Façam o que eu digo...

Instituto Gutenberg


Conflito de interesses

Façam o que eu digo...

26 de fevereiro, programa Roda-Viva, da TV Cultura de São Paulo.
O apresentador Matinas Suzuki, também editor executivo da Folha de S.Paulo, coordena a entrevista de seu chefe, o diretor da Folha, Otavio Frias Filho.
20 de março, Jornal Nacional, da Rede Globo.
O repórter Alexandre Garcia, funcionário do Banco do Brasil, apresenta uma reportagem sobre o Banco do Brasil.

São episódios de fácil identificação, mas existem muitíssimos casos na mídia de conflitos de interesse profissional. Jornalistas ligados por laços partidários, empregatícios, familiares, religiosos publicam notícias que tratam direta ou indiretamente de pessoas ou instituições às quais estão vinculados. Militantes de partidos escrevem sobre o partido, a colunista casada com um empreiteiro dá notas contra empreiteiros, locutores elogiam jogadores de que são empresários.

A mídia nutre-se disso, mas exerce alguma vigilância sobre conflitos de interesse em outros setores, como o Legislativo e o Judiciário. Dois casos: o Jornal do Brasil (1°/3) deu meia página para o conflito de interesse do ministro Vicente Cernicchiaro, do Superior Tribunal de Justiça, que iria julgar um processo em que sua mulher era a advogada de defesa; o Estadão (20/5/95) denunciou deputados que visitaram campos de provas de fabricantes de pneus em viagem patrocinada pela associação dos empresários, interessada em brecar um projeto de importação de pneus usados.

O conflito de interesse é uma questão de difícil auto-regulamentação. Há que se ter cuidado para não cair na armadilha do politicamente correto, sob pena de um repórter não poder respirar na sala da fonte sem ser acusado de tráfico de oxigênio. Igualmente, se deve ter o zelo de evitar que o repórter com a camisa do Corinthians entreviste o jogador do Palmeiras. A pesquisa do Instituto Gutenberg com fontes de informação (boletim de julho/95) mostrou que 78,5% dos entrevistados acham que têm o direito de recusar um determinado repórter se perceberem nele falta de isenção para fazer a reportagem.

A questão básica do conflito de interesse é: ele não pode existir. Se existe, e é justificado com a honra e argumentos duvidosos do tipo “eu não me venderia por tão pouco”, deixa de ser um princípio para ser um sucessivo casuísmo. Quando um jornalista ou um meio de comunicação mergulha num conflito de interesse e alega que sabe separar os canais, justifica os conflitos de todo mundo, pois, afinal, qualquer um é capaz de ter a eqüidistância ética de que a mídia parece requerer o monopólio.

Se um jornalista pode fazer uma reportagem sobre um hotel que lhe deu a hospedagem (sem se vender por tão pouco), um deputado pode viajar às custas de empresa sobre cujo mercado vai legislar. A diferença é que, no dia seguinte, o deputado estará no jornal com uma tatuagem de corrupto, e o jornal exaltará sem cerimônia o hotel que lhe deu um apartamento com vista para o mar.

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Boletim Nº 8 Maço-Abril de 1996
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