Censura
Tesoura da ditadura cortou
a UPI
Há 25 anos, o Brasil entrava na treva pela
porta do Ato Institucional N.º 5. A ordem constitucional foi substituída
pelos termos draconianos do ato, promulgado em 13 de dezembro de 1968.
A censura à imprensa, proibida pela Constituição,nos
primeiros dias foi exercida por oficiais do Exército. Eles iam a
algumas redações e escolhiam o que saía nos principais
jornais. Alguns vetos eram transmitidos pelo telefone. A seguir, o serviço
foi alojado na Polícia Federal, com censores treinados para esta
função e nome no quadro de carreira: agente de censura. Grandes
jornais de resistência democrática, como O Estado de S.Paulo,
sofreram durante anos a presença do censor na gráfica. Ele
lia o jornal já montado, o que era um transtorno a mais: se algo
fosse vetado, a notícia não poderia ser substituída.
O Estadão passou a publicar receitas de bolo e poemas de Camões
no vácuo da censura.
Já nos anos 70, jornais de oposição explícita,
como os semanários Opinião e Movimento, sofreram censura
ainda mais rigorosa do ponto de vista da operação: eram obrigados
a mandar todos os textos e ilustrações para a Polícia
Federal, em Brasília, e recebiam de volta as laudas cortadas. No
caso de Movimento, a censura conferia o jornal impresso para checar se
os cortes haviam sido respeitados.
Um aspecto pouco conhecido da ação da censura foi
a vigilância sobre as agências de notícia estrangeiras.
A United Press International (UPI) foi uma das vítimas. Seu correspondente
no Brasil, John Virtue, conta, no depoimento ao lado, alguns entreveros
com a polícia política. O episódio do fechamento do
Congresso a que ele se refere teve como pivô o deputado Marcio Moreira
Alves, do MDB, hoje colunista do Globo. A censura acabou em 1978. A UPI
fechou o escritório em 1997.Virtue atualmente é professor
na Universidade Internacional da Flórida, em Miami.
Poucas vezes a imprensa estrangeira foi submetida
à censura na América Latina, mas isso ocorreu quando o presidente
brasileiro Artur da Costa e Silva fechou o Congresso em 13 de dezembro
de 1968 e assumiu poderes excepcionais.
Os censores não foram enviados apenas para os jornais, rádios
e estações de televisão brasileiros. Foram parar também
nas agências internacionais de notícias e em suas salas de
telex e teletipo. Como diretor da UPI, eu fui recebido por um major do
exército brasileiro quando cheguei dia 15 de dezembro à redação,
que naquela época ficava no antigo prédio do Jornal do Brasil,
na Avenida Rio Branco. O major explicou que nada poderia ser transmitido
sem sua prévia aprovação e disse que todas as ligações
telefônicas seriam monitoradas.
Consegui frustrar a censura através da transmissão de
radiofotos. Eu mostrava ao major uma cópia da foto que queria que
ele liberasse para transmissão. Depois, enviava uma legenda de 200
a 300 palavras, que era, na prática, uma notícia completa.
Os censores permaneceram na redação das agências
internacionais e nas salas de telex e teletipo por uma semana. Costa e
Silva fechou o congresso depois que a Câmara dos Deputados negou
a autorização para que um de seus integrantes fosse processado
por ofensa às forças armadas. O fechamento do Congresso foi
seguido de uma série de prisões em todo o país, resultado
da ascensão dos militares “linha-dura” dentro do governo.
Mesmo antes do fechamento do Congresso, a imprensa brasileira estava
sujeita à autocensura, quando não censura direta. Já
que a imprensa não podia publicar notícias atacando a ditadura
militar, a UPI não traduzia para o português esse tipo de
notícia quando elas chegavam em inglês e espanhol aos teletipos
do escritório de São Paulo. Contudo, eu costumava colocar
esse material em um envelope e dá-lo ao editor internacional do
Estado de S.Paulo, para que fizesse o uso que achasse melhor.
Um dia o Estado publicou um desses artigos, com o crédito para
a UPI. Assim que o jornal chegou às bancas, eu fui chamado ao DOPS
para explicar como a notícia chegara ao jornal. Eu disse ao policial
de plantão que costumava dar ao Estado de S.Paulo, para sua informação,
esse material não traduzido.
“Da próxima vez que você tiver material ‘quente’ ”, disse
ele, “coloque-o em um envelope mas mande-o para mim”.
Também fui chamado ao DOPS no Rio, quando um mensageiro da UPI
foi preso no aeroporto do Galeão, onde ele tentava localizar um
passageiro que pudesse levar um pacote com filmes de televisão para
Nova York. Na década de 60, essa ainda era a melhor maneira de enviar
imagens jornalísticas para fora do Brasil.
O pacote continha filme não revelado de uma corrida de cavalos
internacional que tinha ocorrido no Rio naquele dia e também, mudando
totalmente de assunto, imagens para ilustrar uma matéria sobre violência
policial na Zona do Mangue. Entre as imagens aparecia uma prostituta de
75 anos de idade.
O policial do DOPS, um homem alto, cerca de 60 anos, bem apresentado
e impecavelmente arrumado, disse que nós estávamos tentando
desabonar a imagem do Brasil através da distribuição
de fotos de prostitutas. Eu garanti que era exatamente o contrário:
nós queríamos justamente mostrar que o Brasil não
era conivente com a prostituição. Agradeci a ele por haver
revelado o filme, que àquela altura já não possuía
nenhum valor jornalístico.
John Virtue
Boletim nº 19 Novembro-Dezembro de 1997
© Instituto Gutenberg
-
Índice
igutenberg@igutenberg.org