“Além de pedir desculpas aos leitores o que mais há por
ser dito?
Em nossa defesa, nada. Absolutamente nada. Salvo lamentar o grave erro
cometido e prometer que faremos tudo para que não se repita jamais.
Conto como tudo se passou. Ou como me foi contado pelo autor da reportagem.
Num domingo em que as notícias quase sempre se recusam a acontecer,
um cidadão telefona para a Redação deste jornal e
informa que existe uma família vivendo ao relento na BR-020.
Diz mais, que essa família, pai, mãe e cinco filhos,
está contaminada com o vírus HIV, transmissor da Aids.
Uma vez localizado, o pai fez um dramático relato de sofrimento,
dor, angústia e desespero.
Deixados de lado os princípios mais elementares do jornalismo,
acreditou-se na história mesmo contra irrecusáveis evidências
de que nela havia furos. Muitos furos.
Evidência número um: o pai disse que fez exame de Aids
no Hospital Regional Asa Norte. E que lá ficou comprovado ser portador
do vírus.
(Soube-se no mesmo domingo que o Hospital da Asa Norte não faz
esse tipo de exame. Logo, deveríamos ter desconfiado da veracidade
da história.)
Evidência número dois: provocado sobre os resultados do
exame, o chefe da família respondeu que os perdera. Depois, corrigiu
a informação a respeito do hospital onde teria sido examinado:
fora o Hospital de Taguatinga, não mais o Hospital da Asa Norte.
(Não houve a imprescindível checagem da informação
no Hospital de Taguatinga. Se isso tivesse sido feito, se descobriria que
ali não há registro algum de exame em nome do pai doente.
Até porque o nome por ele fornecido não é verdadeiro.)
Evidência número três: o pai da família recusou-se
a revelar o endereço da pensão de onde teria sido expulso
juntamente com a mulher e os filhos.
Por que? Talvez porque ali a história que contara pudesse ser
desmontada.
Como foi possível acreditar num depoimento tão flagrantemente
cheio de imprecisões?
Entende-se o desespero de alguém que de fato parece estar doente,
abandonado e sem condições de sustentar a família.
Mas, é duro dizer, jornalistas não podem ser ingênuos.
E fomos. Estamos obrigado a apurar com rigor tudo o que escrevemos. E não
apuramos.
Comentei, certa vez, em outro espaço, que o maior patrimônio
que um jornal pode ter é sua credibilidade. E que para construí-la,
leva-se geralmente muito tempo. Para perdê-la, não. Basta
que cometa uma série de erros graves. E se conforme com eles.
O Correio não se conforma.
Perdão, leitores.”
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1997
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