Instituto
Gutenberg
Coberturas
Os efeitos podem tornar-se causa
A mídia tem de arranjar
tempo, espaço e competência para
apontar os efeitos dos fatos e humanizar a narração
jornalística
Carlos Chaparro
Quanto mais leio os
jornais de hoje mais me convenço de que o jornalismo convencional
precisa recalibrar conceitos e práticas. Será forçado
a fazer isso, porque à sociedade também interessa que o jornalismo
encontre seu lugar e seu sucesso nas complexidades deste mundo movido a
informação e a interesses, em ciclos cada vez mais próximos
da instantaneidade.
A reciclagem mais urgente, a meu ver, envolve o conceito da proximidade,
básico nos critérios jornalísticos para a atribuição
de relevância aos conteúdos. Na lógica desse atributo,
ao leitor interessa mais o que mais próximo está. Mas a noção
física de proximidade e distanciamento é coisa de antigamente.
Fronteiras e distâncias desapareceram, ou perderam função,
não apenas na geografia, mas também na ciência, na
economia, na política, praticamente em todas as manifestações
da vida humana. Tudo se tornou abstratamente próximo, interativo,
complementar, e não há quem não sinta isso nos próprios
sonhos e medos.
O crash das bolsas de valores pode servir de exemplo. Os misteriosos
capitais oportunistas operam nos tabuleiros de Hong Kong ou Seul, e, por
emaranhados nada aristotélicos de causas e efeitos, labirintos não
explicados, talvez até inexplicáveis, produzem ou acentuam
desorganizações, e logo aumentam os juros e desempregam milhares
de pessoas.
Como explicar isso aos leitores, que compram o jornal para compreender
o que se passa e organizar sua relação com o mundo? Com índices
nas manchetes, 10% de queda ali, 8% acolá? Claro que os índices
são indicadores importantes. E como indicadores precisam ser lidos,
não mais que isso. Porque escamoteiam a verdade sempre que recebem
tratamento de estrelas do show. Pois é o que o jornalismo de hoje
faz: quase tudo se traduz em índices, seja o desemprego, a mortalidade
infantil, o analfabetismo, a pobreza ou o futebol.
O jornalismo perdeu a perspectiva do humano. A meu ver, é o
mesmo que perder a perspectiva da verdade. As estatísticas podem
ter precisão inquestionável e até ser indispensáveis
para a compreensão dos contextos. Mas a verdade do desemprego não
está nos índices do governo ou nos estudos frios da ciência
e do empresariado. A verdade do desemprego está no drama do desempregado
de hoje e nos medos do desempregado de amanhã.
Os jornais e os jornalistas, porém, não têm essa
perspectiva.
A leitura de qualquer jornal diário confirmará que o
mundo representado no noticiário é um mundo institucionalizado.
Os personagens das notícias e reportagens não são
pessoas, mas representantes de instituições. Em vez de atuarem
como sujeitos, agem como objetos.
Isso pode ser ótimo, porque expressa democracia. E se não
expressa, devia expressar. Mas, do jornalismo, a sociedade espera mais
do que a reprodução dos jogos de poder, predominantemente
econômicos, mesmo quando têm aparência política.
Porque não se trata de simples jogos. As falas e os acontecimentos
são ações planejadas, controladas. Produzem, portanto,
efeitos que interferem na vida das pessoas. E dos efeitos dessas ações
o jornalismo convencional não está dando conta, porque aderiu
por inteiro à institucionalização do mundo.
Ora, se os fatos só são jornalisticamente importantes
pelo que significam para as pessoas, o valor do atributo proximidade localiza-se
nos efeitos, concretos ou prováveis. As veredas dos efeitos devem
tornar-se, pois, caminhos preferenciais do jornalismo. Há que descobri-los,
desvendá-los, explicá-los, para que se tornem compreensíveis
e adquiram significação social e cultural.
O jornalismo não pode nem deve rejeitar a quantidade avassaladora
de notícias que o mundo institucionalizado produz. Essa é
a engrenagem da atualidade, quer se goste ou não. Mas os jornais
têm de arranjar tempo, espaço e competência para fazer
a descoberta e o desvendamento dos efeitos. Por esse caminho se humanizará
a narração jornalística e será alcançada
a pedagogia da explicação.
A capacidade jornalística de apreender, desvendar e relatar
as conseqüências dos acontecimentos dará aos efeitos
força de causa, para as transformações que interessam
ao aperfeiçoamento da sociedade humana. Na competência e na
arte de lidar com os efeitos (ao escrever isto, penso no maravilhoso trabalho
do fotógrafo Sebastião Salgado), a ação jornalística
adquire instância da causa, porque produzirá coisas novas,
transformadoras.
Carlos Chaparro é professor de Jornalismo na Universidade
de São Paulo
chaparro@dialdata.com.br
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1997
© Instituto Gutenberg
-
Índice
igutenberg@igutenberg.org