Lccedil;ão de casa para a mídia
Instituto Gutenberg

Editorial

Lição de casa para a mídia

Dois episódios envolvendo jornalistas e um terceiro, de censura prévia a uma TV, são a mais perfeita gazua para abrir um debate sobre a caixa preta da mídia brasileira. No primeiro, uma lista de quase 90 nomes de profissionais obscuros uns e respeitáveis outros pediu à Previdência Social um salário mensal, que pode chegar a R$ 6.300, a título de indenização por prejuízos profissionais resultantes de perseguições políticas que teriam sofrido durante o regime militar. Alguns são acusados de fraudar documentos, com ajuda do sindicato, pois nem jornalistas eram. Outros não fraudaram nada, a começar pela Carteira Profissional, onde ostentam espaços em branco de inatividade imposta pela ditadura, que de fato perseguiu, prendeu e torturou jornalistas, censurou e asfixiou jornais de oposição. A existência de fraudes serviu, no entanto, para a mídia publicar especioso material sugerindo isenção, ausência de corporativismo e vontade de apurar maracutaias dentro de casa.(Veja o artigo) O outro episódio com jornalistas foi a divulgação e a seguir um pequeno debate acerca de mordomias tradicionais que profissionais da imprensa - e empresas de comunicação - usufruem de fontes cujos interesses divulgam em seus veículos. Lição: jornalistas viram bicho quando aparecem nos títulos das matérias.
Os dois episódios, como qualquer mini ou grande escândalo, evoluem devagar, mas podem irromper num furacão saneador se a mídia e a sociedade se dispuserem a debater o telhado de vidro dos meios de comunicação.
A imprensa usa e abusa das concessões e licenciosidades que tanto condena. Não paga impostos sobre o produto, tem reserva de mercado e sabe-se que muitos jornais e emissoras de rádio e TV vivem pendurados em bancos oficiais e dão calote na Previdência Social. Quando se trata de empresas de comunicação, valores como mercado, livre concorrência, competição internacional, respeito ao dinheiro público são bons para os outros. Até mesmo a censura só é censura para os outros - como demonstrou o episódio da empresa Amway com a Rede Bandeirantes. A empresa recorreu à Justiça para impedir a transmissão de uma reportagem que considerava hostil. Depois, voltou atrás, elogiou a liberdade e retirou a queixa. Compreensivelmente, a Bandeirantes fez disso um cavalo de batalha e os jornais ecoaram a censura prévia. Apenas a revista Veja lembrou que, há dois anos, o dono da Bandeirantes, Johnny Saad, fez exatamente o que a Amway agora perpetrou contra ele: foi à Justiça para censurar notícias sobre o seu...divórcio.
A imprensa é uma instituição muito importante para ser gerida dessa forma. O negócio social da imprensa exige coerência, e para que ela seja respeitada, transparência. Os episódios de maio podem ser o começo do debate sobre os privilégios e as incoerências da mídia. Cabe a ela zelar pela agenda ética que propõe ao país e deve também velar internamente pelo contrato com a verdade e a lisura que assinou com o público. Quanto mais forte, séria e honesta ela for, melhor será o Brasil.

         Boletim Nº 3, Maio-Junho de 1995
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