A media dá, a media toma Editorial
A media dá, a media toma

Boa fase é comprometida por erros e privilégios

Quase todas as reportagens e artigos desta edição do boletim do Instituto Gutenberg tratam de erros, limites e responsabilidades da mídia, e seu reverso, a crítica e as iniciativas para consertá-los ou amenizá-los. Do jornal que supõe e adivinha os fatos quando lhes faltam os fatos ao que leva a sério o chiste de Charles Dana e sai à rua e morde um cachorro, repassamos deslizes, contravenções, crimes que não dignificam o jornalismo e muitos jornalistas. Criamos até uma seção com selo atípico da terminologia da mídia — POLÍCIA — para abrigar comentários sobre pautas que em vez de conduzirem o repórter à notícia o conduzem à delegacia. Até recentemente, jornalistas eram presos por noticiar crimes; hoje vão para a cadeia por cometer crimes.
Na ponta do lápis, a imprensa presta mais bons serviços que desserviços ao Brasil. Está aguerrida, curiosa, reduz a cada dia o índex de temas proibidos, aumenta suas preocupações éticas. Na verdade, a atual é a melhor imprensa que o Brasil já teve —embora este mérito não seja exclusivo dela, mas do conjunto da sociedade que igualmente se aprimora em pontos como a reivindicação de direitos e um progressivo refinamento institucional, de efeitos ainda restrito às elites. Defende com unhas e dentes a liberdade tão duramente conquistada após anos de censura e intimidação. Mas às vezes não usa a liberdade como um valor democrático da sociedade, e sim como uma gazua para abrir e usufruir prerrogativas.
Indústria e serviço público ao mesmo tempo, a mídia tem dificuldades para equilibrar eticamente a sua ambigüidade. Denuncia privilégios, mas regala-se com eles. Obtém isenção de impostos e amplia os subsídios que tanto condena em outros ramos industriais. Mantém, com anúncios as empresas, com gorjetas os jornalistas, a ancestral relação incestuosa com o erário público.
O país se moderniza e quer se moralizar, mas a mídia e jornalistas encastelam-se no Brasil arcaico, exigindo e desfrutando privilégios exclusivos. Recusam-se a reconhecer os erros. Protegem-se com um corporativismo siciliano. Agora mesmo, nos debates sobre o projeto da nova lei de imprensa, a mídia pleiteia prerrogativas legais que diferenciam os jornalistas dos demais cidadãos. Se o Código Penal manda a fofoqueira para o xadrez infecto, os jornalistas exigem pena de serviços comunitários.
É conforto demais. Por isso adotamos como lema deste número a bela frase do jornalista e humorista americano Finley Peter Dunne, com a esperança de que ela seja inscrita nos manuais de redação e no código de conduta das empresas jornalísticas e de seus profissionais: "A função da imprensa é confortar os aflitos e afligir os confortados".







É clássica a definição de notícia dada pelo jornalista americano Charles Dana (1819-1879): "Quando um cachorro morde uma pessoa, isto não é notícia. Mas quando uma pessoa morde um cachorro, isto é notícia"

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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