Deveríamos ser os protagonistas? Instituto Gutenberg


Deveríamos ser os protagonistas?

O XIS DA QUESTÃO - Para o sucesso dos conflitos contemporâneos,
o que de fundamental o jornalismo tem a oferecer à sociedade
é a eficácia ética e a natureza asseveradora do discurso jornalístico.

Carlos Chaparro
No dia 15 de Março, o jornalista Josias de Souza, um dos mais prestigiados da Folha de S.Paulo, assinava um artigo em que lamentava o sono da omissão que impediu o jornalistas de flagrar a tempo uma teia gigantesca de corrupção que há anos fazia parte do quotidiano da administração pública da cidade de São Paulo. Em Fevereiro, alguém levantou a ponta véu que encobria a enorme sujeira. O Ministério Público e a Polícia puxaram a ponta do véu. As denúncias aumentaram, as provas começaram a ser levantadas, as ordens de prisão passaram a pôr gente na cadeia e a sociedade ficou espantada com o caráter quase oficial da quadrilha, formada por fiscais, técnicos e administradores regionais do município. As evidências logo produziram indícios de que os chefes da quadrilha eram vereadores eleitos pelo povo para cuidar do bem público.
Josias de Souza escreveu, melancólico e metaforista: "Épocas são como festas. Não se começa uma nova era antes de recolher os detritos da anterior. O jornalista é testemunha da farra. O historiador, faxineiro. Ele vem depois, para pôr as coisas no lugar. (...) Mais tarde, quando forem aspirar os tapetes de 1999, os faxineiros de nossa época notarão que este foi o ano em que a imprensa acordou para uma orgia que se desenrolava diante do seu nariz: a roubalheira na Prefeitura de São Paulo. Os jornalistas despertaram tarde. Quando abriram os olhos, os vereadores já haviam saqueado tudo, das jóias aos cinzeiros da casa."
O artigo de Josias de Souza é uma desencantada autocrítica: "O jornalismo passou a ser, entre nós, um ofício que confere certo prestígio àqueles que o exercem. É pena que a realidade insista em desfazer a aura de encantamento que envolve a profissão."

A história e os dilemas

Convém resumir o contexto em que se dá a escandalosa história de corrupção. Num dos lados estão milhares de vendedores ambulantes. Eles ocupam as calçadas das ruas mais movimentadas da cidade, e nelas disputam os melhores pedaços. Boa parte dessa gente, talvez a maioria, é formada pelos desempregados produzidos pela prolongada crise econômica que atrapalha o Brasil e pelo violento ajuste fiscal que o governo impõe à população sob a inspiração do FMI.
Os ambulantes escapam da miséria vendendo nas ruas, ilegalmente, todo o tipo de bugigangas, concorrendo com o comércio que paga impostos. Mas os transeuntes têm direito às calçadas, onde nada deve atrapalhar o seu direito de ir e vir. E o comércio que paga impostos tem direito a expor-se aos transeuntes que passam. Já as razões sociais estão do lado dos ambulantes. Eles têm direito à sobrevivência, e a lutar por ela. É, pois, um conflito complicado, que só se resolverá com soluções políticas. Ou com o fim da crise. Como as soluções políticas não existem nem são pensadas, e como a crise ainda promete mais desemprego, a questão dos ambulantes passou a ter a lógica do "vale tudo".
No outro lado da história, opondo-se aos vendedores ambulantes, está uma velha e conhecida legião de fiscais corruptos, protegidos pela cultura de tolerância que há séculos nos marca nessa questão da corrupção. Eles teriam o dever de combater, com os recursos da lei, a ocupação ilegal da calçadas. Em vez disso, e aproveitando-se da situação dramática dos ambulantes, montaram ou ajudaram a montar uma convivência lucrativa, com a cobrança periódica de "taxas", extorsão praticada sob o comando ou com a conivência de chefes administrativos nomeados por vereadores. Todos se locupletando. Uma orgia de corrupção e imoralidade, com a exploração simultânea do erário público e da miséria social.
A quadrilha começou a ser descoberta e apanhada depois que um dos líderes dos ambulantes, em lance arriscado, resolveu denunciar um dos fiscais. Estava documentado e foi corajoso: revelou nomes, cifras, episódios, testemunhas. O Ministério Público e a Polícia entraram na história, começaram a puxar o fio da meada e a oferecer aos jornalistas conteúdos escandalosos que, socializados, legitimavam a investigação e lhe davam significado político, social e cultural.
Para o bem e para o mal, no Brasil, nestes casos, o segredo de justiça não tem prevalência. E a divulgação barulhenta das descobertas julga e pune antecipadamente os envolvidos, devido à repercussão devastadora, irreversível, que a difusão massiva produz. Mas a divulgação também estimula atitudes de cooperação com a Polícia e o Ministério Público, por parte de quem tem informações. E desperta sentimentos cívicos de indignação que fazem bem ao País.

Na planície dos conflitos

Josias de Souza - assim o entendi - atribui ao jornalismo, entre as funções mais meritórias, a de atuar como polícia da sociedade. O jornalismo, atento e implacável, o olho vigilante para flagrar a desonestidade no serviço público, deveria ser o grande protagonista dos processos sociais, com direito às glórias maiores, se possível exclusivas, no combate aos desonestos.
Como, no caso (agora descoberto) da corrupção na cidade de São Paulo, o mérito da investigação está sendo da Polícia e do Ministério Público, Josias lamenta que os jornalistas tenham acordado tarde. Quase nos leva a supor que preferia o contrário: que a Polícia e o Ministério Público dormissem, para que aos jornalistas, acordados e vigilantes, coubessem os louros do sucesso.
Pois eu penso que a democracia brasileira dá provas de vitalidade alentadora quando se revela capaz de enfrenta e debelar a corrupção com a atuação da sua Polícia e do seu Ministério Público. Assim como também é prova de vitalidade democrática a coragem e o censo de cidadania de quem fez as primeira denúncia.
Política e culturalmente, porém, nem a coragem do líder dos ambulantes nem a competente atuação da Polícia e do Ministério Público produziriam aperfeiçoamentos éticos na sociedade paulista e brasileira sem a socialização garantida pela eficácia do discurso jornalístico. Ao contrário do que sugere o artigo de Josias de Souza, o jornalismo de São Paulo está fazendo bem esse trabalho: relata corretamente, e por boas razões éticas, os feitos e efeitos da investigação oficial; acrescenta à revelação dos fatos interpretações e ajuizamentos esclarecedores; e tem feito, até, um esforço de bons frutos na investigação de contextos.
O jornalismo não pode ter a ambição vaidosa de assumir protagnismos que devem pertencer a outros sujeitos sociais, principalmente os que constróem as divergências e os confrontos. Ao contrário, e a meu ver, deve privilegiar e desenvolver em si mesmo a vocação de captar, entender, interpretar e ajustar ou confrontar os discursos organizados dos actantes sociais, institucionalizados ou não, sejam eles produtores de ações ou vítimas delas.
Para que as transformações aperfeiçoadoras dos conflitos aconteçam a partir da sociedade e dentro dela, o jornalismo não pode colocar-se em altares sobranceiros, para a veneração, nem nos mirantes da soberba, para a exibição de vaidades. O jornalismo tem que se inserir na própria sociedade, oferecendo-lhe a eficácia ética do discurso jornalístico. E essa eficácia assenta na pedra angular da linguagem jornalística: o seu caráter asseverador. Já agora, permitam-me ir ao dicionário:
ASSEVERAR - Afirmar com certeza, segurança; assegurar.
Embora pareça uma definição simples, nela se resume a imensa e crescente complexidade do jornalismo contemporâneo. Que jornalismo deve ser esse? O ambiente onde se manifestam e se resolvem os conflitos decisivos da atualidade. Para que isso se dê com sucesso, o jornalismo terá que ser um ambiente confiável, a fim de que as revelações da ação jornalística, acreditadas, produzam efeitos. E confiável, porque livre, independente, rigoroso e criativo nos procedimentos; e porque fundamentado em razões éticas, a mais importante das quais o direito social à informação.

Professor de jornalismo na Universidade de São Paulo
chaparro@dialdata.com.br

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Boletim Nº 25 Série eletrônica
Março-Abril, 1999

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