Jornalismo foi a primeira vítima nos acidentes dos Mamonas e Cláudia Liz

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Coberturas

Jornalismo foi a primeira vítima nos
acidentes dos Mamonas e Cláudia Liz

Duas tragédias recentes vitimaram o jornalismo, a dos Mamonas Assassinas e a da modelo Claudia Liz. Ao noticiar (especular? adivinhar?) a queda do avião da banda, em 3/3, e o acidente neurológico com a atriz, em 9/10, a mídia repetiu pela enésima vez o erro padrão de avalizar as primeiras versões. O piloto do avião dos Mamonas foi enterrado com uma diploma de trapalhão, enquanto o anestesista de Cláudia Liz foi responsabilizado por um grave erro médico. Concluído o inquérito sobre a queda do avião e ressuscitada a modelo, ficou claro que as "notícias" tomaram rumo tão perigoso quanto o de um jato voando para um morro.
"Sem experiência suficiente para conduzir o Leajert que levava os Mamonas, o piloto fez uma série de manobras desastradas e enfiou o avião num morro", sentenciou, num exemplo comum, a revista Veja (13/3). Cristiane, a mulher do piloto Jorge Martins, protestou, na época, contra o inquérito sumário da mídia — baseado em fontes anônimas e em informes passados pelos controladores de vôo do aeroporto de Cumbica. Em 19/10, os jornais noticiaram a conclusão do inquérito policial: além do piloto e do co-piloto, três controladores de vôo foram denunciados sob a acusação de negligência e descaso pelas normas da aviação. A questão agora é saber quem errou.
Ao dar a primeira notícia sobre Cláudia Liz, o Estadão (10/10) disse que ela estava em coma e cometeu o terrível ato falho: "...a mulher do ex-jogador de futebol Dario Pereyra, Helenita Caparrus Pereyra, também morreu...". Na cobertura do episódio, o Jornal do Brasil decretou definitivamente que o título nada tem a ver com o texto. Em 12/10, o jornal cravou: "Lesão cerebral afetará visão de Cláudia Liz", apesar de um centímetro abaixo o cirurgião Roberto Pagura desautorizar tanta certeza.
O maior erro do noticiário foi o descaso generalizado pelas razões médicas da auspiciosa reabilitação da modelo. Este era um caso em que celebrar o triunfo da vida, com minuciosas reportagens técnicas sobre a recuperação da paciente, era jornalisticamente mais "quente" do que fazer a crônica de uma morte editada.

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Número 11, setembro-outubro de 1996
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