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Noam Chomsky critica a mídia americana

O Instituto Gutenberg convidou o lingüista americano Noam Chomsky para colaborar com seu trabalho de crítica de mídia e dele recebeu a correspondência transcrita abaixo. Para contextualizar a carta-artigo de Chomsky, esclarecemos que ele recebeu exemplares do nosso boletim e um prospecto em inglês, onde apresentamos nossa visão da imprensa americana: independente e obrigada à maior precisão por causa da reação da sociedade, com ações judiciais, contra o mau jornalismo. Chomsky discorda como é de seu feitio de intelectual crítico da cultura dos Estados Unidos. Lingüista revolucionário, trabalhando no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Chomsky destacou-se como ativista dos direitos civis. Um dos últimos de seus muitos livros traduzidos no Brasil é Ano 501 A Conquista Continua, Scritta Editorial, 1993, acerca dos 500 anos da América. Como crítico da mídia, Chomsky tem uma conexão com a revista Z.

 Fiquei muito interessado ao ler a respeito do Instituto Gutenberg. Penso, entretanto, que o prospecto está muito próximo da auto-imagem que a mídia ocidental criou. Realmente, análises críticas da mídia são um fenômeno muito marginal nos países desenvolvidos, e praticamente não existentes na Europa. Nos Estados Unidos tem havido mesmo análises críticas que demonstraram extraordinária subserviência ao poder em um certo sentido, isto é pior do que em estados totalitários e terroristas, dado que aqui dizer a verdade não produz o mesmo tipo de punição. No entanto, este trabalho, que já produziu milhares de páginas de documentação detalhada, está muito longe da grande divulgação, e raramente, caso acontecesse, seria publicado nos principais jornais tradicionais.
Existe uma discussão crítica nas publicações jornalísticas, mas é muito limitada, e restrita a edições secundárias. Não se acharia nada aqui parecido com o apelo dos bispos brasileiros em 1988 pela democratização da mídia. A única referência a isso que eu conheço nos Estados Unidos é em um livro meu sobre a mídia nos Estados Unidos, baseado em conferências sobre radiodifusão canadense e que foi um best seller lá, mas literalmente não mencionado nos Estados Unidos em virtude de ser crítico da performance da mídia americana. Há muita ilusão a respeito deste assunto, mais ainda na Europa do que aqui.
A idéia de que pessoas dos Estados Unidos pudessem levar a mídia a julgamento é também errada felizmente, em minha opinião. A mídia pode se engajar em enganos e distorções sem fim no interesse do poder, como de fato faz, sem qualquer forma pela qual o público pudesse reagir via tribunais; novamente, essas precauções em cdefesa da livre expressão, incluindo o direito de mentir e de enganar, são características do sistema americano, acredito eu, embora a liberdade de expressão que é formalmente garantida seja mais como mercadorias em um mercado semicapitalista: uma certa quantidade está disponível no princípio, e você pode conseguir tanto quanto puder comprar.
Há diversos jornais que regularmente monitoram a imprensa, principalmente EXTRA!, o jornal da organização Justiça e Acurácia da Informação. Tem havido vários outros, mas qualquer esforço para fazer análise crítica de instituições tradicionais naturalmente opera com recursos muito limitados, e fracassaram por essa razão.
Obrigado também pelo convite para colaborar. Em princípio, eu estaria interessado. Escrevo bastante a respeito desses tópicos, inclusive diversos livros e artigos, mas não estou seguro se esse tipo de material se enquadraria bem no formato que você tem em mente. Eu até sugiro que você contate várias pessoas que fazem trabalho de crítica séria sobre a mídia aqui, em destaque Edward Herman, na Universidade da Pensilvânia (Wharton School of Economics; ele é aposentado, mas mantém um escritório lá) e Robert McChesney, na Universidade de Wisconsin, no Departamento de Comunicações. Ambos fazem um trabalho importante sobre esse tema, e provavelmente teriam mais tempo disponível do que eu, dados os muitos compromissos que tenho em diversas outras áreas.
 

 Boletim Nº  7  Janeiro-Fevereiro de 1996
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