O modelo se-eu-gasto-eu-pago dos cadernos de turismo americanos
parece longe do Brasil como Bora-Bora, mas o debate acerca de jornalistas
que ganham para dar conferências já está entre nós
e, como sempre, entrou pela porta mais fácil: a dos jornalistas,
e não a das empresas. O Correio Braziliense, que mantém solitária
página dedicada à imprensa na edição dominical,
nacionalizou o assunto com a reportagem “A ética profissional e
o dinheiro” (16/7). O Correio perguntou: “Dá para acreditar num
repórter ou comentarista econômico ou político que,
além de trabalhar para jornais e televisões, costuma dar
palestras para empresários, associações de classe,
grupos políticos, e ganhar a cada uma delas algo entre US$ 3 mil
e US$ 5 mil?”
“Em mim está instalada uma grande dúvida ética”,
respondeu o âncora do SBT, Boris Casoy, um dos que fazem palestras
e coordenam seminários de grandes empresas. O jornalista Luis Nassif,
integrante do conselho editorial e colunista da Folha (a coluna é
reproduzida em outros jornais), também dono da Agência Dinheiro
Vivo, cobra, segundo o CB, US$ 5 mil por palestra, não considera
a atividade paralela antiética, mas é favorável ao
debate. “Essa relação tem que ser transparente e o comportamento
ético e moral dos profissionais é uma questão do nosso
tempo”, disse Nassif. O mais famoso dos colunistas de economia, Joelmir
Betting, que publica sua coluna no Estadão e no Globo e em outros
jornais, além de fazer comentários na Rede Globo, dá,
ainda segundo o CB, umas dez palestras por mês ao preço de
US$ 5 mil a US$ 15 mil, e não tem dúvida ética alguma
nem incentiva o debate. “Esta questão ética é ridícula,
é uma censura moral absurda, porque nós não temos
preço”, disse Joelmir ao Correio Braziliense.
Há um campo ético fértil para o debate sobre o
caixa dois dos jornalistas. O que não se discute, nos EUA e muito
menos no Brasil, é a mesmíssima questão colocada para
a mídia desde que em 1441 Gutenberg obteve ajuda financeira e mordomias
da caixa paroquial de Santo Tomaz para inventar a imprensa. (A bem da verdade,
registre-se que Gutenberg faliu e foi levado à justiça pelos
credores). A questão secular ainda é: se as empresas de comunicação
divulgam na mesma edição uma reportagem sobre a empresa A
e um belo anúncio da empresa A, por que um jornalista estaria eticamente
impedido de fazer reportagens e conferências na companhia B? Se vale
o argumento de que notícia é notícia e anúncio
é anúncio, é de se ponderar que notícia é
notícia, palestra é palestra.
a verdade, há casos à vista
de empresas jornalísticas quem romperam a fronteira ética
que separava anúncio de reportagem. A rádio Eldorado (grupo
Estadão), por exemplo, mistura as duas coisas sem a menor cerimônia:
o repórter descreve a situação do trânsito na
avenida X e passa o contrabando: “Aliás, se você estiver nas
imediações da avenida X não deixe de passar na loja
Y”. Temos aí um exemplo acabado de conflito de interesses no jornalismo,
e comunhão de interesses no pufismo. A velha prática da matéria
paga, que a maioria já identifica com o selo Publicidade, ainda
é vista, embora disfarçada pelo cabeçalho de “Informe
Especial”, em publicações de primeira linha como o Jornal
do Brasil, O Globo e IstoÉ.
Se as empresas – e grandes empresas, com faturamento declarado superior
a R$ 200 milhões por ano – são as primeiras a misturar as
funções, é de estranhar que o fardo ético do
jornalismo seja desviado das empresas e despejado no lombo dos jornalistas.
O conflito de interesses que ocorre para um, ocorre para o outro - ainda
que no caso dos jornalistas a relação seja personalizada,
isto é, a mesma pessoa serve diretamente a dois senhores, enquanto
a empresa usa (na maioria dos casos, mas nem sempre), profissionais de
setores diferentes para trazer anúncios e notícias. Mas a
notícia que o repórter vai anotar e o anúncio que
o contato vai trazer muito freqüentemente foram acertados pelos donos
ou diretores das empresas. Encontro, e não conflito de interesses,
é o proprietário cuidar do caixa e pautar as notícias.
Colocada nesses termos, a questão não se resolve porque
é insensato pensar em imprensa sem anúncio. Mas enriquece
o debate apontar o farisaísmo das empresas, que limitam a questão
ética aos empregados (é o que faz o Manual da Folha) e o
ilusionismo dos jornalistas, que transitam em mão única num
debate de duas pistas. |
Encontro
de interesses é o proprietário cuidar do caixa e pautar as
notícias
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