Instituto Gutenberg
Idéias

O jornalismo não será reduzido a produto

Carlos Chaparro




O XIS DA QUESTÃO - Os ventos neoliberais que fustigam a atualidade podem ameaçar o jornalismo, mas não o matam. Porque até a lógica dos conflitos de mercado precisa de uma linguagem confiável de relato e análise, que informe e explique à luz dos valores.

Depois de 30 dias voluntariamente distanciado das inquietações da atualidade, em férias, retomei no Brasil a leitura de jornais. E encontrei na Folha de S.Paulo um provocador artigo do jornalista Alcino Leite Neto. Alcino anuncia o fim do jornalismo tradicional, substituído por um jornalismo híbrido que incorpora os fundamentos da publicidade e do entretenimento - e chama isso de "publijornalismo", produto de "uma revolução silenciosa", que na opinião do autor do texto vem ocorrendo há décadas na imprensa brasileira e internacional.
Alcino Leite Neto edita, na Folha, o caderno dominical "Mais", hoje o melhor espaço de jornalismo cultural na imprensa diária brasileira. É, pois, um profissional treinado e estimulado para a navegação no mar encapelado das idéias. Ao cunhar, com argumentos, o neologismo "publijornalismo", ele próprio assume saudáveis ousadias intelectuais, tentando identificar, qualificar e explicar as reelaborações que as contradições da atualidade impuseram ao jornalismo. Na visão de Alcino, "a publicidade - com suas regras e sistemas para vender um produto - foi mimetizada pelo jornalismo e transformou a imprensa em outra coisa", mais precisamente, naquilo a que ele chama de publijornalismo.
E escreve:
"Essa mutação presume que todos os elementos morais ou transcendentes agregados ao jornalismo ao longo de sua história se extinguiram ou não passam agora de caricatura". E também presume "que o jornalismo já não se alimenta dos chamados valores superiores que o tornavam uma espécie de consciência crítica da realidade e permitiam fazer da realidade um objeto que ele devia decifrar".
A provocação começa pelo título: "O admirável novo jornalismo". O adjectivo admirável autoriza a supor que Alcino considera evolução aperfeiçoadora esse novo jornalismo, que julga ver, inteiramente inserido na lógica do consumo, livre de amarras éticas e morais.
Até para que possam ser contestadas com lucidez, vale a pena transcrever as razões que sustentam a argumentação de Alcino Leite Neto. Ao analisar os antecedentes, ele diz que, antes, no intercâmbio realidade-jornalismo, o leitor ocupava o lugar de espectador passivo, e sobre ele a imprensa exercia um poder de influência. Era o leitor que aderia aos jornais, e essa adesão seguia afinidades ideológicas, ou de gosto, ou de posição de classe. Por isso havia publicações que se opunham umas às outras, diferindo em tudo. "A personalidade de uma publicação", escreve Alcino, "era algo intrínseco, pois, antes de existir para o leitor (...), respondia a uma certa demanda setorizada de valores (de esquerda ou direita, religiosos ou laicos) em uma sociedade heterogênea". Para o autor, "o jornalismo pôde se manter, assim, no bojo do capitalismo (...) como um produto excepcional: nem só mercadoria, nem apenas cultura".
Nos novos tempos, para Alcino, o publijornalismo ("admirável meio novo") não vê no que faz outra coisa senão um produto. "A noção se generaliza dentro das publicações e atinge todos os seus processos. (...) O publijornalismo só contesta, elucida ou investiga porque pretende fazer um melhor produto e vendê-lo mais, e não porque julga, como seu antepassado (o jornalismo), que estará também influenciando numa determinada realidade ou cumprindo um papel ideológico numa sociedade".
Alcino faz, portanto, o anúncio da morte do jornalismo. Com a seguinte conclusão: "A imprensa ainda vive essa situação como um problema, mas logo o drama chegará ao fim".

Confusão dos ventos

Que o jornalismo mudou, e as suas razões e a sua lógica também, isso só os saudosistas míopes ou os ingênuos supostamente esclarecidos não percebem ou não admitem. Algumas das mudanças mais transformadoras resultam da porosidade das fronteiras entre jornalismo, publicidade e propaganda, porosidade que, além de progressiva, é sistêmica, tem uma lógica de interações solidárias. Atravessamos no jornalismo, por isso, uma crise de mutação recheada de complicadas contradições.
A meu ver, porém, é falsa a conclusão que Alcino nos propõe. O jornalismo, como linguagem confiável de informação, desvendamento e análise da atualidade, mudou, sim senhor, e mais do que muitos imaginam. Mas não morreu. Nem interessa à sociedade que ele morra. Ao contrário: o jornalismo é cada vez mais importante para o sucesso dos conflitos nos processos sociais, políticos, econômicos e culturais, cenários em que, evidentemente, nem tudo se resumo ao negócio e ao consumo.
Se o mundo fosse movido e ordenado apenas pela energia do mercado, talvez Alcino estivesse certo. Mas o homem é um ser cultural. Cria os conflitos, age neles e, por meio deles, legitima coisas como o lucro, a livre concorrência, a exclusão. Submete as competições a valores hegemônicos e a projetos coletivos que a cultura impõe, para que se produzam aperfeiçoamentos. Os objetivos vitais das sociedades, ainda que adormecidos ou abafados, continuam sendo éticos, ligados às razões da vida. Por isso - lembro, à guisa de exemplo - nunca a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi tão evocada e tanto se impôs quanto hoje, para a identificação, denúncia, crítica e correção de situações que agridem o ser humano. Por isso - é outro exemplo - a Europa, que na economia ergue templos ao neoliberalismo, elabora, nos parlamentos da política e da cultura, o estatuto do cidadão europeu, que julgará e controlará as diabruras neoliberais nas definições do século XXI.
Alcino Leite Neto percebeu a força dos ventos que mudaram a atualidade e, por decorrência, o jornalismo. Mas, penso eu, confunde-se, porque confunde as coisas, quanto tenta entender (ou explicar) a origem e o movimento dos ventos. O jornalismo mudou, mas não porque tenha sofrido os efeitos miméticos da publicidade - e antes de avançar, talvez seja conveniente dizer que mimetismo é o fenômeno em que certos animais tomam as cores e a configuração do meio em que vivem.
Para além das precariedades da metáfora (afinal, jornalismo é o animal ou o meio?), a mutação fundamental que as transformações sociais impuseram ao jornalismo manifesta-se no seguinte fato, que as redações detestam reconhecer: os jornalistas deixaram de ser produtores dos conteúdos que interessam à divulgação jornalística, inclusive nos textos que assinam.
Isso mesmo: a profissão de jornalista deixou de ser a de produtores de conteúdos. Mas a mutação nada tem a ver com a publicidade nem com qualquer fenômeno mimético.




Bumerangues e propaganda

Creio que todos nós conhecemos a palavra bumerangue, que deriva de um vocábulo de remoto dialeto australiano, com a qual se designa uma arma de arremesso (originariamente usada por indígenas na Austrália), feita de madeira, com forma arqueada, que depois de descrever curvas e eventualmente atingir alvos, volta ao ponto de arremesso. Pois os conteú-dos jornalísticos, no mundo atual, têm a lógica do bumerangue.
Talvez para desgosto dos jornalistas ainda apegados à auréola ro-mântica da profissão, não está nas redações o ponto de arremesso do bu-merangue chamado notícia. Já esteve, não está mais, e na minha opinião, ainda bem. Quem hoje arremessa o bumerangue-notícia localiza-se fora das redações. Mas não é estranho aos processos jornalísticos, pois faz parte deles, quer isso agrade ou não aos jornalistas conservadores. Refiro-me às fontes organizadas, as muitas fontes organizadas, das oficiais às transgressoras, com as quais está a iniciativa da informação e das idéias transformadoras da atualidade. Falo de coisas e entes como governos e governantes, empresas e empresários, partidos políticos, universidades, igrejas, sindicatos, associações de todos os tipos, organizações não-governamentais, clubes, cientistas, artistas, especialistas etc., etc., etc..
Até as pessoas, individualmente, mesmo as ditas comuns, quando se julgam ou são consideradas suficientemente importantes para falar aos jornais, assumem-se instituições interessadas, e como tal falam, e ao falar agem, zelando pela imagem e por outros interesses próprios. Têm discur-sos interessados e organizados - conteúdos que alimentam o jornalismo.
São, numa grande parte das situações, discursos elaborados profis-sionalmente. Difundidos, tornam-se ações competitivas, com objetivos provavelmente estabelecidos por estratégias nem sempre manifestadas ou perceptíveis. Como tal, intencionalmente ou não, têm a propaganda como ingrediente inevitável, mesmo quando oferecem ao jornalismo conteúdos de reconhecida relevância social.
Propaganda não é a mesma coisa que publicidade. E o que conta-mina perigosamente o jornalismo é a propaganda, não a publicidade. Ao contrário do que Alcino Leite Neto sugere, a publicidade (inserções pagas, caracterizadas como anúncios) tinha, três ou quatro décadas atrás, relação bem mais promíscua com o jornalismo. Hoje, ao contrário do que aconte-cia antigamente, não só os códigos (inclusive os de proteção ao consumidor), mas também a cultura jornalística, e a do mercado, repudiam a publicidade dissimulada. E quando ela acontece, e é descoberta, há um escândalo.
Já a propaganda (conteúdos divulgados sem ônus, favoráveis a qualquer idéia, produto, pessoa, serviço ou instituição, acolhidos no jorna-lismo pela relevância do que se divulga) tempera os noticiários dos meios impressos e eletrônicos, mesmo quando não há tal intenção. É o efeito inevitável da institucionalização do mundo, que se transformou num mundo falante, e que fala principalmente pelos acontecimentos que as instituições produzem. O acontecimento tem formas, cronogramas, atores e autores, protagonistas e figurantes. Mais do que forma, porém, são conteúdos intencionais, mesmo nas grandes desordens ou tragédias ostensivamente provocadas.
A queda de fronteiras entre a propaganda e o jornalismo não signi-fica que o jornalismo tenha perdido ou esteja condenado a perder a sua identidade. Claro que, por causa dos conflitos entre os discursos oponentes que socializa, o jornalismo é submetido a tensões permanentes, cada vez maiores. Mas são tensões que exigem dele a preservação da credibilidade. Por um motivo filosófico-cultural: estão em jogo os valores que a sociedade define como bons para a construção do seu futuro. E por uma razão pragmática: os discursos só se afirmam e só alcançam sucesso quando socializados por um jornalismo que possa ser acreditado. É isso que dá importância e poder à ação jornalística.

Carlos Chaparro é professor de Jornalismo na Universidade de São Paulo
chaparro@dialdata.com.br



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Boletim nº 21 Série eletrônica
Setembro de 1998
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