% de poder auferidos pela imprensa é a de que a mídia brasileira, mais por defeitos que por virtudes, enfeixa o poder das outras instituições citadas na pesquisa: acusa (executivo), condena (judiciário) legisla (congresso), excomunga (igreja), não paga imposto e tem reserva de mercado (estatais), e atua em bloco como um partido único. É um poder sumário e irrecorrível, que pode gerar temor, mas não prestígio.
Na contramão do Datafolha, os métodos de avaliação que poderiam conferir prestígio à imprensa conferem desprestígio. O resultado é muito diferente quando o Gallup, o Ibope ou o Vox Populi fazem a pesquisa. Nenhuma enquête independente entronizou a imprensa no pódio da credibilidade nacional (veja os gráficos abaixo). O Gallup ouviu 611 pessoas na Grande São Paulo, em 1987, para o número 1 da revista Imprensa, e, num conjunto de apreciações negativas, só 14% dos entrevistados disseram que os jornais publicam os fatos exatamente como acontecem, enquanto 83% afirmaram que os jornais publicam os fatos às vezes ou sempre distorcidos. A pesquisa foi refeita em 1994 e avaliação melhorou um pouco, mas permaneceu arrasadora: 17,6% (exatidão) contra 75,5% (distorção).
O levantamento Listening Post, da agência Standard, Ogilvy & Mather, ouviu 400 chefes de família e 400 donas de casa, nas sete maiores capitais do Brasil, em setembro de 1994, para concluir que a credibilidade da imprensa (jornais e revistas) era menor que a da publicidade, do rádio e do Exército. O dado mais significativo desse levantamento do Listening Post foi o de que o público disse acreditar mais nos anúncios (publicidade) que nas reportagens (imprensa). Considerando que a matéria-prima de uma é a fantasia, e a da outra, a realidade, foi um resultado humilhante. Também é de se registrar que essa pesquisa foi feita por uma agência de publicidade.
Outro levantamento, de 1993, do Ibope/Cepac, mostrou que jornais e revistas tinham credibilidade inferior à dos bancos — 22% contra 28%. Uma quinta pesquisa independente, do Instituto Vox Populi para o Jornal do Brasil, em junho de 1995, revelou que a credibilidade da imprensa era igual à da PM.
É de se ponderar que a Folha teve o cuidado ético de não destacar o troféu de “prestígio” da imprensa quando publicou a pesquisa.
Tal como o Estadão em 1993, a Folha em 1996 preferiu dar o título de sua pesquisa para o baixo prestígio do Congresso. De qualquer forma, seria mais elegante e confiável a mídia abster-se da comparação com outras instituições quando ela é que faz a pesquisa. Os institutos independentes não têm esse conflito de interesse direto. Eles não representam instituições em avaliação — ao contrário dos serviços que pertencem a órgãos de imprensa, cujos pesquisadores perguntam em nome do Datafolha, do InformEstado, do Infoglobo e confundem-se com repórteres dos jornais.

 

Por favor, leia também a carta do Datafolha de contestação a esse artigo

  Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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