E de envolvido e de erro Diciona

E de envolvido e de erro

Envolvido, particípio do verbo envolver, vocábulo que provém do latim involvere, é uma dessas palavras-ônibus que a mídia usa e abusa para transportar acusações vagas, imprecisas, inexatas mas com o poder de detonar uma reputação. Freqüentemente, lê-se nos jornais e nas revistas e ouve-se no rádio e na TV que alguém está "envolvido" num episódio ilícito. Ou seja, tal informação é que ilícita, de vez que envolvido não quer dizer protagonista ou coadjuvante de um crime, não significa necessariamente fora-da-lei, ao contrário da conotação que a palavra exala. Rigorosamente, o acusador está tão envolvido numa ilicitude quanto o acusado, assim como estão envolvidos a polícia, o promotor e o juiz.
O uso inadequado, jornalisticamente impreciso, da palavra envolvido inspirou um causo — uma dessas "histórias" que mesclam realidade e ficção, e mudam de lugar, de época e de protagonista, mantendo o enredo. Conta-se que o causo foi contado originalmente no princípio do século, pelo poeta e jornalista Olavo Bilac (1865-1918). Dava conta de que um honrado cidadão do Rio de Janeiro, ao cruzar o Largo do Machado, viu um ladrão roubando o colar de uma mulher. O cidadão perseguiu e deteve o ladrão, e todos foram para a delegacia. Tempos depois, um jornal publicou que o homem estava envolvido num roubo de colar no Largo do Machado.
O Dicionário Etimológico Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha, diz que a palavra foi registrada pela primeira em português em 1813, no Diccionario da língua portugueza, de Morais Silva. O Aurélio dá treze acepções para o verbete envolver, mas é a décima ("Tomar parte; intrometer-se") que parece ser a preferida da mídia.
Toda vez que um redator quer se referir, sem muita precisão, a um fato desabonador na vida de uma pessoa que é notícia, diz que ela está "envolvida" nisso ou naquilo. É uma forma preguiçosa, e às vezes caluniosa, de registrar um dado biográfico sem pesquisar ou checar em busca de uma informação exata. A acurácia manda que, em vez do genérico e maroto "envolvido", cite-se a acusação direta: matou, roubou, desfalcou, esfolou, citando a data, local e sobretudo o desfecho do envolvimento.
É outro erro recorrente publicar, a título de "contextualização", que alguém foi acusado de cometer um crime, sem esclarecer para o público a situação do inquérito, ou seja, se o caso está em andamento ou se o acusado foi condenado ou absolvido. Em caso de absolvição, aliás, a citação posterior da acusação deve ser muito bem pesada — embora o mais freqüente seja reportagens trazerem uma detalhada rememoração da incriminação, para, no final do parágrafo, informar secamente que o acusado foi inocentado pela Justiça.

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