Em questão

 

Negócios por fora comprometem a independência dos jornalistas e da imprensa?
 
Uns ganham fortunas trabalhando para as fontes, a outra mistura notícia com anúncio, e depois juntam-se para criticar o resto do mundo  
 
 
“Se o Instituto de Seguros, caso ele exista, pagar US$ 10 mil para você fazer uma palestra, não venha me dizer que não foi corrompido. Pode até dizer, pode jurar que nada mudou na sua cobertura sobre o assunto, mas não é verdade.” Benjamim Bradlee, ex-editor do Washington Post. 
 
ornalistas que embolsam fortunas para dar palestras em empresas privadas, mediar seminários e até mesmo animar convenções estão sob fogo cerrado nos Estados Unidos. A maioria são celebridades da televisão, populares como atores, estelares como astronautas, mas o debate já alcança todos os profissionais que processam informações para o público. Muitas empresas decidiram proibir ou desestimular seus jornalistas de dizer numa convenção, por 30 mil dólares, o que deveriam contar ao público por 50 centavos. Como era previsível no fluxo da informação dos EUA para o Brasil, o assunto começa a ser debatido nas redações do país - onde chega com o foco também nas estrelas da TV ou dos colunistas de economia que ora freqüentam a sala de imprensa, ora visitam o caixa da empresa.
O assunto pegou fogo nos EUA com a clássica volta do bumerangue. Sam Donaldson, estrela da rede ABC, salário anual de US$ 2 milhões, desancou, no programa Prime Time Live, no ano passado, assessores do Congresso que desfrutaram de mordomias (soa familiar?) em uma convenção da Associação dos Corretores Independentes de Seguro. Logo alguém denunciou que Donaldson era alvo do próprio tiro: ele também freqüentara a folha de pagamento dos corretores (soa familiar?) por ter recebido US$ 30 mil por uma palestra. A lógica é cruel: se parlamentares, ou seus assessores, não devem aceitar favores ou dinheiro de empresas ou entidades que potencialmente podem favorecer, jornalistas talvez estejam sujeitos à mesma restrição ética. Ou a idêntica suspeita de tráfico de influência.
O afiado braço do media criticism americano, liderado pela American Journalism Review, a revista da mais importante escola de jornalismo do país, desbastou o assunto revelando que uma colega de Sam Donaldson na ABC, Cockie Roberts, pega US$ 35 mil por conferência. William Safire, colunista do austero The New York Times, US$ 20 mil. Em contraste, outras estrelas de primeira grandeza recusam palestras ou limitam-se a falar gratuitamente em entidades sem fins lucrativos – é o caso dos âncoras Dan Rather, da CBS, e Peter Jennings, da ABC. Alguns fazem campanha contra a remuneração externa, como Benjamim Bradlee, que bancou a cobertura do Washington Post no caso Watergate. Bradlee, que acaba de publicar seu livro de memórias, criou no Post a norma de que as conferências remuneradas a peso de ouro são terminantemente proibidas.
A mesma norma vigora no Wall Street Journal e na revista Time (com exceção para pagamentos simbólicos de palestras em universidades), e numa infinidade de jornais importantes cujos manuais vedam a aceitação de presentes caros, viagens, almoços, entradas para o teatro (soa familiar?) ou para o futebol (no Brasil, jornalista não só não paga como tem “tribuna” especial e estacionamento gratuito em estádios como o do Morumbi, mesmo que não esteja trabalhando). A preocupação americana com o suborno indireto fez com que algumas empresas proibissem seus jornalistas de ter atividade política e até de se associar a clubes, mesmo que seja um clube de golfe para o colunista de golfe. “Nos casos em que por razões profissionais for necessário associar-se a um clube, a empresa pagará as quotas”, diz o manual do The Manhattan Mercury, do Kansas.

Se anúncio é diferente de notícia, notícia não é diferente de palestra? 


A vigilância do público, e o efeito bumerangue de fontes cansadas de ser patrulhadas por “delitos” que os patrulheiros cometem impunemente, está levando o jornalismo americano a um cuidado especial com dinheiro. Nos cadernos de turismo, houve uma revolução: a grande maioria dos jornais influentes já não aceita viagens custeadas por donos de hotéis ou companhias aéreas. A regra é que a fonte da notícia não pode pagar as despesas de quem escreve a notícia. É uma assepsia recente na promíscua relação entre reportagens e custos. “Há mais boca livre, trabalho perdido e conduta não-profissional e aética na área de turismo do que em qualquer outro setor do jornalismo”, disse John Bull, do Philadelphia Inquirer, num cruel retrato de dez anos atrás. A demolidora sentença de Bull já não vale para o melhor jornalismo americano, mas é perfeita para o melhor do jornalismo brasileiro.
Os cadernos de turismo da imprensa brasileira – não há exceção conhecida – abastecem-se em duas fontes de reportagem: folhetos turísticos e viagens patrocinadas. Quando quer notícia de graça, sem ter de pagar anúncio, uma associação de hoteleiros convida um jornal para fazer uma reportagem, cobre as despesas do repórter e fica à espera de que os leitores, seduzidos pelo relato sedoso, façam suas reservas. Copiar os prospectos seguramente é mais honesto do que sair sem pagar a conta. “Eu não sei como é que alguém pode pensar que você vai escrever uma história honesta sobre Bora-Bora quando tem uma pessoa pagando cinco mil dólares para levar você até lá”, disse o crítico de mídia do Los Angeles Times, David Shaw, ao pesquisador Eugene Goodwin, no livro Procura-se Ética no Jornalismo.
Quando dão sinais de alterar esse escambo franciscano, jornais lucrativos e influentes logo voltam atrás e se desmentem. O Estadão anunciou aos leitores (20/5) a instituição de uma “norma básica” que proíbe a publicação “de reportagens de jornalistas em viagens a convite de empresas ou quaisquer instituições”. Menos de um mês depois, o caderno Viagem (13/6) estampou a matéria “Um passeio a bordo do Queen”, cinco páginas sobre as maravilhas de um cruzeiro no transatlântico Queen Elizabeth, por conta da American Airlines e da agência de turismo ITR. Na página G 15, outra reportagem da Grátistur: “Finlandeses descobriram os encantos da região de Penedo”. O jornal não deixou de sublinhar que “a rica rede hoteleira da cidade tem quartos para todos os gostos”; a viagem foi paga pela Associação dos Hoteleiros de Penedo. Todos os grandes jornais viajam de graça, mas o JB é o único que não revela o patrocinador no rodapé das laudatórias reportagens da Gratistur.
O modelo se-eu-gasto-eu-pago dos cadernos de turismo americanos parece longe do Brasil como Bora-Bora, mas o debate acerca de jornalistas que ganham para dar conferências já está entre nós e, como sempre, entrou pela porta mais fácil: a dos jornalistas, e não a das empresas. O Correio Braziliense, que mantém solitária página dedicada à imprensa na edição dominical, nacionalizou o assunto com a reportagem “A ética profissional e o dinheiro” (16/7). O Correio perguntou: “Dá para acreditar num repórter ou comentarista econômico ou político que, além de trabalhar para jornais e televisões, costuma dar palestras para empresários, associações de classe, grupos políticos, e ganhar a cada uma delas algo entre US$ 3 mil e US$ 5 mil?” 
“Em mim está instalada uma grande dúvida ética”, respondeu o âncora do SBT, Boris Casoy, um dos que fazem palestras e coordenam seminários de grandes empresas. O jornalista Luis Nassif, integrante do conselho editorial e colunista da Folha (a coluna é reproduzida em outros jornais), também dono da Agência Dinheiro Vivo, cobra, segundo o CB, US$ 5 mil por palestra, não considera a atividade paralela antiética, mas é favorável ao debate. “Essa relação tem que ser transparente e o comportamento ético e moral dos profissionais é uma questão do nosso tempo”, disse Nassif. O mais famoso dos colunistas de economia, Joelmir Betting, que publica sua coluna no Estadão e no Globo e em outros jornais, além de fazer comentários na Rede Globo, dá, ainda segundo o CB, umas dez palestras por mês ao preço de US$ 5 mil a US$ 15 mil, e não tem dúvida ética alguma nem incentiva o debate. “Esta questão ética é ridícula, é uma censura moral absurda, porque nós não temos preço”, disse Joelmir ao Correio Braziliense.
Há um campo ético fértil para o debate sobre o caixa dois dos jornalistas. O que não se discute, nos EUA e muito menos no Brasil, é a mesmíssima questão colocada para a mídia desde que em 1441 Gutenberg obteve ajuda financeira e mordomias da caixa paroquial de Santo Tomaz para inventar a imprensa. (A bem da verdade, registre-se que Gutenberg faliu e foi levado à justiça pelos credores). A questão secular ainda é: se as empresas de comunicação divulgam na mesma edição uma reportagem sobre a empresa A e um belo anúncio da empresa A, por que um jornalista estaria eticamente impedido de fazer reportagens e conferências na companhia B? Se vale o argumento de que notícia é notícia e anúncio é anúncio, é de se ponderar que notícia é notícia, palestra é palestra.
a verdade, há casos à vista de empresas jornalísticas quem romperam a fronteira ética que separava anúncio de reportagem. A rádio Eldorado (grupo Estadão), por exemplo, mistura as duas coisas sem a menor cerimônia: o repórter descreve a situação do trânsito na avenida X e passa o contrabando: “Aliás, se você estiver nas imediações da avenida X não deixe de passar na loja Y”. Temos aí um exemplo acabado de conflito de interesses no jornalismo, e comunhão de interesses no pufismo. A velha prática da matéria paga, que a maioria já identifica com o selo Publicidade, ainda é vista, embora disfarçada pelo cabeçalho de “Informe Especial”, em publicações de primeira linha como o Jornal do Brasil, O Globo e IstoÉ. 
Se as empresas – e grandes empresas, com faturamento declarado superior a R$ 200 milhões por ano – são as primeiras a misturar as funções, é de estranhar que o fardo ético do jornalismo seja desviado das empresas e despejado no lombo dos jornalistas. O conflito de interesses que ocorre para um, ocorre para o outro - ainda que no caso dos jornalistas a relação seja personalizada, isto é, a mesma pessoa serve diretamente a dois senhores, enquanto a empresa usa (na maioria dos casos, mas nem sempre), profissionais de setores diferentes para trazer anúncios e notícias. Mas a notícia que o repórter vai anotar e o anúncio que o contato vai trazer muito freqüentemente foram acertados pelos donos ou diretores das empresas. Encontro, e não conflito de interesses, é o proprietário cuidar do caixa e pautar as notícias. 
Colocada nesses termos, a questão não se resolve porque é insensato pensar em imprensa sem anúncio. Mas enriquece o debate apontar o farisaísmo das empresas, que limitam a questão ética aos empregados (é o que faz o Manual da Folha) e o ilusionismo dos jornalistas, que transitam em mão única num debate de duas pistas. 


Encontro de interesses é o proprietário cuidar do caixa e pautar as notícias 
  Prêmios

 

     Boletim Nº 5 Agosto-Outubro de 1995
     © Instituto Gutenberg

   Índice

igutenberg@igutenberg.org