Instituto Gutenberg

É ético jornal conseguir com empresas suspeitas de corrupção patrocínio de brindes para os leitores? Em questão
É ético jornal conseguir com empresas suspeitas de corrupção patrocínio de brindes para os leitores?


A mal-afamada Vega Sopave, da mal-afamadíssima OAS,
paga brindes de luxo para os assinantes do Estadão
 
Havia expectativa quanto ao patrocinador da coleção de mapas da National Geographic Society que o Estadão distribuiria a seus 320 mil assinantes. O leitor habituou-se a receber presentes com o logotipo de patrocinadores nem sempre respeitáveis. Ora aparecem como gângsteres, ora como mecenas culturais. A revista Veja já causara surpresa ao apresentar a Odebrecht como uma mina de corrupção e depois vender para a construtora o livro-brinde "Reflexões para o futuro", de 1993. A Folha brindara os leitores com mimos pagos por outra empreiteira de ficha infamada, a OAS, tal como a Odebrecht, protagonista de acusações oficiais, entre elas as CPIs do Caso Collor-PC e da "Máfia do Orçamento".
Quando os primeiros mapas da National Geographic Society foram jogados na soleira dos assinantes, na madrugada de 23 de junho, soube-se que o Estadão bebera na mesma fonte. Desta vez, o dinheiro saiu de uma subsidiária da OAS, a Vega Sopave, empresa que coleta lixo em São Paulo. “O patrocínio da Vega Sopave tornou possível a publicação desta coleção realizada pelo O Estado de S. Paulo e National Geographic Society. Esta é uma iniciativa que contribui para a difusão da Educação e da Ciência”, diz o estojo dos mapas.
Se o patrocínio fosse dado a um político (*) ou juiz, caberia “matéria de pesquisa” para lembrar que a imagem da empresa confunde-se com o material que ela transporta pelas ruas de São Paulo. A Vega Sopave foi acusada pelo vereador paulistano Italo Cardoso (PT) de encher caminhões de terra e entulho, materiais mais pesados, e cobrar da Prefeitura como se fosse lixo recolhido na cidade. A Prefeitura paga por peso o lixo acondicionado em sacos plásticos que caminhões coletam nas calçadas. Em setembro de 1992 a Vega recolheu 2.295 toneladas de lixo no bairro de São Miguel Paulista, e, no mesmo mês de 93, já pertencendo à OAS, coletou 4.203 toneladas no bairro. Num ano de recessão, o lixo do distrito miserável quase dobrou de peso (Folha, 5-3-94).
Na Mooca, outro bairro limpado pela Vega Sopave, com 778.115 habitantes e 53,65 km2, o lixo era mais pesado que o da Penha (699.413 moradores, 57,7 km2), a ponto de a concorrente Splice ter recebido da Prefeitura, em dezembro de 1994, CR$ 158,3 milhões para limpar a Penha, e a Vega Sopave ter embolsado CR$ 564 milhões para limpar a Mooca. O lixo de um paulistano custava à Prefeitura CR$ 226,3, se recolhido pela Splice na Penha, e CR$ 724, se coletado pela Vega Sopave na Mooca. Foi aberto um inquérito que ninguém noticia.

A patrona da Educação e da Ciência também foi patrona do Esquema Pau-Brasil
O prontuário da patrona da Educação e da Ciência inclui patronagem do “Esquema Pau-Brasil”: doação ilegal de 815 mil dólares para a empresa do pianista João Carlos Martins financiar a campanha do atual prefeito Paulo Maluf. Vinte cheques da Vega Sopave foram depositados na agência de Botucatu do Banco do Brasil e descontados pela Pau-Brasil na agência Jardim América do Banespa. Os cheques foram exibidos pelo deputado Luiz Gushiken (PT-SP). O procurador Francisco Dias Teixeira pediu a quebra do sigilo bancário da empresa (Estadão, 21-1-94).
A Vega se dá bem com a Prefeitura. No ano passado, o então presidente do Tribunal de Justiça Francis Davis deu ganho de causa a Splice em ação que acusava a administração Maluf de reservar para a Vega a coleta do lixo hospitalar. Uma denúncia da Splice: a Vega coletava o lixo hospitalar por US$ 20 a tonelada, mas no edital da nova concorrência a Prefeitura subiu o preço para US$ 29,77.
Há outros bons negócios em curso. Em 5 de julho, a empresa tinha tudo para ganhar na Prefeitura de São Paulo a concorrência 2/SVMA/95, para executar o Programa de Inspeção e Manutenção de Veículos em Uso. Inédito no Brasil, o programa vai medir a poluição emitida pelos 4 milhões de carros da cidade. Todo dono de carro deverá a ir a um posto de medição e, se o veículo estiver emitindo mais monóxido de carbono do que o permitido, será obrigado a regular o motor. Cada um pagará cerca de R$ 10 para passar pelo teste obrigatório de poluentes e ruídos.
Mais tarde, também por aproximadamente R$ 10, a empresa que terá o monopólio da inspeção poderá avaliar a segurança e, por mais R$ 10, a parte elétrica dos veículos. A exigência mais esdrúxula do edital foi que os candidatos provassem experiência de avaliação mínima de um milhão de veículos num ano. (Diário do Comércio, 17-6). Como o programa é inédito no Brasil, os concorrentes teriam de associar-se a empresas estrangeiras, como as da Califórnia, o estado americano que deu início aos programas de controle da poluição e inspeção de veículos. Por coincidência, quando o edital saiu a Vega Sopave já estava se associando a uma empresa que tem tamanha experiência, a Envirotest, de Phoenix, EUA. Gigantes do ramo, como a alemã Bosch, que desenvolve medidores de poluição, foram excluídos da concorrência. O Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE) reclamou dos itens excludentes e pediu, em 16 de junho, uma investigação ao Ministério Público.
O Estadão escondeu a notícia de que o PNBE foi à Justiça contra o edital - deu 7 linhas no pé de matéria que relatava arengas do Estado e da Prefeitura no projeto, o que era uma notícia velha. A notícia nova, que deveria abria matéria e ir para o título, era a do pedido de impugnação da concorrência feito por uma entidade empresarial, respeitável e apartidária. O jornal não acompanhou o caso. Desde então, diluiu o assunto em meio a reportagem sobre as inúmeras contestações às concorrências da Prefeitura e só deu destaque à impugnação do edital dos automóveis no dia 4 de julho, e ainda assim era impossível não dar: na véspera, depois de uma reunião com representantes do PNBE e políticos, o secretário do Meio Ambiente, Werner Zulauf, ouviu os argumentos do PNBE de que o edital tinha erros, como o de manter nota técnica para desempate (o critério legal é o do sorteio) e induzia a monopólio. Zulauf anunciou que suspenderia a concorrência por dez dias. O PNBE vencera. Na reunião, o vereador José Eduardo Cardoso (PT) perguntou a Zulauf se ao entregar projeto tão grande e duradouro (dez anos prorrogáveis por mais dez) a uma só empresa o edital beneficiava a Vega Sopave. O secretário melindrou-se, alegou vida limpa e não respondeu. Nem o Estadão nem a Folha citaram a pergunta - e a Vega Sopave passou ao largo do noticiário sobre a concorrência suspeita.
Só uma distração de pauta explica a escassez de notícias e o desinteresse sobre os bastidores para escolha de uma empresa privada que vai gerir um programa que exigirá um certificado de antipoluição de cada carro da maior cidade do país. De distração em distração, jornais distraem o leitor. O cipoal de críticas do Estadão ao luxo e ao custo da sede do Superior Tribunal de Justiça (STJ), inaugurada em 22 de junho, um dia antes da distribuição dos mapas, omitiu a folha corrida da empreiteira que ergueu o colosso de concreto e granito... a OAS.
O STJ foi massacrado, mas a empreiteira saiu ilesa do noticiário. A sede do tribunal é uma das muitas obras públicas em que a OAS é acusada de superfaturamento. (Ainda em Brasília ela é acusada pelo Tribunal de Contas de superfaturar em 60% a construção do Setor C da Penitenciária da Papuda (Folha, 13-1-94), e em 100% a da Escola Técnica de Taguatinga (Globo, 14-1-94). Na Papuda, a fiadora foi outra empreiteira do grupo, a Coesa, num negócio tão malfeito que a carta de garantia expirava em 30 de fevereiro).
Segundo informações divulgadas pelos jornais em 1993, antes da onda de patrocínios e no auge da CPI do Orçamento, o Tribunal de Contas comprovou um “acréscimo imotivado” no contrato da obra do STJ, de US$ 172 milhões em 1989 para US$ 210 milhões em 93 (Globo, 9-12-93). A CPI apurou que o prédio do STJ e a OAS foram beneficiários de três emendas ao orçamento de 1992, apresentadas pelo deputado Manoel Moreira (PMDB-SP), nos valores de US$ 27 milhões, US$ 36 milhões e US$ 37 milhões (Estadão, 16-11-93).
Por essa e outras, o deputado teve sua vida particular devassada, com colaboração picante da ex-mulher, e renunciou ao mandato para não ser cassado pela Câmara. Qualquer reportagem sobre o deputado vai citar esses fatos. Qualquer reportagem sobre o palácio do STJ deveria citar as faturas da OAS.

Leitor pode pedir que no lugar de brindes jornal encarte mais reportagens
Um jornal não faz jus a seu papel se em vez de dar notícias, doa fascículos, e menos ainda se deixa visível uma relação objetiva entre brinde e omissão de notícia. Os anúncios e os patrocínios na mídia são uma tradição legítima e, na maioria das vezes, honrada, mas brindes nada têm a ver com jornalismo e sim com concorrência industrial por tiragens estelares - milhões de páginas impressas com papel subsidiado pelo contribuinte. (Os Atlas Geográfico e Histórico elevaram a tiragem da Folha (patrocínio da OAS) e do Globo (patrocínio do Banco do Brasil, através do Centro Cultural) acima de um milhão de exemplares). São milhares de toneladas de papel importado com isenção de imposto que os jornais usam para abocanhar o mercado de anúncios e brindes.
Há patrocínios que valorizam o brinde - como o da IBM, uma empresa decente que financia os 15 fascículos também da National Geographic Society que o Estadão começou a distribuir aos leitores logo depois dos mapas da Vega Sopave, com uma tiragem recorde de 800 mil exemplares. (O jornal assimilou a parceria com a multinacional dos computadores a ponto de criar o selo editorial “Estadão. Plugado no mundo”, recorrendo a um termo do universo do patrocinador; em informática se diz muito “plug and play” ou “ligue e use”).

Patrocínio é caro e só rende prestígio
Os patrocínios de brindes de luxo são caros, e, na verdade, comercialmente pouco interessantes às empresas que pagam por eles. Quando lançou seu Atlas Geográfico Mundial, a Folha disse que fez um investimento direto de US$ 2,4 milhões (papel, impressão, copyright) e ofereceu o patrocínio por três cotas de US$ 800 mil, afinal pagas, não se sabe se por esse valor, pela OAS e os grupos Itamaraty e Votorantim. A General Motors e a Varig patrocinaram o Atlas histórico.
O Estadão teve dificuldades para vender os mapas e os fascículos da National Geographic. O projeto inicial era um pacote de três brindes: os mapas, os fascículos da NGS e os da revista Traveler. Os folhetos enviados a agências de publicidade e a grandes empresas pediam, para os mapas, dois patrocínios de US$ 600 mil, mas só a OAS-Vega Sopave pagou. A negociação dos fascículos com a IBM teve de incluir muitas páginas de anúncios do computador Aptiva.
O Globo, para publicar seu atlas histórico, recorreu ao dinheiro público, obtendo patrocínio do Banco do Brasil. O Jornal da Tarde, para lançar um dicionário ilustrado, recorreu a um banco particular. Mas há sinais de que f fonte secou. A Folha não achou patrocinador para os pôsteres que lançou em concorrência aos fascículos do Estadão. As empresas tendem a recusar o chamado patrocínio institucional - apenas o nome e logotipo - e distribuir tamanha verba publicitária em anúncios que estimulem as vendas de produtos ou serviços. Empresas que não vendem produtos diretamente ao público só entram nesse tipo de negócio para obter prestígio.

     Boletim Nº 4 Julho de 1995
     © Instituto Gutenberg

   Índice

igutenberg@igutenberg.org